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Correio Braziliense

Saiba como o Hran se transformou em referência no combate à Covid-19

Hospital se tornou, em pouco mais de um mês, referência no DF para tratamento de casos de Covid-19. Serviços e estratégias adotados para atender pacientes, familiares e profissionais da saúde vão além do diagnóstico de sintomas e das consequências do novo coronavírus


postado em 05/05/2020 19:20

(foto: Ed Alves/CB/D.A. Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A. Press)
Em pouco mais de um mês, o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) passou por uma transformação completa. De um andar isolado exclusivamente para atendimento dos casos de Covid-19, no início da pandemia no Distrito Federal, para toda a estrutura voltada ao atendimento de pacientes infectados pela doença. É para lá que todos os moradores em estado crítico devido ao coronavírus e que necessitam de atendimento na rede pública são encaminhados.

As alas dos queimados e dos cuidados paliativos são as únicas que permanecem dentro da estrutura hospitalar, mantidas isoladas e com fluxo restrito. Na emergência, os brasilienses que não se enquadrarem em casos suspeitos de Covid-19 são orientados a procurar os hospitais da região de saúde onde moram e, da mesma forma, as especialidades médicas, como pneumologia, dermatologia, reumatologia, foram distribuídas por outros hospitais. Também localizado na área norte, o Hospital Universitário de Brasília (HUB) funciona, agora, como retaguarda do Hran, realizando partos e atendimentos de emergência em obstetrícia; e atendendo a pacientes de hemodiálise, por exemplo.

"O hospital se transformou tanto na área estrutural como em recursos humanos como exclusivo do coronavírus. A estrutura do hospital respondia por cirurgia, ambulatório e parte clínica. Mas, em função de ter sido referenciado, houve modificações", explica o diretor da unidade, Ulysses Castro. Psiquiatra por formação, Castro reconhece que, como tudo que é novo, a Covid-19 gera ansiedade, expectativa e preocupação. "Ainda mais um novo com possibilidade de morte, principalmente, nos grupos mais vulneráveis. Deixa as pessoas receosas, com medo, tanto a população quanto os profissionais", acrescenta. 

Para atuar na área e atender essa demanda, as mudanças no Hran foram além dos protocolos sanitários mundiais de combate ao novo vírus. A unidade disponibilizou uma equipe de psicólogos especializados em psicologia hospitalar que tem prestado atendimento aos servidores de forma presencial ou on-line. "Temos uma frente de atenção à saúde mental tanto da população, como para cuidados dos trabalhadores. Existe um medo grande do contágio. Então, a gente tem que, além de oferecer todo o aparato de proteção individual e coletiva, grupos de apoio", detalha Castro.
 
O diretor também pontua que o período pós-pandemia vai exigir dos profissionais que cuidam da saúde mental uma atenção para transtornos de estresse pós-traumático. "Meu papel aqui tem essa função, de a gente lidar de forma mais adequada com os dilemas éticos que possam surgir em um hospital referenciado."

Recém-chegado dos Estados Unidos, onde fez uma especialização em gestão, o médico Pedro Zancanaro, que atuou como coordenador geral de Saúde do Núcleo Bandeirante por três anos e foi gerente de Medicina Interna do Hospital de Base, assumiu, em janeiro, o desafio de estar à frente da Atenção Secundária no Hran. "Acredito, por também ter especialização em gestão em emergência em saúde pública, que todos os profissionais da saúde devem se apresentar ao trabalho neste momento, porque é um momento único que a gente está vivendo, não só na nossa sociedade, mas também na área da saúde", justifica. 

No cargo, Zancanaro elenca que o principal desafio é manter os atendimentos, como dermatologia, pneumologia, neurologia, geriatria, cardiologia, endocrinologia e reumatologia, funcionando. "A gente conseguiu realocar os serviços que eram desempenhados aqui no Hranpara unidades periféricas, da própria região central. Essas unidades receberam os profissionais e ele vão continuar desempenhando seu papel de especialistas, atendo a população sem necessariamente virem para um hospital potencialmente contaminado e correrem riscos", comenta. 

Contudo, lidar com uma situação de pandemia dentro de uma unidade de saúde referenciada, envolve, muitas vezes, detalhes de um lado humano pouco falado. Este mês, foi criado um gabinete de crise no hospital, no qual Zancanaro é o responsável pela comunicação. Ele e uma equipe desenvolveram um serviço de atualização de boletim médico diário para os familiares de pacientes, já que eles não podem receber visitas, em razão do risco de infecção. 

 
Contato com as famílias 

 
Para evitar que os familiares se exponham aos riscos do hospital e que os médicos, sobrecarregados com os atendimentos, não possam recepcionar os parentes da melhor forma, o Hran operacionalizou um sistema no qual os profissionais em teletrabalho passam um boletim em termos simplificados aos responsáveis pela pessoa internada. "Assim, a gente consegue estabelecer uma comunicação simples, direta, com linguagem clara e com compaixão para com esse familiar que está em casa ansioso e, por vezes, em quarentena", acrescenta Zancanaro.

A equipe médica que está cuidando do paciente in loco registra o boletim no prontuário. O médico do Call Center se baseia nesse boletim para conversar com o familiar. As ligações são feitas para os familiares de todos os pacientes internados, inclusive os da UTI e dos boxes e registradas para que toda a equipe esteja ciente. 
 
Caso seja identificado algum familiar que necessite de apoio psicológico, isso é sinalizado para a equipe da psicologia para atendimento e acompanhamento. Também está disponível um número de telefone (+55 61 99155-5614) para que os familiares entrem em contato com o serviço, exclusivamente para obter informações dos pacientes internados. O serviço está disponível todos os dias, das 7h às 19h, enquanto perdurar o período da pandemia. Para os próximos dias, o objetivo é ampliar o serviço e oferecer videoconferência entre pacientes idosos e os parentes. 

Com 28 anos na carreira médica e 10 atuando no Hran, o intensivista e cirurgião cardíaco Carlos Portilho segura a emoção ao comentar sobre o trabalho de enfrentamento ao novo vírus. "É um momento ímpar, inusitado, com grande desafio, mas os profissionais de saúde têm, dentro de si, do seu coração, essa missão. Ninguém está aqui simplesmente por um emprego, mas por um ideal, por amor ao próximo, por amor ao ser humano", afirma. 
 

“Ansiedade a gente sente todo dia”


"A gente aprende na escola médica os conceitos de epidemia, o que configura uma epidemia, o aumento de casos, mas a gente não aprende, por exemplo, gestão de emergência. Aprender a administrar situações em que as coisas não funcionam exatamente do jeito que você gostaria que elas funcionassem. É exatamente o que está acontecendo no hospital, a gente está tendo que fazer um plano de contingência, aumentar leito de UTI, contingenciar os outros serviços, se preparar para o futuro no sentido de que, se a curva não for achatada, o que vai acontecer? O que vai acontecer quando a Covid-19 chegar às cidades satélites? Ansiedade a gente sente todos os dias. Ansiedade de fazer o que é melhor para a nossa população. A gente sente ansiedade, porque a gente está lidando com algo sem precedentes e que a gente tem uma ideia do que pode ser, mas só vai saber quando a coisa acontecer. Então, a gente está se preparando para o pior e rezando para acontecer o melhor"
Pedro Zancanaro, chefe da Atenção Secundária no Hran


“Tenho muito orgulho de ser médica”


"Já pensei em desistir pela minha família. Mas é a hora que as pessoas mais precisam da gente e abandonar o barco agora não faz sentido, foi para isso que me formei. Tenho muito orgulho de ser médica, é muito bom salvar vidas. Acho que o primeiro caso de Covid-19 que tive de entubar foi marcante, você está ali, com todo aquele medo de se contaminar, vê colegas chorando com medo de se contaminar, com medo de não dar conta. Estão ali com a parte física inteira, mas a parte emocional muito abalada. Eu me preocupo muito com a equipe e a minha família. É algo que todo mundo se preocupa, porque a gente está tendo pacientes novos, entubados, que não vieram confirmados, mas têm clínica compatível e a gente fica pensando que poderia ser comigo. Tem casos de colegas em São Paulo que já morreram, outros que estão entubados. É muito triste, porque poderia acontecer com qualquer um de nós"
Médica do pronto-socorro do Hran

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