Cidades

A cultura da capital tenta se reinventar sem poder fazer shows

Com cancelamentos de shows e apresentações, a classe artística do Distrito Federal se preocupa com a crise, mas trabalha para driblar a situação com ajuda da internet e dos fãs. valem até vaquinhas on-line

Geovana Melo*, Vinícius Veloso*
postado em 03/04/2020 06:00

DJ Maraskin: Em decorrência do decreto publicado pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, para conter a pandemia do coronavírus, artistas da cidade sofreram o baque. O cenário para as manifestações artísticas em meio à epidemia é este: não há público para prestigiar apresentações, não há galerias, livrarias, cinemas, bares ou feiras abertas. As medidas necessárias adotadas para frear o contágio da Covid-19 também afetou diretamente artistas e produtores culturais.


Há uma séria preocupação sobre como esse segmento que gera emprego, impostos e renda vai se manter. Por isso, alguns artistas investem em alternativas para driblar a situação com a ajuda da internet. Shows, festivais, exposições e cursos virtuais são uma realidade. As transmissões ao vivo nas plataformas Instagram, Facebook e YouTube estão entre as mais populares, mas, infelizmente, nem sempre são monetizadas.

O Dj e produtor Maraskin buscou alternativas para contornar a crise momentânea e lançou uma vaquinha on-line. Com dinheiro para sustento até o fim de abril, o músico conta que a mobilização do público o surpreendeu. "Não sabemos quantos meses vamos ficar parados, então me antecipei com a vaquinha on-line. A adesão foi muito boa, não esperava por isso. Contei com a divulgação do Pinella e do Velvet Pub, que são lugares onde eu toco. Tive que me reinventar e está dando certo", conta. A meta inicial de R$ 3 mil foi ultrapassada.

Além da iniciativa própria, o Dj, especialista em rock, realiza lives aos sábados no Instagram e integra a line-up do Festival 40 Minutos, que será realizado na internet em comemoração ao aniversário de Brasília. "É diferente, por contar com um público on-line, mas é legal para manter o contato com eles. Não são eventos monetizados, mas precisamos manter o nosso público", explica.

Um dos efeitos da quarentena é a adaptação da indústria cultural para manter o engajamento com o público. Pensando em driblar a crise, a banda brasiliense Scalene aposta em um novo projeto, Respirando na Quarentena. A iniciativa traz uma programação de conversas, atividades em grupo, sorteios e pocket shows que são realizados em um grupo secreto no Facebook, que só pode ser acessado após uma doação de R$ 12 mensais. O valor também tem como objetivo a viabilização do projeto The Street Store DF, que beneficia pessoas em situação de vulnerabilidade social.

A produtora R2 produções, responsável pelo Na Praia, um dos maiores festivais brasilienses de música, também investiu em uma programação on-line para se manter próximo aos clientes. O grupo apostou em transmissões ao vivo com set de Djs e dicas de empreendedorismo. ;Nunca foram disponibilizados tantos conteúdos gratuitos e de qualidade como neste momento. De uma forma muito empática, várias empresas têm colocado esses conteúdos a disposição. Em um momento em que você não pode vender um produto ou um serviço, tudo que você tem para conseguir falar com o cliente, manter a base ativa e se manter em destaque, é o que você tem como personalidade jurídica, e as lives que a gente tem escolhido tenta transmitir a nossa visão de mundo;, conta Will Demetrius, CEO do grupo R2.

O cenário também atingiu o circo Real Português, que funciona de forma itinerante. Quando as medidas de contenção da Covid-19 foram sancionadas no Distrito Federal, a atração estava no estacionamento do Estádio Elmo Serejo Farias (Serejão), em Taguatinga, e lá se manteve. No entanto, toda a renda do circo e dos circenses é oriunda da bilheteria com as vendas de ingressos e, com a atração parada, as dificuldades apareceram. Os artistas contam com doações dos moradores próximos da instalação e, para tentar manter renda, os artistas se apresentam em lives, e aceitam contribuições voluntárias no valor do ingresso via transferência bancária.

A cantora e produtora cultural Moara, há dois anos, vive somente da música e da produção. A brasiliense foi uma das adeptas dos eventos virtuais e se apresentou no festival Fico em casa BR. ;Esse é o momento de o público consumir muito mais pela internet, divulgar o trabalho dos artistas que gosta, comprar, se puder comprar, pagar pelos shows on-line se puder, apoiar as vaquinhas, dar o suporte e fazer disseminar esses materiais artísticos o máximo possível;, conta a artista. Segundo ela, os festivais à distância estão trazendo um retorno semelhante aos festivais presenciais: novos públicos estão conhecendo o trabalho dela e de outros cantores por meio da web.

No mesmo sentido, o instituto No Setor, que trabalha com a produção de eventos, também sofre com a paralisação cultural e busca absorver o momento. É o que conta o fundador Ian Viana, 24 anos. "Mantemos nosso viés de plataforma com as nossas redes, que são os músicos, atores, poetas e técnicos. No quesito financeiro, é um período de muito desconhecimento, mas de muita criatividade também. Um dos grandes aprendizados é a necessidade que existe de se trabalhar em rede nesse momento. Precisamos ter paciência, olhar profundamente para a classe artística e ouvir as demandas, para, a partir daí, tomar decisões. É um processo de retroalimentação. Neste momento, calma também é pressa.;

Alento
A Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec), em conjunto com o Banco de Brasília (BRB), definiu linhas de crédito para a comunidade cultural do Distrito Federal. Um edital no valor de
R$ 750 mil será disponibilizado para os pequenos produtores culturais com a intenção de atenuar os prejuízos sofridos pela classe com a suspensão das atividades.

Para os microempreendedores, valores entre R$ 800 e R$ 15 mil fazem parte da primeira linha de crédito disponibilizada pelo BRB. Outras duas linhas, para grandes produtores, sem limite máximo e com prazo diferenciado, também estarão disponíveis. Todas as ações fazem parte das medidas preventivas contra o coronavírus e buscam auxiliar a comunidade cultural brasiliense.

O captador de recursos do instituto No Setor, Rafael Reis, reforça o apoio dos editais e alerta que a pausa forçada deve ser absorvida e utilizada com sabedoria pela classe cultural brasiliense. "O mais importante, em termos de captação de recursos, é não se desmobilizar, manter o foco na sua razão de existir (fazer cultura) e ficar atento aos editais que estão sendo publicados. Tem muita coisa sendo preparada, seja por iniciativa internacional ou dos governos estaduais no Brasil, que estão se mobilizando para garantir o mínimo de recurso para a produção cultural no país. Muitas pessoas estão desesperadas, pois a crise pode se estender por alguns meses, então é importante ter essa clareza. Prepare o seu projeto para quem for investir nele, deixe-o pronto. É o tempo de preparação de projeto e captação de editais.;

Em 17 de março, uma petição na web foi criada para que ;todos os artistas autônomos ou que possuam certificado de Microempreendedor Individual (MEI) recebessem um salário de afastamento das atribuições pelo INSS;. Até o momento, mais de 19 mil pessoas assinaram o documento. ;Requeremos, por meio dessa petição, o pagamento de afastamento por meio do INSS, de maneira imediata para esse grupo de profissionais, que são imprescindíveis para o desenvolvimento cultural e humano do nosso país;, consta no texto

*Estagiários sob a supervisão de José Carlos Vieira

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