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Correio Braziliense

Quarentena diminuiu vibrações no solo e deixou Brasília mais silenciosa

Nos primeiros dias de isolamento social houve diminuição nas vibrações na cidade


postado em 01/06/2020 06:01 / atualizado em 01/06/2020 09:36

O professor Marcelo Peres Rocha é chefe do Observatório Sismológico do Instituto de Geociências da UnB(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
O professor Marcelo Peres Rocha é chefe do Observatório Sismológico do Instituto de Geociências da UnB (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

A cidade ficou mais silenciosa. Difícil imaginar Brasília, de três milhões de habitantes, em silêncio, não é mesmo? Mas isso realmente aconteceu. Estudo do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB) mostrou queda nos ruídos na capital federal durante os primeiros dias de isolamento social. Os sons medidos por equipamentos da estação sismográfica de Brasília, instalada no Parque Nacional, são provocados pela circulação de pessoas, por carros, chuvas, ventos e movimentos intensos sobre a crosta terrestre no dia a dia. A ausência deles diminui as vibrações na Terra e a deixa mais silenciosa.

Um grupo de pesquisadores da instituição captou a diminuição do ruído sísmico durante março e um aumento nos meses seguintes, após a flexibilização de medidas de isolamento social. De acordo com os resultados do estudo, realizado entre 11 e 31 de março, a quarentena trouxe efeitos para a diminuição da amplitude do ruído sísmico. "O ruído sísmico é a vibração vinda de fontes sísmicas difusas, ou seja, distribuídas por todas as partes, diferentemente de um terremoto, que ocorre em um local específico", explica o professor Marcelo Peres Rocha, chefe do Observatório Sismológico do Instituto de Geociências da UnB. 

Segundo o estudo, houve queda de 20% a 25% na amplitude dos ruídos nesse período. Em tempos comuns, a média dos sons é de 0.125 nanometro, que equivale a 0.000000001 metro. Com a baixa, a taxa ficou em 0.1 nanometro ou abaixo disso (veja na imagem). O especialista destaca que, no auge da quarentena, o movimento na cidade chegou a patamares parecidos aos de grandes feriados prolongados, como carnaval e semana santa, quando as pessoas ficam mais em casa ou viajam para outras localidades.

Segundo o estudo, houve queda de 20 a 25% na amplitude dos ruídos na quarentena(foto: Observatório Sismológico da UnB/Divulgação)
Segundo o estudo, houve queda de 20 a 25% na amplitude dos ruídos na quarentena (foto: Observatório Sismológico da UnB/Divulgação)


A queda coincidiu com a divulgação dos primeiros decretos do Governo do Distrito Federal, que determinavam medidas de combate à disseminação do novo coronavírus. Em 11 de março, com a suspensão das aulas e eventos com mais de 100 pessoas no DF, houve a primeira baixa nos ruídos. Em 19 de março, começou a diminuição mais brusca, devido ao fechamento dos comércios considerados não essenciais. As vibrações, entretanto, voltaram a subir, de forma gradual, após o início de abril, alcançando patamares próximos aos normais para a cidade após a Páscoa, por volta de 14 de abril.

O estudo foi inspirado em experimentos realizados em outros países, que têm usado essa vibração para identificar os efeitos da quarentena. Em Bruxelas, capital da Bélgica, por exemplo, em meados de março, houve uma redução de 30% a 50% do ruído sísmico. No Nepal, a taxa chegou a 80%. O número foi menor no DF porque a estação que mede a movimentação está instalada em uma região próxima à área urbana, enquanto em outros lugares, o equipamento fica em área isolada, para medir a presença de tremores terrestres.

Os resultados da pesquisa serão apresentados durante o Congresso Brasileiro de Geologia, que ocorrerá em Brasília, em outubro. Além do professor Marcelo Rocha, assinam o estudo — denominado Efeito do Distanciamento Social Estabelecido Devido à Pandemia da Covid-19 na Amplitude do Ruído Sísmico Urbano em Brasília — a professora de matemática Susanne Tainá Ramalho Maciel, da UnB de Planaltina, e o estudante de mestrado Brandow Lee Neri. Também há colaboração do pesquisador Martin Schimmel, do Instituto de Ciencias de La Tierra Jaume Almera, de Barcelona, na Espanha. “O trabalho está em fase de publicação. Mas, como os eventos científicos estão sendo adiados, pode ser que mude a data”, disse Marcelo. 

Semelhança


 A pesquisa realizada pela UnB apresenta resultados semelhantes aos da Covid-19 Community Mobility Report, um relatório emitido pela Google. A análise é feita a partir da  geolocalização de aparelhos móveis logados com uma conta da empresa e com a permissão de acesso ao GPS. Os dados não calculam o percentual total da população em isolamento ou que se desloca ao trabalho, mas, sim, como as visitas e a duração delas em diferentes locais mudam em comparação a uma linha de base. 

“Não só a Google, como outras empresas de telefonia têm feito uma força-tarefa para medir os índices de isolamento no mundo. Eles disponibilizaram na internet relatórios de mobilidade, que se baseiam em relatórios anônimos, e mostram o quanto as pessoas estão acessando aqueles lugares. Então fica dividido em parques, trabalhos, entre outros ambientes. Nossos dados demonstram a intensidade de movimento nas cidades e eles coincidem com os dados de telefonia móvel”, disse a professora Susanne Maciel.

Os dados mais recentes do relatório da Google, referentes a 21 de maio, mostram que, no DF, a população que tem ficado em casa cresceu 20%. As que têm frequentado mercados e farmácias subiram 2%.

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