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Tocador de pife, brasiliense lança rádio voltada para a cultura popular

Jovem de Brasília, tocador de pife, que percorreu diversos estados nordestinos de bicicleta, lança rádio voltada para a cultura popular

Juliana Andrade
postado em 12/05/2020 06:00
Gabriel Matos Raposo percorreu 3 mil quilômetros de bicicleta para conhecer e divulgar o pifeCom uma população formada por pessoas vindas de todo o país, Brasília traz um pouquinho de cada estado. Uma grande parcela dos brasilienses é filha ou neta dos primeiros nordestinos que ocuparam o Planalto Central em busca do sonho da nova capital. Para os apaixonados pela cultura nordestina, uma rádio web, inaugurada no aniversário da cidade, em 21 de abril, é uma opção a mais para conhecer a boa música daquela região. É a Rádio Pife. E por trás dela, um jovem mineiro! Isso mesmo: Gabriel Matos Raposo, 27 anos.

A rádio é um fruto a mais da paixão de Gabriel pela cultura popular. A relação dele com a música mudou nos corredores da Universidade de Brasília (UnB), onde se dedicou ao curso de antropologia. Entre uma aula e outra, Gabriel conheceu Zé do Pife, figura famosa na universidade por ensinar e tocar na instituição de ensino. ;Desde os 10 anos eu toco vários instrumentos. Estudei música por muito tempo, mas quando eu entrei na UnB, e conheci o Zé do Pife, aprendi a parte da transmissão oral. Eu ficava do lado do mestre, aprendendo canção por canção. Isso mudou totalmente a minha relação com a música;, conta. Gabriel destaca que passou a se interessar mais pela cultura popular, principalmente a nordestina. ;Não tem esse negócio de certo ou errado, de tocar bem ou mal. A música voltou a ter centralidade na minha vida;, conta.

Influenciado por Zé do Pife, Gabriel também começou a se apresentar nos espaços comuns da cidade. ;A gente vai muito em Planaltina e os alunos que chegam na UnB para aprender, ele (Zé do Pife) convida a pessoa a ir à cidade. Nas feiras, por exemplo, você faz uma imersão, toca para diferentes classes sociais e econômicas, você toca no meio do povo e isso acaba deixando os alunos apaixonados;, diz.
Zé do Pife: uma referencia musical e representante da cultura popular nordestina no DF

Ciclo

Gabriel intercalava a paixão pela música com os estudos do curso de antropologia. Não demorou muito para unir os dois. ;Ao mesmo tempo que eu entrava nos estudos da antropologia, eu viajava, tocava, conhecia os mestres do pife. No final, eu juntei os dois e fiz a pesquisa da antropologia relacionada ao instrumento musical;, comenta.

Com a paixão pela música e a curiosidade em relação à cultura do Nordeste, Gabriel embarcou em uma longa aventura Brasil afora. Ele e o parceiro no projeto, Fernando Carvalho, conhecido como Cheflera, encararam 3 mil quilômetros de bicicleta. O objetivo: desbravar o pife na zona rural.

;Percorremos de bicicleta sete estados para ensinar pife, encontrar os mestres e pessoas ligadas a reprodução do instrumento;, conta. Os jovens saíram de Brasília em dezembro de 2016 e começaram a jornada pela Paraíba. ;A gente gravou um CD e vendíamos para nos manter, além de tocar em feiras;, relata. ;Muitas pessoas nos acolhiam também nas cidades, dormíamos na casa delas;, completa. A viagem durou um ano e meio, e passou por estados, como Pernambuco, Ceará, Sergipe e Alagoas. O pé na estrada rendeu muitas histórias e enriqueceu o conhecimento dos jovens.

;Acabamos conhecendo muitos pesquisadores e pessoas comprometidas com a preservação do pife. A partir de pesquisas e conversas com mestres, descobri que o pife também é forte em Minas Gerais, onde nasci, principalmente na região do Vale Jequitinhonha;, ressalta. A ideia, agora, é expandir o projeto. O próximo passo é fazer uma fase dois, percorrendo a região Sudeste do país.

Rádio

O projeto da viagem de bicicleta inspirou Gabriel a reunir toda a riqueza da música popular em uma rádio, a Rádio pife. ;Ela tem tanto música da pesquisa, quanto álbuns recentes de artistas independentes, que tenham alguma ligação com a cultura popular. A rádio une o tradicional com os alguns artistas contemporâneos do Brasil inteiro;, garante. O pai de Gabriel era radialista e o músico o ajudava, um motivo a mais para querer colocar a rádio no ar.

Além de música, o site traz informações sobre a origem das canções, da banda e sobre o compositor da canção. ;Antigamente, os músicos ficavam famosos entrando em contato com as gravadoras e lançando CDs. Hoje em dia, tem muitas plataformas digitais e o rádio ficou obsoleto como uma forma de mostrar revelações. Espero que a rádio seja um corredor entre os artistas e as pessoas. Mesmo estando longe, elas possam se conhecer e se ouvir;, destaca.

Saiba mais
O pife, também conhecido como pífano, é uma adaptação brasileira, com influência indígena, das flautas transversais populares na Europa. Feita de taboca como as flautas indígenas, o pife é utilizado em regiões do interior nordestino para acompanhar festas e cerimônias religiosas.

Serviço
Ouça a rádio em radiopife.webradiosite.com/

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