Cidades

Mais de 6 mil pessoas podem morrer por Covid-19 no DF, aponta estudo

Nota técnica de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e infectologistas prospecta cenários da pandemia considerando flexibilizações ou endurecimentos das medidas de contenção

Matheus Ferrari
postado em 27/04/2020 09:59
Estudo faz projeção de cenários de acordo com medidas de isolamento Uma nota técnica de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e infectologistas mostra possíveis cenários da pandemia da Covid-19, no Distrito Federal, até o fim de 2020. De acordo com a pesquisa, a doença pode causar mais de 6 mil mortes, caso haja um relaxamento total das medidas de contenção, e menos de 120 óbitos com ações de contenção mais rígidas que as atuais.

Também são avaliados possíveis cenários futuros. Os pesquisadores simularam quatro contextos para a evolução da pandemia, no DF, considerando flexibilizações ou endurecimento das medidas de contenção impostas pelo governo. Os parâmetros são os Decretos 40.509 e 40.539 de 11 e 19 de março, respectivamente.

O modelo utilizado para traçar os cenários também leva em conta a quantidade de leitos de unidades de terapia intensiva (UTI;s), além do número de pessoas hospitalizadas para estimar possíveis sobrecargas no sistema de saúde. Foram analisadas as informações disponibilizadas pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal entre 7 de março e 23 de abril.

[SAIBAMAIS]De acordo com o estudo, o cenário que apresentou resultado mais equilibrado foi o que adotou medidas ligeiramente mais flexíveis que as vigentes, considerando não ser possível manter as medidas atuais por um longo período e admitindo ser necessário substituí-las por iniciativas sustentáveis social e economicamente.

Cenário 1

O primeiro cenário é baseado no relaxamento total das medidas impostas pelos Decretos 40.509 e 40.539 e a manutenção apenas da contenção realizada pela própria população, com hábitos de higiene. O número de mortes previsto, neste contexto, é superior a 6 mil até o final de 2020.

De acordo com o estudo, isso acarretaria em um maior isolamento social, alongando significativamente as curvas, podendo haver um colapso no sistema de saúde. Nesta simulação, o número de pacientes hospitalizados e internados em UTIs têm picos acima de 9 mil e 3 mil, respectivamente. Caso a infraestrutura hospitalar não suporte essas demandas, o número de óbitos pode ser significativamente maior, de acordo com a pesquisa.

Cenário 2

No cenário 2, foram consideradas medidas de contenção ligeiramente mais flexíveis que as atuais. Dentre as possíveis medidas a vigorar estariam: a substituição das intervenções iniciadas no Decreto 40.539 por medidas de efetividade um pouco inferiores (de 60% para 58%) e a manutenção dos hábitos de conscientização e higiene da população.

Além disso, o estudo leva em conta a manutenção dos efeitos do Decreto 40.509 ou a substituição das medidas atuais por equivalentes, com o objetivo de manter a mesma efetividade no controle da Covid-19

Neste caso, a pandemia duraria significativamente mais. Se mantendo pelo período de 27 de fevereiro de 2020 a 31 de dezembro de 2021. O número de óbitos simulados ficou abaixo de 800 e os picos de hospitalização e internações em UTIs ficaram, respectivamente, próximos de 100 e 50.

Cenário 3

O terceiro contexto avaliado pelos pesquisadores considera medidas de contenção moderadamente mais flexíveis que atuais. São elas: intervenções com efetividade menor que as iniciadas no Decreto 40.539 - que podem ocorrer com a diminuição da intensidade do controle da pandemia (de 60% para 50%) e a manutenção dos hábitos de conscientização e higiene da população.

Ainda leva-se em conta a manutenção dos efeitos do Decreto 40.509 ou a substituição das medidas atuais por similares, com o objetivo de manter a mesma eficácia no controle do coronavírus.

Nesta simulação, há um alongamento da epidemia em relação ao primeiro cenário e um encurtamento comparado ao cenário 2. Considerando que as contaminações perdurem de 27 de fevereiro de 2020 a 31 de dezembro de 2021, o número acumulado de óbitos seria de 2.500 e os picos de hospitalização e internações em UTIs ficariam, respectivamente, próximos de 1 mil e 400. O resultado é semelhante ao encontrado no primeiro cenário. No entanto, em tempo mais alongado e em escala significativamente menor.

Cenário 4

O quarto cenário é baseado em medidas de contenção mais rígidas que atuais. O estudo considerou intervenções com efetividade um pouco maior que as iniciadas no Decreto 40.539, - que podem ocorrer com o aumento da intensidade de controle (60% para 70%), além da manutenção dos hábitos de conscientização e higiene da população. O contexto também leva em conta a manutenção dos efeitos do Decreto 40.509 ou a substituição das medidas atuais por equivalentes.

A simulação mostra um encurtamento da pandemia, em relação aos outros cenários. O período de 27 de fevereiro a 31 de dezembro de 2021 foi adotado para a análise. Neste caso, o número de mortes seria o menor dentre todos os contextos prospectados: menos de 120. Além disso, os picos de hospitalização e internações em unidades intensivistas ficaram próximos de 70 e 30, respectivamente.

De acordo com o estudo, do ponto de vista de controle da pandemia, o cenário 4 é o mais favorável. No entanto, os pesquisadores ponderam que os custos social e econômico das medidas poderiam ser ;altos e prolongados;, já que não poderá ocorrer relaxamento após o término dos casos, considerando que a pandemia deverá estar ocorrendo em outras localidades, o que possibilita o surgimento de casos importados, iniciando, assim, novos contágios.

Decretos

No Decreto n; 40.509, de 11 de março, o governador Ibaneis Rocha (MDB) suspendeu eventos e atividades educacionais, além de determinar que bares e restaurantes observassem a distância mínima, indicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de dois metros entre mesas.

Em novo Decreto (n; 40.539), de 19 de março, Ibaneis ampliou a restrição de funcionamento para todo o comércio, incluindo lojas de rua, bares e restaurantes, além de determinar a suspensão das atividades em templos religiosos e estender as restrições para escolas das redes pública e particular.

PrEpidemia

O PrEpidemia, responsável pela nota técnica, é um observatório que tem como objetivo subsidiar os gestores públicos e a população no monitoramento espacial da disseminação do da Covid-19, abordando aspectos de diversas áreas do conhecimento, a partir de estudos e simulações apoiadas em dados e modelagem matemática.

O observatório conta com uma equipe multidisciplinar composta por pesquisadores voluntários da Universidade de Brasília (UnB) e de instituições parceiras das áreas de geociências, saúde, engenharia de produção, transportes, estatística e matemática.

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