Cidades

Quarentena no DF: flexibilização chega aos cultos religiosos e ao Drive in

Depois de liberar parte do comércio, o governador Ibaneis Rocha (MDB) permite celebrações religiosas em estacionamentos, desde que os fiéis fiquem nos carros. Armarinhos, lojas de tecidos e o Cine Drive In também poderão abrir as portas

Roberta Pinheiro, Walder Galvão
postado em 25/04/2020 06:00
Prevenção ao novo coronavírus: equipes higienizam trem da Companhia do Metropolitano do Distrito Federal durante segundo ciclo de desinfecção no meio de transporteCinquenta dias depois do primeiro diagnóstico do novo coronavírus, o Distrito Federal chegou a mais de mil casos confirmados, contabilizando 26 mortes. Apesar dos números, que crescem diariamente, o Executivo local estuda retomar a atividade comercial e retornar as aulas das redes pública e privada no próximo mês. Nesta quinta-feira (24/4), o governador Ibaneis Rocha (MDB) flexibilizou mais uma vez medidas de restrição estabelecidas na capital. Agora, cerimônias religiosas poderão ser celebradas dentro de veículos. Além disso, armarinhos, lojas de tecidos e o Cine Drive In poderão voltar a funcionar.

De acordo com o decreto, publicado em edição extra do Diário Oficial do DF (DODF) de ontem, cultos, missas e rituais de qualquer credo ou religião poderão ocorrer em estacionamentos, desde que os fiéis permaneçam nos veículos e respeitem a distância mínima de dois metros entre cada automóvel. No Cine Drive In, os espectadores também deverão permanecer dentro dos carros e fica vedada a comercialização de produtos.

Em 19 de março, o governador interrompeu toda a atividade comercial no DF devido à Covid-19. Desde então, a medida passa por flexibilização e alguns setores começaram a retomar as atividades. Bancos, lotéricas, ópticas e lojas de móveis e de eletroeletrônicos voltaram a funcionar nas últimas semanas. A expectativa é de que boa parte do comércio da capital se normalize a partir de 3 de maio, data-limite do decreto do GDF. Entretanto, os segmentos de bares e restaurantes e de academias deverão permanecer fechados.

Após o início da pandemia, o Executivo local lançou um programa para limpeza e desinfecção de áreas de grande circulação de pessoas e equipamentos públicos. A ação funciona por meio da Secretaria Executiva das Cidades, que visa combater a disseminação do coronavírus e de doenças causadas por arboviroses, como dengue, zika, febre amarela e chicungunha. São usados caminhões-pipa, inseticidas, sanitizantes e equipamentos de remoção de entulho e lixo. A ação começou em 31 de março e passou por Ceilândia, Sol Nascente, Samambaia, Taguatinga, Plano Piloto, Lago Sul e Águas Claras. Na próxima semana, a desinfecção deve ocorrer no Sudoeste e no Guará.

A Companhia do Metropolitano do DF (Metrô/DF) também higieniza os trens. Na madrugada de hoje, a empresa encerra o segundo ciclo de desinfecção. De acordo com a autarquia, profissionais usam o produto quaternário de amônio, aprovado pela Anvisa, que mantém uma camada protetora contra a ação do vírus nas superfícies. Além disso, a cada 30 minutos, é feita a limpeza em bloqueios, bilheterias e corrimãos com peróxido de hidrogênio.

Estrutural

Boletim divulgado na noite de ontem pela Secretaria de Saúde mostra que a capital tem 1.140 casos confirmados de coronavírus e 26 mortes. Do total, 547 são considerados recuperados. Além disso, há 67 pessoas internadas devido à doença, sendo 33 em unidades de terapia intensiva (UTIs) e 34 em enfermarias. No total, são 624 homens e 388 mulheres diagnosticados com a doença.

Até o momento, 24.825 pessoas foram testadas no DF. Desde terça-feira, a Secretaria de Saúde começou a fazer exames em massa pelo modelo drive-thru em Águas Claras e no Plano Piloto, cidades com maior incidência da Covid-19. Em quatro dias, 14.617 passaram por essa análise. A expectativa é de que a checagem seja expandida para outras cidades. A partir de segunda-feira, os shoppings Park Shopping e Iguatemi terão os estacionamentos usados para esse serviço.

O óbito mais recente aconteceu na quarta-feira. Segundo a Secretaria de Saúde, a vítima é um idoso de 85 anos, morador da Estrutural. Ele faleceu em casa, e os familiares esperaram mais de cinco horas para que o corpo fosse recolhido. Ao Correio, o filho da vítima, que preferiu não se identificar, contou que o pai chegou à capital havia cerca de um mês em busca de tratamento médico para outras enfermidades. ;Em 16 de abril, meu pai estava confuso, desorientado, não conseguia se comunicar. Para alguém sempre ativo, que brinca e come de tudo, achamos que poderia ser princípio de AVC e ligamos para o Samu;, relembra. De acordo com ele, no Hospital Regional do Guará, os médicos constataram que o paciente estava com pneumonia e recebeu alta para tomar medicação em casa. Entretanto, na manhã de quarta-feira, o idoso morreu.

Ontem, o filho fez o exame para o novo coronavírus, que deu negativo. Ele não sabe como os médicos chegaram à conclusão de que o pai estava com a doença. Em nota oficial, servidores da Secretaria de Saúde coletaram o material para o teste. ;A família é monitorada pela equipe de referência da Unidade Básica de Saúde da Estrutural;, informou.

Celebração

Na semana santa, fiéis se organizaram para celebrar o feriado religioso. Às vésperas do Domingo de Ramos, em 4 de abril, no Santuário Dom Bosco, na Asa Sul, o padre Jonathan Costa celebrou a missa por meio de transmissão on-line. Os fiéis acompanharam a cerimônia de casa e tiveram as fotos coladas nos bancos da igreja. Mais de mil pessoas assistiam à missa, entre moradores da capital e outras regiões do país. Na noite de domingo, após a missa que abriu a semana santa, os sacerdotes passaram pelos blocos da Asa Sul, para abençoar os ramos dos fiéis, sem que eles saíssem das residências.

Cinco perguntas para

Alexandre Cunha, vice-presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal

Quais os riscos de flexibilizar o isolamento social enquanto os casos continuam a crescer?
O DF tem crescimento de casos e curva de ascensão lentos. No atual ritmo, com as medidas mantidas, teríamos um distanciamento social e a restrição das atividades por tempo indefinido, o que é impraticável do ponto de vista econômico. É preciso fazer uma flexibilização do distanciamento social, mas tem de ser feita gradualmente e por setores. Além disso, tem de haver o distanciamento entre uma flexibilização e outra, se observando os resultados 15 dias depois, para que as coisas não saiam do controle.

Com a reabertura do comércio prevista para 4 de maio, o que devemos esperar?
Isso deve trazer aumento no número de impactos. Porém, isso não é um problema, desde que seja suportado pela rede de saúde. O impacto deve ser sentido de 10 a 15 dias depois dessa flexibilização.

O cenário atual é propício para a retomada das aulas?
A retomada de aulas deve ocorrer apenas na segunda quinzena de maio, justamente depois de se observar o impacto da reabertura do comércio. As crianças são vetores importantes na disseminação do vírus. O que está em preparação é apenas o plano, a depender de como a curva de casos se comportar depois da liberação do comércio.

O número de casos no DF está muito abaixo da realidade? A testagem em massa deve impactar os dados?
Sim, está muito abaixo da realidade, porque a gente não testa toda a população. Com essa testagem em massa do GDF, talvez a gente tenha entre 10 e 20 vezes mais casos do que os que estão confirmados por exames laboratoriais. Porém, acompanhando a curva de internações e de óbitos, que são dados mais palpáveis, e estimando o número de casos, ainda temos um crescimento pequeno.

Existe alguma previsão de quando a capital chegará ao pico de contaminações?
Depende das medidas. Talvez o DF tenha vários picos. Com a liberação do comércio, a gente deve ter um pico cerca de 15 dias depois. Se a capital vai ter um decréscimo posterior, depende das medidas que serão tomadas. Portanto, não dá para falar em pico único. A cada liberação de atividades, deveremos ter um pico, seguido por uma normalização com o passar dos dias.


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