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Brasília Sexagenária: Conheça a história da Igrejinha e Praça do Cruzeiro

Pontos turísticos, como a praça do cruzeiro e a Igreja Nossa Senhora de Fátima, são espaços de destaque na história da capital. Conheça o papel dos monumentos em mais uma matéria da série Brasília sexagenária

Caroline Cintra, Juliana Andrade
postado em 22/03/2020 08:00
Pontos turísticos, como a praça do cruzeiro e a Igreja Nossa Senhora de Fátima, são espaços de destaque na história da capital. Conheça o papel dos monumentos em mais uma matéria da série Brasília sexagenáriaUma promessa, a primeira missa no Plano Piloto, o ponto mais alto do Eixo Monumental. Esses são alguns dos fatos que contribuíram para a praça do Cruzeiro e a Igreja Nossa Senhora de Fátima, conhecida como a igrejinha, ganharem um lugar especial no coração dos brasilienses. Na matéria de hoje da série Brasília sexagenária, o Correio fala sobre os dois pontos turísticos que nasceram da fé de Juscelino e de Sarah Kubitschek. Espaços cheios de histórias e memórias dos primeiros anos da capital federal.

Comparado aos outros monumentos da cidade, a praça do Cruzeiro pode parecer algo simples, mas, sem dúvida, é um dos pontos mais importantes da cidade, além de proporcionar o cenário perfeito para registros do pôr do sol. E não à toa: o lugar é o ponto mais alto do Eixo Monumental e ganhou destaque na história da construção. Ali foi realizada a primeira missa oficial no Plano Piloto, em 3 de maio de 1957. Aos 89 anos, o aposentado José Paulo Sarkis lembra com detalhes do momento histórico. ;Colocaram quatro postes ao redor do altar e uma lona bem grande, com uns 10 metros de largura e 30 de comprimento para cobrir o sacrário. Tinha muita gente importante naquele dia, inclusive JK. Eu estava com minha esposa e os três filhos;, conta. À época, o Eixo Monumental ainda era um vazio. José recorda que os poucos moradores do local ficaram preocupados com o lugar no qual a celebração seria realizada. ;Era tudo mato. E muita gente perguntava onde aconteceria. Outra dúvida era se ia ter comida;, brinca. ;Foi um privilégio participar desse momento, apesar de não ser muito religioso.;

Nascido em Uberlândia (MG), o aposentado chegou a Brasília em 4 de março de 1957. O meio de transporte usado foi um caminhão. Ele saiu da cidade mineira por volta das 8h de uma segunda-feira e chegou em Goiânia (GO) meia-noite de um sábado. ;A estrada era ruim e era época de chuva, estava um atoleiro. Foi quase uma semana em um trecho de 120 km. De lá, peguei um ônibus para o local da construção de Brasília. Fui o passageiro número 1 da companhia;, lembra. No início, José morou em um acampamento na Cidade Livre. Depois, mudou-se para a W3 Sul. Foi o responsável pela instalação elétrica e hidráulica de vários prédios durante a construção da cidade, entre eles o Hospital Sarah Kubitschek. ;Minha profissão me permitiu estar em todos os lugares durante esse período. Era um privilégio para poucos;, declara.

A cruz

Antes da missa, já havia uma cruz no lugar. A estrutura de madeira mostrava o ponto com maior altitude do Sítio Castanho, área demarcada para a construção da nova capital. ;Naquela época, geralmente, as igrejas eram construídas no local mais alto. Elas ficavam em cima do morro e a cidade ia nascendo ao redor;, explica Gustavo Chauvet, pesquisador do Arquivo Público do Distrito Federal.

Devido ao desgaste do tempo, a cruz original acabou substituída por uma nova para a celebração da primeira missa. A madeira para a confecção veio de Pirenópolis (GO). Altamir Mendonça, 84, foi o responsável por trazer o material, que era fornecido pelo pai, proprietário de um sítio na cidade goiana. O conteúdo veio em caminhões, uma atividade nada fácil. ;Não tinha estrada, não tinha energia, não tinha telefone, não tinha nada. Levei os trabalhadores na carroceria. O córrego estava cheio, não tinha ponte, precisava colocar madeira para passar, então eu gastei uns dois dias para chegar;, recorda. A madeira foi usada tanto na estrutura da missa, como para a construção do Catetinho.

Altamir ficou para a celebração e acabou se instalando em Brasília. ;Vim sozinho. Montei uma barraca na beira do córrego Paranoá para dormir;, conta. A paixão por Brasília veio da influência do pai. ;Ele acreditava que Brasília seria a redenção do interior do Brasil e eu discutia com ele que não. Aqui era sertão, não tinha nada, mas ele acreditava tanto! Isso passou para mim e realmente era verdade. Juscelino abriu Brasília para todo o Brasil;, ressalta. Para se sustentar, Altamir tinha um armazém na Cidade Livre e ficou na capital até a renúncia do presidente Jânio Quadros, quando decidiu voltar para Pirenópolis. Atualmente, mora no sítio do pai. Hoje, além de produtor, é advogado.

Curiosidades

Igrejinha
  • O primeiro pároco da igreja foi o Frei Demétrio. Ele ficava em um barraco de madeira, na quadra, e atendia na igrejinha. Ele ficou conhecido como o candango de Fátima.
  • A arquitetura da igreja faz referência a um chapéu de freiras.
  • O templo foi construído em 100 dias.
  • A Igrejinha é mais um dos monumentos embelezados pelos azulejos de Athos Bulcão. Por dentro, diferente de outras igrejas, o templo conta com obras de arte moderna. As pinturas foram feitas originalmente pelo artista italiano Alfredo Volpi. Ele desenhou a Virgem Maria segurando o menino Jesus nos braços. As figuras não tinham rosto e repousavam sob um fundo azul. Porém, a obra de arte foi destruída na década de 1960. O painel foi pintado novamente em 2009, pelo artista Francisco Galeno, que manteve as características em homenagem ao artista.

Fonte: Paróquia Nossa Senhora de Fátima

Cruzeiro
  • A cruz usada na primeira missa foi substituída. A original está exposta na Catedral Metropolitana de Brasília.
  • A primeira missa realizada na Praça do Cruzeiro aconteceu na mesma data do primeiro ato litúrgico no Brasil, 457 anos depois.
  • Uma marcação, em forma piramidal pintada de laranja, a 38 metros da cruz, sinaliza o vértice n;8, ponto usado como referência para a construção da cidade, com base no projeto de Lúcio Costa.
  • Um réplica da estrutura de madeira e lona construída para abrigar os convidados da missa, projetada por Oscar Niemeyer, foi instalada na entrada do Taguaparque, em 2008.

Fonte: Agência Brasília

Um templo diferente
Pontos turísticos, como a praça do cruzeiro e a Igreja Nossa Senhora de Fátima, são espaços de destaque na história da capital. Conheça o papel dos monumentos em mais uma matéria da série Brasília sexagenária

A alguns quilômetros do cruzeiro, um outro monumento chama a atenção dos turistas e dos moradores da cidade: a igreja Nossa Senhora de Fátima. Obra de Oscar Niemeyer, o templo não passa despercebido entre os prédios da 308 e 307 Sul. De família católica e fervorosa, a aposentada Maria Therezinha Zimmerer, 89, frequenta o local há 58 anos. Passou duas décadas à frente da leitura bíblica nas missas das quartas-feiras e dos domingos. Era uma tradição. Quando chegou em Brasília, em 24 de dezembro de 1961, conheceu o Frei Demétrio, o primeiro a conduzir a igrejinha. Ela lembra do sacerdote com carinho. ;As pessoas contam que um dia, ao entregar a hóstia para um peão, durante a construção de Brasília, o pão caiu. E ali ficou. No outro dia, segundo os operários, a hóstia estava do mesmo jeito. As formigas ficavam em volta, mas não encostaram nela;, conta. Até hoje, dona Thê, como é conhecida, não confirmou se a história é verdadeira, mas guarda o relato como uma das memórias do sacerdote.

A igrejinha foi inaugurada em 28 de junho de 1958, na 308 Sul. O templo erguido a pedido da mulher de Juscelino, Sarah Kubitschek, seria o pagamento de uma promessa. A obra foi o primeiro templo de alvenaria construído no Plano Piloto e está próxima da primeira quadra residencial concluída, a 108 Sul, e da quadra modelo, a 308. O comércio em frente, era, naquela época, o principal ponto de vendas na região central. O local acabou conhecido como rua da igrejinha. ;A igrejinha foi construída dentro do conceito de unidade de vizinhança, aplicado por Lúcio Costa. Ele incluía uma igreja, um clube da vizinhança, uma escola classe, uma escola parque e um comércio;, explica Gustavo Chauvet.

Após a inauguração, o templo entrou para a rotina do fim de semana da população. Natanry Osório, 81, lembra que a programação dos domingos era a mesma: ir à missa da tarde e depois lanchar na Pizzaria Dom Bosco, localizada na mesma quadra do templo. ;Sempre nessa ordem. À época, ainda não tinha muitas coisas, eram poucas construções, mas a igrejinha fazia o coração de todo mundo bater mais forte. Vou lá até hoje;, conta. Para ela, a celebração mais bonita foi a da abertura, com a presença de Sarah Kubistchek. ;Foi muita emoção naquele dia. Nunca me esqueço. Minha relação com a igreja é forte, criei meus filhos lá e todos adoram aquele lugar;, afirma.

"Ela aumenta a nossa fé;

Muitos os moradores da cidade têm afeição pela igreja. A aposentada Edite Leal, 79, faz parte desse grupo. Ela chegou em Brasília em 1962 e frequenta o templo desde então. Na primeira vez que pisou no local, ainda era solteira. Veio para o batizado de um sobrinho. ;Eu morava no Núcleo Bandeirante e vinha com meu pai, de ônibus, de vez em quando. Depois, eu me casei, continuei no Núcleo Bandeirante e vim algumas vezes com o meu marido. Quando mudamos para o Lago Sul, vinha esporadicamente (à igreja), até vir de vez para a Asa Sul;, afirma. A aposentada se mudou com o marido para o Plano Piloto, pois queriam morar em apartamento. Ela ressalta que o templo teve um peso a mais na escolha da quadra. ;Muita gente frequenta a igrejinha porque veio morar aqui, mas a gente mora aqui por causa da igreja;, ressalta. Para ela, o lugar é especial. ;É diferente de todos os templos. Não pela a arquitetura, mas pelo ambiente. Sinto que ela aumenta a nossa fé;, diz.

Edite vai à missa três vezes por semana e hoje ajuda nas celebrações como ministra da Eucaristia. Apaixonada por Brasília e pelo templo, ela ainda produziu um livrinho contando a história do lugar. ;Foi um mês pesquisando. Tive que correr contra o tempo. Conversei com antigos moradores da quadra, com párocos, inclusive as matérias do Correio Braziliense foram algumas das minhas fontes;, comenta. Emocionada, Edite tem a igreja como parte da própria vida. ;Eu me sinto muito satisfeita com o templo que eu frequento. Fico muito feliz em participar dos eventos da igrejinha, em especial das missas;, garante.




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