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Correio Braziliense

Caixa de Pandora: Governo e distritais são investigados

Polícia Federal cumpre mandados de busca e apreensão na Câmara Legislativa, no Buriti e na Residência Oficial de Águas Claras


postado em 02/04/2020 06:01 / atualizado em 19/03/2020 14:46

Os agentes estiveram pela manhã na Câmara Legislativa, onde apreenderam documentos em gabinetes de três distritais: suspeita de pagamento de propina para a base aliada (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Os agentes estiveram pela manhã na Câmara Legislativa, onde apreenderam documentos em gabinetes de três distritais: suspeita de pagamento de propina para a base aliada (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Esta matéria foi publicada originalmente na edição de 28 de fevereiro de 2009 do Correio. Sua republicação faz parte do projeto Brasília Sexagenária, que até 21 de abril de 2020 trará, diariamente, reportagens e fotos marcantes da história da capital. Acompanhe a série no site especial e no nosso Instagram.

 

Por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a Polícia Federal desencadeou ontem uma operação que atinge o núcleo do poder da capital da República. Chamada pelos investigadores de Caixa de Pandora, a ação policial cumpriu 29 mandados de busca e apreensão em casas e escritórios de 16 pessoas. A Câmara Legislativa, o Governo do Distrito Federal e o Tribunal de Contas do DF (TCDF) são os focos da apuração de supostos crimes de fraude em licitação, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Há suspeita da existência de um esquema de pagamento de propina em troca de apoio para deputados da base aliada ao governo. 

 

(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
A ação se baseia em gravações obtidas por meio de escutas ambientais. O aparato foi escondido nas roupas do delegado aposentado Durval Barbosa, que até ontem era o secretário de Relações Institucionais do governo local. Segundo informações contidas no inquérito judicial, Durval gravou, em 21 de outubro deste ano, uma conversa com o governador José Roberto Arruda (DEM) sobre o destino de R$ 400 mil em poder do então secretário. A reportagem do Correio teve acesso ao inquérito de 780 páginas do STJ, onde constam degravações de conversas mantidas por integrantes do governo a respeito de doações de recursos.

 

No documento do STJ, Arruda aponta o destino do dinheiro levado por Durval, o chefe da Casa Civil, José Geraldo Maciel. Ele foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão da PF. O secretário de Educação, José Valente, o assessor de imprensa Omézio Pontes, o chefe de gabinete de Arruda, Fábio Simão, além do conselheiro do TCDF Domingos Lamoglia tiveram objetos como computadores, agendas e mídias apreendidos pelos policiais. 

 

As casas e os gabinetes de quatro deputados distritais também foram vasculhados pela Polícia Federal. São eles o presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente (DEM), o presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Casa, Rogério Ulysses (PSB), a líder do governo, Eurides Brito (PMDB) e o suplente de distrital Pedro do Ovo (PRP). Durante as buscas, os investigadores apreenderam R$ 700 mil em espécie, US$ 30 mil, além de 5 mil euros em 12 endereços não revelados. A ação contou com a mobilização de 150 policiais, além de 23 procuradores da República.

 

As empresas Infoeducacional, Vertax, Adler e Linknet, todas do ramo de informática, também são investigadas por suposta participação no esquema de corrupção. O inquérito indica a suspeita de que José Geraldo Maciel, José Valente e Domingos Lamoglia recolhiam dinheiro das empresas citadas para dividir entre a base aliada. Participava do procedimento também, segundo o inquérito, o dono da empresa Linknet, Gilberto Lucena. Ciente da existência desse dinheiro, a Polícia Federal rastreia a movimentação da quantia. 

 

Em outro trecho do inquérito, Durval relata à PF que o suposto esquema é anterior à eleição de 2006. A arrecadação de dinheiro teria começado durante a campanha eleitoral que elegeu Arruda ao GDF. No entanto, segundo informações de assessores do Buriti, esses valores estariam registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Ação da PF

A Operação Caixa de Pandora iniciou por volta das 6h30 de ontem. O primeiro local vistoriado pelos policiais foi a Câmara Legislativa. Os agentes chegaram com discrição, como recomendou o ministro do STJ, Fernando Gonçalves, responsável pelo inquérito judicial. Depois, se encaminharam para o anexo do Palácio do Buriti e em seguida para a sede do TCDF. Foram ainda até o escritório do chefe de gabinete de Arruda na Residência Oficial de Águas Claras

 

As buscas e apreensões decorrentes da autorização foram acompanhadas por procuradores do Ministério Público Federal nos locais indicados: 21 no Distrito Federal, dois em Belo Horizonte e um em Goiânia. Segundo o STJ, a apuração do caso teve a colaboração de Durval Barbosa, que aceitou a proposta de delação premiada oferecida pelo Ministério Público. “Em função disso, foi aberta a ele a participação em programa de proteção de testemunhas da Polícia Federal.

Para saber mais 

A Caixa de Pandora é um mito grego que se tornou uma expressão muito utilizada quando se quer fazer referência a algo que gera curiosidade, mas que é melhor não ser revelado ou estudado, sob pena de se mostrar algo terrível, que possa fugir de controle. Pela lenda, Pandora foi enviada a Epimeteu,irmão de Prometeu, como um presente de Zeus. Prometeu,antes de ser condenado a ficar 30 mil anos acorrentado no Monte Cáucaso, alertou o irmão quanto ao perigo de se aceitar presentes de Zeus. Epimeteu ignorou a advertência do irmão e aceitou a oferenda do rei dos deuses,e se casou com Pandora. Ela trouxe uma caixa, que acabou aberta por Epimeteu, liberando os males que haveriam de afligir a humanidade dali em diante: o trabalho, a doença,a loucura,a mentira e a paixão.

 

Colaborou Luiz Calcagno

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