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Correio Braziliense

Na frente de combate ao vírus, profissionais de saúde relatam guerra diária

Profissionais da saúde encaram a guerra diária contra a Covid-19. Muitos deles se afastaram das famílias, para protegê-las e evitar a disseminação do coronavírus. Ao Correio, relatam como tem sido a rotina de treinamentos, trabalho árduo e esforço para manter o equilíbrio mental


postado em 05/04/2020 08:00 / atualizado em 07/04/2020 11:31

Médicos do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), referência no atendimento de infectados no DF, enfrentam o desafio diário de salvar vidas em meio à pandemia(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press )
Médicos do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), referência no atendimento de infectados no DF, enfrentam o desafio diário de salvar vidas em meio à pandemia (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press )


Quando decidiram atuar na saúde, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais profissionais da área juraram servir à humanidade. Prometeram colocar o bem-estar do paciente em primeiro lugar e sabiam que enfrentariam dificuldades, sobretudo em um país marcado pela desigualdade social. Contudo, nada do que estudaram ou viveram se compara ao cenário que enfrentam atualmente no combate ao novo coronavírus.

Máscaras, luvas, macacões… A camada de proteção encobre as feições e vira praticamente uma armadura para encarar cada plantão. Medo, incerteza, angústia, noites mal dormidas e o cansaço das longas jornadas de trabalho são camuflados. Por trás dos paramentos, pais, mães, irmãos, avôs e avós guardam no peito o afeto pelos familiares que estão em casa e a força para enfrentar essa missão.

Apenas na Secretaria de Saúde do Distrito Federal, 24.147 profissionais se unem para salvar vidas e evitar os piores desdobramentos da pandemia. São médicos de várias especialidades, enfermeiros e técnicos de saúde com uma intensa rotina de trabalho na frente de combate à Covid-19. O Correio reuniu relatos de alguns deles, que reforçam, por eles e por toda a população, a importância do cumprimento das medidas de isolamento social.


Fiquem em casa 


“Ainda fico triste de ver gente na rua enquanto estamos arriscando nossas vidas para atender os pacientes graves”, reflete Lucas Valente, anestesista de um hospital público. O dia a dia do médico mudou desde o primeiro caso de Covid-19 registrado no DF, em 5 de março.

O profissional tem trabalhado, em média, 70 horas semanais. “Apesar de amar o que faço, a jornada é árdua. Nessa fase, me afastei da minha família inteira e da minha noiva. Converso com todos apenas por chamadas de vídeo. É uma maneira de mantê-los seguros”, relata. Lucas é responsável pela intubação dos pacientes confirmados com o vírus, procedimento delicado e que exige precisão.

Os cuidados para evitar a contaminação foram redobrados. Ele leva, em média, de 10 a 12 minutos na troca dos equipamentos de proteção individual (EPIs) para ir de um paciente a outro. “Todos devem utilizar os materiais. Não podemos ficar expostos, mas, infelizmente, não há EPIs suficientes. Às vezes, acabamos desembolsando dinheiro do nosso próprio bolso para ficarmos protegidos”, revela o médico.


O infectologista Hemerson Luz nunca passou por algo semelhante (foto: Minervino Júnior/CB. D. A. Press )
O infectologista Hemerson Luz nunca passou por algo semelhante (foto: Minervino Júnior/CB. D. A. Press )



Treinamento constante 


O infectologista Hemerson Luz acompanha o fluxo de pacientes infectados no hospital em que atua e documenta os quadros clínicos de saúde em arquivos submetidos à direção. Além disso, cuida dos treinamentos da equipe. “Minha maior preocupação é garantir que eles estejam protegidos de qualquer contaminação.”

O expediente, às vezes, parece não ter fim. Há dias o médico ultrapassa 10 horas no trabalho. O que o motiva, diariamente, é saber que os profissionais de saúde fazem a diferença na luta contra o vírus. “Não há como chamar outras pessoas para atuarem no nosso lugar”, observa.

Apesar de ter vivido outras crises e desastres nos mais de 30 anos de profissão, o infectologista considera a situação atual inimaginável. “A herança que vamos tirar disso tudo será de muitos ganhos para a infraestrutura da Saúde no DF. Estamos ganhando muita coisa nos hospitais, ampliando nossa rotina de limpeza, mudando nossa cultura de higiene. Tenho esperança de que estamos cumprindo o nosso papel.”


Nem um a menos


O enfermeiro Henrique Brito divide as horas de trabalho entre a rede pública e a privada. Desde o início da pandemia, aumentou a carga horária de trabalho para ajudar a suprir a demanda nos hospitais. Apenas na unidade de saúde particular, há 16 profissionais afastados com gripe. “Preciso me desdobrar para dar conta de todo o serviço”, conta Henrique, que cuida de seis pacientes infectados com coronavírus.

No Sistema Único de Saúde (SUS), um dos entraves é a falta de respiradores. “A maioria deles está sucateada. Se o número de casos de pessoas infectadas subir, não daremos conta de atender a todos”, prevê. A solução para evitar esse acréscimo, ele reforça, está no isolamento. “Se todos ficarem em casa por um tempo, conseguiremos conter o vírus”, salienta.

Ele conta que, antes da pandemia, morava com os pais. “Mas, como eles estão na faixa etária de risco, decidi me mudar”, conta o enfermeiro. O aumento das horas de trabalho afetou a alimentação. Agora, ele come pouco e praticamente só lanches. Para manter a imunidade alta, optou por tomar vitaminas. “Não posso parar. Minha meta é não perder nenhum paciente. O que me motiva é salvar vidas.”  

 

 



A realidade se impõe


“Sabia que estaria exposta a micro-organismos resistentes, mas, nunca na vida, nenhum de nós pensou que passaria por uma situação tão louca. Parece filme de ficção científica.” O relato é da enfermeira Marcela Vilarim Muniz. Há 13 anos, ela trabalha no Hospital de Base. “Sei da importância do meu papel, do nosso papel social. Graças a Deus, com 20 anos de profissão, estou preparada. Com medo, mas preparada. Nem por um segundo me arrependi de ser enfermeira”, afirma.

Apesar de o hospital não ser referência nos atendimentos de Covid-19, Marcela relata que a chegada da pandemia alterou a rotina por lá. Alas separadas, acesso restrito e diferenciado, cirurgia feitas com mais rigor, além de treinamentos e palestras sobre a doença.

Para equilibrar emoção e razão, cada profissional tem recorrido a uma estratégia. “Além das orações, evito assistir aos jornais. Não quero saber, vai me deixar mais nervosa e ansiosa. Tenho procurado ler muito e estudado sobre”, diz Marcela. “Aqui em casa, fiz todo um planejamento de guerra. Eu me mudei para um quarto na entrada, fabriquei umas máscaras de filtro de café para circular, lavo minhas roupas separadamente e faço o ciclo de limpeza na máquina”, detalha.


O anestesista Lucas Valente tem trabalhado cerca de 70 horas por semana desde o início da contaminação no DF (foto: Arquivo pessoal )
O anestesista Lucas Valente tem trabalhado cerca de 70 horas por semana desde o início da contaminação no DF (foto: Arquivo pessoal )



Dedicação total 


“Falamos tanto de coisas técnicas que quando alguém pergunta como está sendo pra gente é até estranho”, desabafa o clínico geral Luciano Lourenço. Além de plantonista no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), referência para tratamento de infecções pelo coronavírus na rede pública, ele é coordenador do Pronto-Socorro do Hospital Santa Lúcia.

O médico resume os últimos meses em uma palavra: dedicação. Além de estruturar as diretrizes de preparação e de atuação nos casos do novo vírus, ele precisa esquematizar como será o atendimento dos outros pacientes. Estudar sobre o vírus, aprendendo com erros e acertos de outros países, também tem sido parte da rotina. Casado com uma servidora pública e pai de um bebê de 11 meses, Luciano toma diversas precauções para não infectar a família, evitando até mesmo beijos e abraços.

“O maior desafio, hoje, é fazer com que as pessoas não se contaminem juntas”, reforça o clínico geral. Com esse objetivo, ele pede aos profissionais da saúde que se unam e, aos brasilienses, que fiquem em casa. “Sei que o isolamento tem um impacto gigantesco do ponto de vista financeiro. Mas, o que vemos quando aprofundamos os estudos é que, feito de forma verdadeira, é a maior arma. Não existe outra possibilidade de enfrentar essa pandemia.”


Convivendo com o vírus 


O clínico geral Rodrigo Barbosa precisou interromper a missão de salvar vidas quando começou a apresentar sintomas de Covid-19, no momento em que foram registrados os primeiros casos de transmissão comunitária da doença no DF. “Teve um dia que eu comecei a ter uma tosse. No dia seguinte, tive febre, dor de cabeça e dor no corpo”, conta.

Os sintomas se agravaram enquanto Rodrigo aguardava o resultado do exame, em casa. “Voltei ao hospital e precisei ser internado. Lá, foi confirmado o diagnóstico de Covid-19”, revela. Com piora na capacidade pulmonar, ele teve de ser levado para a unidade de terapia intensiva (UTI).

“Quando é com a gente, simplesmente não estamos preparados. Nunca tinha tido uma doença grave antes”, diz. O quadro clínico do médico só melhorou depois de 10 dias, quando retornou para a enfermaria e recebeu alta. Agora, ele se prepara para voltar à linha de frente. “Estou usando esse período para me preparar, principalmente o psicológico.”

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