Cidades

Instituições beneficentes convocam a comunidade a não parar de doar

Preocupadas com o período de isolamento social, instituições beneficentes convocam a comunidade a não parar de doar

Erika Manhatys*
postado em 14/04/2020 06:00
ilustração de mãos segurando um coraçãoEstamos acostumados a dar os braços quando a coisa aperta. É sabido que, nos tempos difíceis, a solidariedade costuma pulsar nas veias, mas não é bem assim que tem ocorrido ultimamente. Algumas instituições beneficentes têm sofrido com queda no volume de doações durante a pandemia do coronavírus.

Prestes a completar 34 anos de história e luta, a Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace) lança campanha em apelo à manutenção dos donativos. ;O câncer não faz quarentena; chama a atenção à causa dos assistidos pela instituição, que entoam em muitas vozes um único pedido: ;não parem;.

;Com a quarentena, mudamos nossas rotinas. A casa de apoio não pode receber visitas, isso gerou uma grande retração de doações que recebemos in loco. Também observamos uma queda nas contribuições financeiras;, diz Maria Angela Marini, presidente da instituição. O resultado até era esperado pela Abrace, mas devido ao caráter filantrópico, a entidade carece de apoio da sociedade.

A Abrace estimou perda entre 20% e 30% no valor total de doações. ;Estamos realmente preocupados. É um momento bastante tenso para todos que estão envolvidos, sobretudo para o pessoal da oncoterapia, com crianças em tratamento que estão com a imunidade comprometida;, diz Maria Angela. ;A Covid-19 pode ir além do que possamos suportar em termos de manutenção; por isso, a campanha;, completa.

Mesmo com a queda nos donativos destinados à Abrace, Maria Angela diz ter enorme sentimento de gratidão. ;Somos muito agradecidos à solidariedade do brasiliense. Há 34 anos, fazemos este trabalho e sempre pudemos contar com a ajuda e o apoio de toda a sociedade brasiliense, das empresas e dos voluntários;, finaliza.

Izabel Rebouças, 47 anos, é mãe de Rhuan, um dos assistidos da instituição. Ela relata que há dois anos conta com o essencial apoio da Abrace. ;Somos de Roraima, e meu filho foi diagnosticado com um linfoma. Nossa cidade não tem os recursos necessários ao tratamento, e fomos encaminhados ao Hospital da Criança. Entre idas e vindas trimestrais, é a Abrace quem nos acolheu e ainda acolhe;, conta.

Rhuan está curado e continua vindo à capital para avaliações periódicas de saúde. A casa de apoio recebe pacientes de outras unidades da Federação e do Entorno enquanto são tratados no DF. ;Liberamos as crianças que estavam melhores, mas a maioria vem de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Então, também arrecadamos cestas de alimentos para distribuir a essas pessoas que não estão na Abrace, mas precisam fortemente de nosso amparo;, conta a presidente.

O Instituto Nair Valadares (Inav) auxilia à distância às pessoas assistidas. ;A creche permanecerá fechada enquanto durar o decreto e, neste momento, juntamos os alimentos e material de limpeza que estavam nos estoques e montamos cestas para distribuir àquelas famílias com maior necessidade;, diz Karla Valadares, diretora da fundação que atende a quase 200 crianças.

O Inav não perdeu somente a ajuda solidária da sociedade, como também 25% do repasse que o governo faz à entidade. ;Entendemos a redistribuição deste valor que será destinado ao cartão-alimentação. Nós queremos que as medidas do governador se estendam às associações beneficentes. O fechamento não valeu para nós. Precisamos de uma liminar. Nós temos responsabilidade por nossas crianças, e deixar a creche aberta é um risco a elas e aos nossos colaboradores;, reivindica a diretora.

A luz no fim do túnel

O cenário pessimista enfrentado por essas organizações não se aplica ao todo. A Associação de Mães, Pais, Amigos e Reabilitadores de Excepcionais (Ampare) não sentiu os impactos do coronavírus. ;Não tivemos perda, graças a Deus, isso não aconteceu com a gente. Nós temos uma lista de grandes amigos colaboradores mensais, e muitos deles até adiantaram os donativos;, revela Maísa Bueno, coordenadora da Casa Lar Ampare.

Sem amargar com a crise, o Exército da Salvação de Brasília mostrou o maior compadecimento dos brasilienses neste período tão delicado. ;Como não estamos fazendo as retiradas nos domicílios, a doação de móveis está zerada. Entretanto, o nosso contêiner, que levava cerca de sete dias para encher, agora está repleto de donativos em 48 horas;, conta o pastor Ricardo Iung, major da instituição religiosa.

Ele faz um apelo quanto à doação de alimentos, que não é indicada ser feita diretamente no contêiner. ;Algumas pessoas já nos buscaram relatando falta de comida em casa; então, estamos recebendo cestas básicas. Pedimos apenas para não jogarem alimentos e material de limpeza no contêiner, pois ele é alto, e os produtos podem estourar. Basta interfonar, que iremos pegar;, orienta o pastor.

Apelo

A Ação Social Caminheiros de Antônio de Pádua (Ascap) paralisou suas atividades em respeito às determinações de isolamento, mas o trabalho continua nos bastidores. Somente no Sábado de Aleluia, a instituição doou 506 kg de alimentos às famílias assistidas. ;Respeitamos o isolamento, mas restou a preocupação com as famílias que são beneficiadas com o programa de doação de alimentos. Estamos numa área onde a insegurança alimentar é muito presente na vida de centenas de famílias;, avisa Rosane Garcia, secretária da instituição.

A única fonte de renda da Ascap é baseada nas vendas realizadas em seus bazares mensais, que seguem inativos até o fim da pandemia. Por isso, o apelo chegou às redes sociais, e a entidade clama pelo auxílio de doações de cestas básicas. Além da distribuição de donativos, a Ascap mantém ativo o serviço de atendimento psicológico. A ansiedade e a angústia causadas pela clausura temporária podem e devem encontrar alento. ;Quem necessitar de conforto psicológico para vencer a travessia deste momento adverso pode entrar em contato com Brenda Fraz, por meio telefone 99124-2782;, reforça Rosane.

* Estagiária sob supervisão de Ádamo Araujo

Palavra de especialista

Paz, saúde e alegria
;Já diziam os seres mais espiritualizados: aquilo que eu dou ao outro, eu recebo em dobro. Nós nascemos uns para os outros; portanto, a empatia é uma das primeiras características que o ser humano traz em si. É próprio da construção divina, não vivemos uns sem os outros. Quem escolhe viver isolado faz a experiência da solidão, e isso é a experiência do vazio, do abandono e da tristeza. Quanto mais eu aproximo as pessoas de mim, mais eu me sinto feliz. Os bons relacionamentos geram uma neuroquímica de saúde, alegria, paz e tranquilidade.

A caridade entra na percepção de que o outro precisa de mim e, para eu estar bem, ele também tem de estar. Somos todos espiritualmente interligados. Aquilo que eu faço pelo todo, retorna a mim, pois eu faço parte desse conjunto.

Biologicamente, a solidariedade gera resultados bons. Em termos de neurotransmissores e hormônios, podemos dizer que são liberadas grandes doses de serotonina, dopamina e ocitocina, que é o hormônio do amor. Quando há desequilíbrio neste sistema, é quando nossa saúde mental padece e nossa imunidade também. Então, que tal pensarmos que estamos num tempo de abundância e não de carência? Ajudar mais e sermos mais úteis, acreditar que temos uma missão e um propósito na vida;. Por Fabrício Nogueira, especialista em inteligência espiritual e hipnoterapeuta.

Ajude
Abrace
abrace.com.br
(61) 3212-6000
centraldedoacoes@abrace.com.br

Inav
inav.org.br
(61) 3333-1552

Exército da Salvação Brasília
(61) 99278-9278
Ascap
(61) 99289-8079 (WhatsApp)

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