Cidades

Em hospitais ou nas ruas, leia histórias de quem atua em áreas essenciais

O Correio ouviu profissionais que atuam em funções essenciais para a população e não têm outra opção senão a de permanecer na linha de frente, em hospitais ou nas ruas, para garantir a prestação de serviços indispensáveis à população

Jéssica Eufrásio
postado em 29/03/2020 07:00
O Correio ouviu profissionais que atuam em funções essenciais para a população e não têm outra opção senão a de permanecer na linha de frente, em hospitais ou nas ruas, para garantir a prestação de serviços indispensáveis à populaçãoO isolamento social necessário no combate à Covid-19 tem como exceção algumas áreas de atuação essenciais em que trabalhar de casa não é uma opção. Desempenham essas tarefas homens e mulheres que têm se esforçado dia e noite para garantir a oferta de serviços indispensáveis neste período de crise pandêmica: saúde, segurança, transporte, comunicação, além de comércios específicos.

Ao Correio, alguns desses profissionais contam como a rotina mudou e por que os cuidados se intensificaram. A preocupação com a saúde começa desde a saída para o expediente e continua na volta para casa.

O momento requer adaptações e mudança de hábitos, principalmente em nome da empatia e da solidariedade. Enquanto algumas pessoas não têm opção senão a de trabalhar sob constante risco de serem infectadas pelo coronavírus, você, se puder, permaneça em casa por elas.

Na limpeza da cidade

A função do gari Francisco Rodrigues Martins, 38 anos, envolve fazer o possível e o impossível para não se contaminar ou deixar que outras pessoas se contaminem. Das 7h às 14h, ele e uma colega varrem as ruas de Taguatinga. ;Estamos tentando nos precaver. Também pedimos à população que, ao descartar materiais de uso pessoal, como máscaras, copos, luvas e seringas, coloquem esses itens em sacos separados, com identificação, para nos ajudar;, recomenda. Ao voltar para casa, antes de ir direto para o chuveiro, o ritual de Francisco também é metódico: tirar todo o uniforme, esterilizar as botas, além de lavar rosto, pernas e braços com água e sabão. Sem a possibilidade de fazer home office, ele pede que os brasileiros só deixem as residências quando extremamente necessário. ;Tomem bastante cuidado. Se todo mundo estiver atento e fizer a própria parte, vamos vencer essa guerra.;

No transporte de passageiros

O Correio ouviu profissionais que atuam em funções essenciais para a população e não têm outra opção senão a de permanecer na linha de frente, em hospitais ou nas ruas, para garantir a prestação de serviços indispensáveis à população
;É um momento difícil para todos, não só para a gente;, define o motorista de ônibus Francimar Saturnino de Barros, 33. A exposição ocorre diariamente durante o itinerário Riacho Fundo 2-W3 Sul e Norte. Ao longo de cinco horas, ele transporta passageiros para diferentes destinos. ;Em cada viagem, há de cinco a oito idosos. E, neste período de pandemia, é meio complicado, pelo fato de eles serem mais vulneráveis;, conta. Mesmo com a queda de cerca de 260 passageiros para aproximadamente 15 a cada trajeto, Francimar toma atitudes preventivas. ;Usamos álcool em gel constantemente e, no terminal, há uma equipe que higieniza os ônibus, enquanto vamos ao banheiro para lavar as mãos e seguir a jornada;, detalha. ;É um momento delicado, complicado. Uma hora, a pandemia chegará mais forte aqui (no país), mas temos de lutar sempre e jamais desistir;, completa o motorista.

No vaivém dos brasilienses

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Enquanto os coletivos estiverem circulando pelo Distrito Federal, a cobradora de ônibus Danielly Andrade, 29, não pode parar. Moradora de Samambaia Sul, ela comenta que faz parte de uma classe que é a última a dormir e a primeira a acordar. Por isso, pede a conscientização da população em nome de quem não pode ficar em casa com a família. ;Meus filhos e minha avó estão com a minha mãe, pois temos de tomar medidas para nos prevenir. Trabalho mexendo com dinheiro, e sabemos que podemos nos contaminar (por meio dele);, lembra. Apesar do número crescente de casos da Covid-19, Danielly pede que as pessoas não fiquem apavoradas diante da crise e que só saiam em caso de extrema necessidade. ;Todos queremos trabalhar para que não haja um caos em Brasília, mas peço que a população tenha consciência. Assim, as pessoas que sabemos que não podem parar de trabalhar, podem continuar.;

No resgate de pessoas

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Há 20 anos na função de socorrista, o sargento do Corpo de Bombeiros Alex Pereira Alves, 42, sabe da necessidade de se precaver. ;Tem a preocupação de acabarmos nos contaminando e transmitindo (o coronavírus) para parentes. Fora isso, há a questão psicológica. Por mais que sejamos treinados para lidar com situações extremas, um cenário como esse acaba trazendo medo;, confessa. O militar não entra em casa fardado, retira o coturno ao chegar e coloca o uniforme direto na máquina de lavar. Para evitar riscos à saúde dos pais, que têm mais de 60 anos, Alex os levou para uma chácara da família. ;A dica que posso dar como socorrista é o lockdown (isolamento). A letalidade (da doença), por menor que seja, pode tornar-se maior na medida em que hospitais não poderão mais atender a pessoas contaminadas por falta de respiradores e de estrutura física;, alerta o sargento.

No policiamento ostensivo

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Ainda que uma parte da população esteja em quarentena, ocorrências policiais não deixam de acontecer. O tenente da Polícia Militar Leandro Almeida, 37, observa que, nas últimas semanas, houve queda em alguns tipos de registros na região onde ele atua, que inclui Taguatinga, Águas Claras e Vicente Pires. Enquanto roubos a comércio caíram, denúncias de perturbação do sossego de vizinhos subiram. Leandro considera a situação ;bem complicada; e acredita que as pessoas devem fazer as atividades necessárias com o devido cuidado, especialmente se tiverem em casa pessoas com mais chances de desenvolver um quadro grave da Covid-19. ;Mesmo que discordemos de algumas questões, quando seguimos orientações das autoridades competentes, podemos cobrar depois. Vamos nos atentar às informações que são oficiais e trabalhar com dados reais, não com aquilo que achamos;, destaca o militar.

Na entrega de pedidos

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É de entregas que o motoboy Alessandro da Conceição, 27, tira o próprio sustento. Nesta fase em que o serviço de delivery está em alta, o medo de quem trabalha no ramo aumentou. ;Foi muito difícil achar produtos como álcool em gel. Não fui trabalhar por uma semana por causa disso, pois não tinha como fazer essa higienização das mãos;, relata. Nas ruas por mais de 12 horas diárias, ele entende a necessidade de trabalhar com itens de proteção individual. Mesmo assim, enfrenta perrengues. ;Os clientes estão bem receosos. E, entre os motoboys, vejo muita aglomeração. Fico bastante preocupado;, desabafa. Cadastrado em três empresas de entrega, ele acredita que os motociclistas que atuam nessa área estão na linha de frente. ;Temos de ver o que acontece na Itália, porque levaram (a Covid-19) na brincadeira e não acreditaram que era séria. No Brasil, temos de levar isso como exemplo. É muito importante que todos fiquem em casa.;

Na transmissão de notícias

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Lidar com o excesso de dados durante uma pandemia é desafio dos jornalistas. Para Humberto Rezende, 46, um dos editores do site do Correio, este período culmina em duas principais preocupações: informar sem deixar as pessoas em pânico e, ao mesmo tempo, manter a população ciente da gravidade que o momento representa. ;A cada nova matéria, temos de nos fazer essa pergunta: estou cumprindo meu papel de informar o que as pessoas precisam saber?;, diz. Atualmente, o principal desafio tem sido lidar com o fato de parte dos funcionários trabalhar em home office. ;A redação sempre foi um espaço de muita troca de experiências, que ajuda a pensar em pautas. Sinto falta disso. O jornalismo tem muito debate. Como é uma profissão com responsabilidade muito grande do que você vai publicar ou de como vai apresentar determinada história, conversar, dialogar e pensar com os colegas é muito importante.;

No reforço à segurança

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Independentemente da área em que atuam, os funcionários da Polícia Civil estão de sobreaviso. É o caso da delegada Anie Rampon Barretto, 41, que não pode trabalhar em regime de home office. Ela considera que o cenário é de incerteza em relação às consequências que o vírus pode causar e, por isso, ressalta a necessidade de a população seguir as orientações do poder público. ;Há decretos determinando o que pode ou não ser feito e normas sanitárias que temos de seguir, independentemente de opinião sobre o tema. E não segui-las pode constituir crime de desobediência ou contra a integridade física ou às vidas de outras pessoas;, reforça a delegada. ;É importante também nos atentarmos a eventuais perturbações nas residências vizinhas. É um momento em que as pessoas mais vulneráveis ficam mais expostas a riscos. Não fechem os ouvidos. Saibam que a polícia continua trabalhando e pode ser acionada.;

Na oferta de medicamentos

O Correio ouviu profissionais que atuam em funções essenciais para a população e não têm outra opção senão a de permanecer na linha de frente, em hospitais ou nas ruas, para garantir a prestação de serviços indispensáveis à população
[SAIBAMAIS]Donos de uma drogaria no P Sul, em Ceilândia, o comerciante Francisco de Souza Loiola, 58, e a farmacêutica Idalice Pozzebom, 34, resolveram isolar a área interna da loja, para que os clientes mantivessem distância e para que os idosos evitassem parar para conversar. ;A maioria é bem carente para conversar e quase não tem companhia. Tentamos explicar para eles e, com o tempo, vão entendendo;, diz Idalice. A higienização do ambiente aumentou e o serviço de entregas mudou. Agora, os dois levam os produtos às casas, devidamente paramentados. ;Vou de carro, luva, máscara e fico longe. Levo a máquina do cartão dentro de uma sacola e o cliente só digita a senha;, conta Francisco. ;Falta conscientização. Com todo mundo na rua, o sistema de saúde não vai suportar, não terão leitos suficientes para atender a quem se contaminar, por isso é importante o isolamento social;, completou Idalice.

Na vigilância de hospitais

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;Temos de ter cuidado o tempo todo;, resume a vigilante Claudiane da Costa, 46. No Hospital Regional de Brazlândia (HRBz), onde atua, ela se preocupa com o aumento da movimentação de pessoas. ;Estamos orientando colegas a passar álcool em gel nas mãos e providenciando kits de higiene e proteção individual. Mas o vigilante é a porta de entrada da unidade de saúde. Temos contato com pacientes e com quem trabalha na área da saúde também. Um depende do outro;, comenta. O recado de Claudiane é o mesmo para familiares, amigos e para quem frequenta o HBRz: ;Meu pedido é para que as pessoas vão apenas em casos de urgência, risco de morte. Tem muita gente que aparece para visitas, e isso não é legal neste momento, para a própria pessoa e para os pacientes. Para nós, que trabalhamos na área da saúde, é melhor que as pessoas fiquem em casa até este momento passar. Isso nos ajuda muito.;

Na batalha contra o vírus

Se você também presta algum serviço indispensável à população do Distrito Federal ou conhece alguém que está na liha de frente do combate ao coronavírus, grave um vídeo com depoimento no Instagram e marque com a hashtag #aquelesquecuidamdenos. As imagens poderão ser reproduzidas no site do Correio, para levar essa importante mensagem aos leitores.

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