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30 anos do ouro de Joaquim Cruz: moldado no chão do cerrado

Mesmo após 33 anos morando nos Estados Unidos, o campeão olímpico reforça a importância da infância nas ruas de Taguatinga para a formação como atleta. Conheça a trajetória do ídolo na cidade

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de 4 de agosto de 2014 do Correio. Sua republicação faz parte do projeto Brasília Sexagenária, que até 21 de abril de 2020 trará, diariamente, reportagens e fotos marcantes da história da capital. Acompanhe a série no site especial e no nosso Instagram.

Joaquim Cruz não disfarça a nostalgia quando fala da infância nas ruas de Taguatinga. "Nunca esqueci e nem quero esquecer a minha origem", afirma, com bastante seriedade na voz, quando perguntado sobre a importância da cidade em sua formação como atleta. Primeiro e único brasileiro campeão olímpico em uma prova de pista no atletismo — título que completa 30 anos nesta semana —, o medalhista de ouro nos Jogos de 1984 revive até os mínimos detalhes das brincadeiras de criança, nos anos 1970, para explicar como se tornou um fenômeno do esporte mundial. 

Vindo de um país sem tradição no atletismo de pista, ele saiu do anonimato para, em pouco mais de um ciclo olímpico, vencer os 800m rasos em Los Angeles. “Minha infância foi muito importante no processo que me tornou um campeão. Desde antes da escola, nas ruas, nos campos de terrão que nós mesmo construíamos”,  recorda Joaquim Cruz. 

“Tímido”, lembra a irmã Elita, Joaquim pulava de galho em galho “igual ao Tarzan” na mata do Parque Ecológico Lago do Cortado — atrás da casa da QNJ 47, onde morou até mudar para os Estados Unidos, alguns anos depois —,moldando caráter e corpo de atleta. “Passei muitos anos caminhando quilômetros pelo cerrado”, orgulha-se o campeão. 

Em 1974, quando entrou na escola, encontrou a estrutura esportiva do Sesi de Taguatinga. Por ser o mais novo dos seis filhos de dona Lídia de Carvalho Cruz, Joaquim foi, naturalmente,um dos mais protegidos. E, até os 14 anos, precisava que alguém o acompanhasse aos treinos. Mas o atletismo viria um pouco mais tarde. O começo foi no basquete.


 

A decisão

Luiz Alberto de Oliveira foi quem insistiu para que Joaquim investisse na pista. “No começo, ele gostava mais do basquete, por causa dos amigos, do jogo coletivo”, relembra o técnico que, pouco depois, o treinaria nos Estados Unidos. “Mas, depois, viu que teria mais chances de representar o Brasil por meio do atletismo”, explica. 

Mas a decisão foi sofrida para Joaquim. A primeira experiência com o atletismo, nos Jogos Escolares Brasileiros(JEBs) de 1977, foi traumática. Apesar de ter ficado em terceiro nos 1.500m, terminou a prova sentindo muitas dores pelo cansaço físico. “Nunca mais quero saber disso”, disse o garoto de 14 anos ao treinador. 

“Ele fugia da corrida. Por fazer muito esforço, achava que ia morrer toda vez que acabava a prova”, conta Elita — que coleciona troféus de provas de corrida de rua —, rindo do irmão, que se escondeu por uma semana do treinador. 

O que convenceu Joaquim a dedicar-se às corridas foi o gosto pela vitória. Em 1978, ganhou duas provas do Brasileiro de Menores. O resultado o levou ao Sul Americano, em que ele conquistou três ouros: 400m, 800m e 4x400m. “Ele queria muito representar o Brasil. E poder ouvir o Hino Nacional três vezes na mesma competição mexeu com ele”, explica o ex-atleta Ricardo Vidal, diretor do Instituto Joaquim Cruz, em Brasília. 

Sucesso 

Nos dois anos seguintes, o brasiliense de Taguatinga conquistou uma série de vitórias, que culminaram no recorde mundial juvenil no Troféu Brasil de Atletismo de 1981, no Rio de Janeiro. A marca lhe rendeu o convite para estudar e treinar na cidade de Provo, nos Estados Unidos. Em 1983, iria para a Universidade do Oregon consolidar-se como um dos melhores meio-fundistas do mundo. 

Os Estados Unidos aperfeiçoariam a máquina de correr que havia sido moldada em terra candanga. “Quando cheguei lá, tinha a explosão dos tempos de basquete e a  resistência de tanto correr pelas ruas de terra. Eles até se surpreenderam”, recorda Joaquim. Hoje, aos 51 anos, ele mantém o mesmo corpo esguio de 1984, quando tinha 21 e desfilava sem camisa pelo Oregon — um dos momentos, inclusive, estampa em foto a sala da nova casa da família Cruz em Brasília, ainda em Taguatinga. 

Treinador da equipe paralímpica norte-americana, o ex-atleta corre durante os tempos livres em San Diego, onde vive, e tenta, vez ou outra, colocar algum parente na raia. “Mas agora a gente tem essa infeliz da internet”, comenta a mãe, dona Lídia, que depois de criar seis filhos e 13 netos encontra barreiras na educação dos 18 bisnetos e três tataranetos. “Criança, hoje, não brinca na rua. Passa o dia com os botões. É por isso que a gente não tem outro Joaquim Cruz”, teoriza.

Memórias eternas

Os três retratos pequenos no lado esquerdo da geladeira ajudaram a detectar os primeiros sintomas. O filho caçula, figura predominante nas fotos, estava ficando apagado para Dona Lídia. Era como se a imagem estivesse distante, mais longe que esse tanto de terra que separa Taguatinga de San Diego, na Califórnia. Aos 80 anos, a mãe de Joaquim Cruz está ficando cega, e os médicos descartam mais uma cirurgia para corrigir o problema da visão.

As principais imagens do filho famoso, no entanto, seguem vivas na cabeça de cabelos brancos. O casamento; a chegada a Brasília, vinda de Corrente(PI), na madrugada fria de 3 de maio de 1960 para acompanhar o marido, Joaquim Cruz, que havia vindo construir a capital; a morte do companheiro por enfarto em 1981; e aquele 6 de agosto de 1984, quando uma dezena de jornalistas lotaram o apartamento onde morava, na QNL, para assistir ao outro Joaquim ganhar uma medalha de ouro para o Brasil. 

Sim,o outro. Porque “o marido que era o verdadeiro”, conta, ainda sem dimensionar e entender, depois de tanto tempo, o tamanho do feito do caçula. Era difícil acreditar que o “Quina”, como é chamado na família, era o responsável por aquele clamor todo. “Foram quatro anos de muito trabalho”, lembra a mãe, que deixou o filho mudar para os Estados Unidos meses depois da morte do pai. “ Eu sabia que, se estivesse vivo, ele deixaria. Sentia o maior orgulho do filho”, recorda Dona Lídia, sem arrependimentos. 

Nem mesmo de estar longe do filho. Foi duas vezes aos EUA, mas não gostou do país onde Joaquim tem a vida feita. Achou as pessoas geladas, assim como aquela madrugada de maio. 

Agora, aos 80 anos, ela não tem tempo para se acostumar a novos ambientes. Pouco sai de casa. Apoiada no braço da filha Elita, tenta caminhar diariamente por um trajeto desenhado por Joaquim, da porta de casa até o Pistão Norte. Não chega a um quilômetro. Mas não importa. “São os meus 800 metros rasos.”

Lembranças de Brasília

Os locais em que Joaquim Cruz moldou sua performance esportiva desde a infância até os primeiros anos como atleta

Sesi de Taguatinga
Foi onde Joaquim teve o primeiro contato com o esporte, primeiro com o basquete, e depois com o atletismo. Era a segunda casa do adolescente, onde também estudava, lanchava e tinha convívio social

QNJ 47 e Parque Ecológico Lago do Cortado
Nas matas do parque localizado atrás da casa dos pais, Joaquim brincava, subia em árvores e perambulava pelo cerrado brasiliense

Pista do Cief
Na pista do Centro Integrado de Educação Física, na Asa Sul, Joaquim também realizou treinos em Brasília

Pista de atletismo da UnB
Depois de decidir-se pelo atletismo, foi na Universidade de Brasília, que tinha uma pista oficial, que Joaquim passou a treinar com frequência



Givaldo Barbosa/CB/D.A Press - Joaquim Cruz é recebido em Brasília pela mãe, Lídia, e pela irmã, Elita, após conquistar o ouro
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