Cidades

Distanciamento impede descontrole da covid-19

Segundo levantamento da Secretaria de Saúde, o isolamento social salvará milhares de vidas no Distrito Federal. Previsão era de que a capital chegasse a 15 mil casos graves, com necessidade de UTIs, no pico da pandemia. Agora, a projeção é de 700

postado em 15/05/2020 04:15
O uso de máscaras é um dos fatores que contribuem para conter o avanço do novo coronavírus na capital federal, mas a necessidade de isolamento social continua
Defendido por cientistas e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das principais formas de combater a disseminação do novo coronavírus, o distanciamento social impediu que o Distrito Federal tivesse um avanço descontrolado da covid-19. Segundo projeções da Secretaria de Saúde feitas em abril, a estimativa era de que o DF chegasse a um total de 15 mil casos graves, com necessidade de unidades de terapia intensiva (UTIs), se não tivessem sido adotadas medidas mais rígidas. Com o isolamento, o número caiu para 700. Para especialistas ouvidos pelo Correio, as normas impediram uma catástrofe. Hoje, o DF tem 223 leitos de UTI disponíveis, e a intenção do GDF é de chegar a 900.

De acordo com a Secretaria de Saúde, as medidas de distanciamento (leia Memória) possibilitaram um achamento na curva de contaminações. ;Ou seja, houve uma redução na velocidade de crescimento no número de casos infectados, internados e mortes, quando comparados com as projeções iniciais sem essas medidas;, informou a pasta, por meio da assessoria de imprensa.

Hemerson Luz, especialista em doenças infecciosas e médico dos hospitais de Base e das Forças Armadas (HFA), explica que o crescimento da covid-19 é exponencial, ou seja, cresce na multiplicação por uma constante e tende a se acentuar rapidamente. ;Quando nada é feito, o número, geralmente, dobra a cada três dias. Para exemplificar, se hoje houvesse 2 mil, daqui a três dias teríamos 4 mil e, três dias depois, 6 mil e assim por diante;, esclareceu.


Segundo ele, o distanciamento social foi fundamental para evitar esse cenário no DF. ;O nosso crescimento foi estável e bem menor. Teríamos uma catástrofe se não fossem essas medidas;, assegurou. ;Isso permitiu que hoje o DF tenha disponibilidade de leitos de UTI, respiradores, leitos de enfermaria e acesso rápido ao diagnóstico;, acrescentou. O distanciamento também tem impacto direto na letalidade, que, no Distrito Federal, está abaixo da média nacional. ;Sem isolamento, um número maior de pessoas estaria doente de uma vez só e não teríamos acesso a respiradores e suporte de saúde suficiente para todos. Isso seria crucial para o aumento da letalidade;, explicou Hemerson.

O diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, José David Urbaez, lembra que a epidemia começou de forma intensa na capital pelo fluxo grande de pessoas que chegavam do exterior. ;Essa interdição muito precoce de escolas, comércios, grandes eventos e todo esse dispositivo que procurava diminuir a circulação das pessoas teve um impacto muito significativo para controlar isso.;

As medidas de contenção, avalia José David, também contribuíram para frear o ritmo de disseminação da covid-19 para a periferia e para as regiões mais populosas, onde o estrago poderia ser maior e mais acelerado. ;Se isso não tivesse sido feito, não se teria cortado o fluxo entre as regiões centrais, e as periferias mais vulneráveis pelo deslocamento dos trabalhadores;, frisa.

Riscos
Para especialistas, o momento exige cautela para flexibilização e revisão das medidas tomadas anteriormente para evitar que o resultado obtido até agora perca efeito. ;Nós podemos hoje abrir essa discussão de refletir e avaliar se podem ser relaxadas ou não, justamente, porque a estrutura que nós temos é adequada, mas é preciso ter a flexibilidade de tomar a decisão e depois voltar atrás se for preciso pela análise do cenário, como ocorreu nos últimos dias, com o adiamento da liberação do comércio;, ponderou Hemerson Luz. ;Se não houver o cuidado de manter as recomendações, como uso de máscaras, evitar aglomeração e continuar com higienização, esse controle pode se perder.;

Para José David, o DF entrou em um conceito chamado de paradoxo da prevenção, quando os efeitos benéficos das medidas são usados para contestá-las. ;Todo dispositivo preventivo potente e eficaz se torna o principal inimigo dele próprio nesse caso, como ocorreu com o sarampo. A vacina foi eficaz, reduzimos o problema e houve desmonte do programa. Quando as ações funcionam dão impressão de que não são necessárias;, ressaltou. ;Mas a maneira de se garantir que não tenhamos uma catástrofe é manter essas medidas.;

A Secretaria de Saúde também reforçou que a população fique em casa e saia apenas em caso necessário. ;Mais do que nunca, permanece esta recomendação, pois ela constitui a principal medida que a própria população deve adotar, diminuindo o risco de contágio. Vemos com preocupação que muitas pessoas não envolvidas com as atividades essenciais nem com aquelas atividades que estão liberadas para funcionamento voltaram a circular no Distrito Federal, o que pode contribuir para maior disseminação da doença;, informou a pasta.


Memória

Restrições por decreto

Em 11 de março, o governador Ibaneis Rocha (MDB) decretou o fechamento de escolas e a suspensão de eventos realizados com autorização do GDF por causa da pandemia do novo coronavírus. Poucos dias depois, as restrições impostas foram ampliadas. Em 19 de março, chegou a vez de as atividades comerciais serem suspensas. O DF foi uma das primeiras unidades da Federação a adotar normas rígidas contra a covid-19. Algumas atividades foram liberadas posteriormente, como agências bancárias e feiras permanentes, mas parte do comércio segue fechada e há previsão de início gradual da abertura para 18 de maio.



Reforço e melhoria na estrutura do Entorno

Após reunião no Ministério da Saúde, o governador Ibaneis Rocha (MDB) disse que a rede pública do Distrito Federal receberá pacientes do Entorno até que a estrutura de atendimentos no Entorno seja reforçada. Uma das melhorias na região vizinha à capital é a construção do hospital de campanha de Águas Lindas (GO), distante 45km de Brasília. A unidade está pronta, custou R$ 15 milhões, mas ainda não foi inaugurada. Pela manhã, Ibaneis havia dito que editaria um decreto para impedir o atendimento de pacientes do Entorno com covid-19 na rede pública do Distrito Federal. Com o encontro no Ministério da Saúde, ele descartou essa possibilidade.



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