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Coronavírus está ganhando velocidade no DF, diz epidemiologista da UnB

Segundo Jonas Brant, professor da UnB, população deve se conscientizar de que o melhor ainda é ficar em casa sempre que possível

Thais Umbelino
postado em 26/05/2020 06:00
Jonas Brant, epidemiologista da UnBMais de 70 dias depois da adoção de medidas de isolamento social no Distrito Federal, o epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB) Jonas Brant observa que ainda há dificuldades para se conter o avanço do número de infectados pelo novo coronavírus. "Não é o momento de retomar o comércio sem mostrar e sem organizar toda a estratégia de vigilância que se faz necessária para que ele possa reabrir", defendeu, ao ser entrevistado no programa CB.Poder, parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília.

Brant reforça a necessidade dos cuidados necessários que devem ser adotados pelos estabelecimentos e a importância de manter o isolamento social. "A mensagem tinha de ser muito clara: estamos abrindo, mas o cenário está piorando, fique em casa. Então, eu acho que essa mensagem de que está tudo sob controle não é verdade. Só saia de casa se for estritamente necessário, e saia com um método;, adverte. Confira a entrevista:

O DF registrou no domingo nove mortes pela covid-19, o pior dado até agora em um único dia. A gente percebe um aumento de casos? A que se deve isso e qual é a recomendação agora?

A gente vê uma aceleração da epidemia. A gente chegou a ter, no início do isolamento social, uma duplicação da epidemia a cada 15 dias. Hoje, está abaixo de 10 dias, ou seja, a epidemia não só está crescendo, como está ganhando velocidade nesse crescimento. Realmente, é uma situação preocupante, que a gente está colhendo os resultados de um cenário em que a gente está abrindo mais a sociedade, abrindo o contato e agora a gente começa a ver a aceleração dessa epidemia.


O distanciamento social tem um impacto muito grande. Isso ainda é uma questão muito importante. Por que ela é fundamental e como pode ajudar?

Eu tenho dito que nós precisamos fazer bem-feito. Fazer mais ou menos não funciona. A gente precisa fazer um isolamento social efetivo, porque fazer malfeito é quase ter de fazer duas vezes. O isolamento está caindo a cada dia. A gente começa a abrir uma série de atividades na sociedade e, daqui a alguns dias, nós vamos ter de fazer um isolamento efetivo.

Alguns decretos recentes autorizaram a abertura de comércios como os shoppings. O que o senhor acha dessas medidas. Já era um momento para se pensar nisso? Tem uma série de normas. É possível fazer isso com segurança?

Eu acho que a abertura pode ser uma estratégia, desde que se tenha conseguido resolver alguns problemas anteriores. Um deles é o fortalecimento da vigilância epidemiológica. A gente ainda não conseguiu organizar isso no Brasil como um todo. Ainda está muito frágil. A gente tem um outro desafio, que é a área de vigilância sanitária, que vai inspecionar esses estabelecimentos e garantir que eles estejam funcionando de maneira adequada. Alguns lugares tentaram a abertura com uma série de regras também, mas não foram capazes de organizar essa fiscalização para a garantia de que o isolamento funcionasse. A mensagem, de maneira geral, tem sido: volte ao normal, mas voltar ao normal é um erro. Nós vamos ter um aumento muito grande de casos. A mensagem não está clara. A mensagem hoje no DF e em muitas cidades hoje que estão tentando abrir é de que estamos abrindo, porque é possível e não é esse o cenário. A mensagem tinha de ser muito clara: estamos abrindo, mas o cenário está piorando, fique em casa. Só saia de casa se for estritamente necessário e saia com um método.

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Quais são as medidas que deverão ser tomadas por esses estabelecimentos e pelo próprio governo para garantir mais segurança?

É importante que a gente consiga fazer o rastreamento de contatos. Isso ainda não está bem organizado, e a gente precisa garantir que qualquer pessoa com sintoma respiratório fique em casa. É importante a gente entender que o momento atual é como se a gente tivesse virado um hospital. É preciso ter medidas de biossegurança; por isso, eu falo de método.


Hoje, a gente tem uma busca mais passiva no número de casos. As pessoas que estão com os sintomas chegam até o sistema, mas o ideal seria uma busca ativa. Como isso poderia acontecer como foi feito em outros países que adotaram a medida?

Outros países que conseguiram ter um enfrentamento maior da doença inverteram essa lógica. Não é uma lógica onde o posto de saúde está esperando a pessoa com síndrome respiratória buscar atendimento. A partir de cada caso, eu vou atrás de todos os possíveis contatos. Então, a gente chama de vigilância passiva e vigilância ativa.

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Pelas projeções, é possível prever quando será o pico da doença no DF? Quantos casos terão nesse momento?

É difícil prever um pico da doença, porque depende das ações que a gente adotar. Algumas modelagens sugerem que o pico da epidemia, se nós tivéssemos mantido as ações de duas ou três semanas atrás, seria, provavelmente, ao redor de julho, fim de julho. No entanto, nós estamos abrindo as atividades. Isso quer dizer que a transmissão vai aumentar. Se isso começar a ocorrer, é muito provável que nós tenhamos de fazer o lockdown. Então, é difícil dizer exatamente quando vai ocorrer esse pico da epidemia. O que é importante a gente entender é que a maioria das pessoas não teve contato com o vírus.


Outra questão importante é a capacidade do sistema de receber essas pessoas ao mesmo tempo e a capacidade de leitos. Como o senhor avalia a capacidade no DF?

O DF vem prometendo a estruturação de um hospital de campanha que permita até 800 leitos, no entanto, acredito que isso é muito difícil, porque não há insumos disponíveis somente no mercado, mas no mundo inteiro. Hoje, nós estamos vendo falta de insumos para fazer o próprio PCR, que é o principal teste diagnóstico que Brasília vinha conseguindo fazer muito bem. Acredito que a estruturação de um hospital de campanha não será um desafio fácil. E nós não vamos ter uma coisa que é mais difícil, que são os profissionais de saúde. Então, na hora em que a gente aumenta 800 leitos, ou seja, quadruplica a quantidade de leitos de UTI no DF, eu não tenho quatro vezes mais os profissionais. Acredito que nós não deveríamos, no DF, contar com esses 800 leitos, porque é muito pouco provável que a gente consiga tê-los a tempo dessa epidemia.

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