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Correio Braziliense

Fogo destrói Igreja dos Pioneiros

Manchas de óleo diesel e pedaços de jornal encontrado próximo ao local levantam suspeitas de que o templo de madeira da Vila Planalto foi vítima de incêndio criminoso


postado em 03/04/2020 06:02 / atualizado em 02/04/2020 19:29

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de 6 de março de 2000 do Correio. Sua republicação faz parte do projeto Brasília Sexagenária, que até 21 de abril de 2020 trará, diariamente, reportagens e fotos marcantes da história da capital. Acompanhe a série no site especial e no nosso Instagram.

 

(foto: José Varella/CB/D.A Press)
(foto: José Varella/CB/D.A Press)
A dona de casa Maria do Carmo Silva, ou simplesmente “Dona” Carmélia, como é conhecida na comunidade da Vila Planalto, não conseguia acreditar no que estava vendo. A madrugada do domingo de carnaval certamente não será esquecida por ela tão cedo. Em silêncio, olhava para as cinzas da igreja Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, completamente destruída por um incêndio, que em poucos minutos acabou com história de mais de 40 anos. Pior: vestígios de combustível encontrados no local levam os bombeiros a crer que foi incêndio criminoso. 

 

Tudo começou por volta de 1h45. Uma viatura do Corpo de Bombeiro tinha acabado de passar em frente à igreja, a caminho de um atendimento na 402 Norte. Nada de anormal foi verificado. Dez minutos depois, o chamado pelo rádio, avisando que o antigo prédio de madeira estava em chamas. “Quando chegamos, a igreja praticamente havia desaparecido entre as labaredas”, conta o comandante do 1º Batalhão de Incêndio, coronel Sérgio Aboud. A equipe ainda pediu reforço de outro carro-pipa, mas não adiantava mais. 

 

Segundo um dos bombeiros, de cerca de um quilômetro de distância podia-se ver “bolas” de fogo no local. Como era toda de madeira e ressecada, a igreja foi consumida numa rapidez espantosa. Moradores ainda correram para a rua, pediram socorro, avisaram aos vizinhos, mas foi em vão. As únicas coisas que sobraram foram uma das paredes, o campanário enegrecido e o sino, tantas vezes usado para chamar a comunidade para a missa.

 

(foto: Nehil Hamilton/CB/D.A Press)
(foto: Nehil Hamilton/CB/D.A Press)
“Há 85% de chance de o fogo ter sido provocado. E temos várias evidências disso”, garante o coronel Aboud. A hipótese de curto-circuito, por exemplo, está descartada. Desde setembro do ano passado, quando a Defesa Civil determinou a interdição do prédio, devido ao risco de desabamento, a energia elétrica estava cortada. Os laudos periciais do Corpo de Bombeiros e do Instituto de Criminalística da Polícia Civil deverão ficar prontos em 15 dias. 

 

Uma das principais razões apresentadas pelo comandante para apostar em incêndio provocado foi a presença de combustível nas imediações da igreja. “Verificamos algo, como diesel, no chão molhado. O diesel não se mistura e as manchas eram visíveis”, explica ele.

 

Outra coisa que chamou a atenção foi a forma como o fogo se alastrou. As labaredas estavam por toda parte, daí a suspeita de que o combustível possa ter sido espalhado pelas paredes. “Normalmente existe um foco, um ponto localizado, onde o foco começa. Neste caso, foi generalizado”. Fora isso, ainda foram encontrados restos de um vasilhame plástico, com jornal, que podem ter sido usados para provocar o fogo. 


Madrugada movimentada

No momento em que começou o incêndio, apenas uma equipe estava de plantão no quartel do 1º Batalhão. Segundo o comandante, aquela foi uma das madrugadas mais movimentadas, principalmente em função dos bailes carnavalescos nos clubes e do desfile das escolas de samba na Passarela da Alegria. Entre 20h e às 4h30, o 1º Batalhão atendeu a 23 ocorrências, o dobro de uma madrugada de domingo normal. 

 

(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia faz parte da vida de muita gente da comunidade. Como a da dona de casa Marilene Silva, 39 anos, que há 28 conhece como ninguém o dia a dia do pequeno santuário, tombado como patrimônio histórico de Brasília. Apesar de carcomida e decadente, a construção de madeira estava amparada (pelo menos legalmente) pelo Decreto 11.004 de 1988, assinado pelo então governador do Distrito Federal, José Aparecido de Oliveira. 

 

Muitos moradores eram favoráveis à demolição. E o mais fervoroso defensor da idéia era o pároco da Vila, padre Ítalo Guerrera, 70 anos - que não foi localizado pela reportagem do Correio Braziliense. Queriam uma igreja nova para a vila. “Eu também queria uma igreja nova, mas essa aqui tinha que ser preservada”, diz com a voz embargada Marilene Silva. FOi na igrejinha que ela, aos 11 anos, fez a primeira comunhão, casou-se anos depois, batizou e crismou os cinco filhos. “Não poderei mais mostrá-la aos meus netos”, lamenta. “Quem poderia ter feito isso, meu Deus?”

Leia mais: Ex-pároco da primeira igreja de Brasília na Vila Planalto morre aos 87 anos

 

Desde que foi interditada a igreja, as missas estão sendo celebradas no Parque de Ação Paroquial (PAP), construção tão antiga quanto a Nossa Senhora de Pompéia e que também corre risco de não resistir muito tempo. Além da madeira velha, foram achados ali focos de cupins. E, ao que parece, também não vai demorar muito a ser interditado. 


Memória: Prédio foi alvo de ameaças

A Igreja Nossa Senhora do Rosário de Pompéia foi erguida em 1960, como parte da história Vila Planalto - construída três anos antes de Brasília, numa área de 300 hectares, para acomodar 22 acampamentos de empresas que participariam das obras da nova capital. A declaração de patrimônio histórico, que recebeu em 1988, não impediu que o prédio se deteriorasse com o tempo e fosse, dez anos depois, interditado pela Polícia Civil. 


Leia mais: A capital de madeira
 

Apesar de querida pela comunidade, a igrejinha chegou a ser ameaçada antes.Em outubro do ano passado, duas faixas apareceram misteriosamente na frente do prédio, anunciando que o tempo estava sob risco de iminente invasão. Ninguém soube até hoje quem as colocou. Mas, à época, o próprio pároco, padre Ítalo Guerra, não escondia que aprovava a atitude, de quem quer que fosse. Para ele, o melhor a fazer era destruir a igreja e construir uma nova no local. 


Naquele mesmo mês, a Nossa Senhora do Rosário de Pompéia sofreria a primeira tentativa de incêndio. Mas os bombeiros chegaram antes que as chamas consumissem tudo. O fato serviu como alerta. Os moradores reclamavam que o último prédio da cidade, a Escola Classe do Planalto, também tombado pelo decreto de 1988, fora derrubado em 1994 e temiam que o mesmo acontecesse com a igrejinha. No entanto, nenhuma providência foi tomada.
 

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