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Correio Braziliense

Covid-19: Ampliação de leitos de UTI não vai impedir colapso do sistema

Previsão da Sala de Situação da UnB prevê lotação de leitos de UTI até o fim do mês


postado em 02/06/2020 15:49 / atualizado em 02/06/2020 16:09

Pesquisador da UnB defende criação de fila única para as UTIs da rede pública e privada(foto: Breno Esaki/Agencia Saude)
Pesquisador da UnB defende criação de fila única para as UTIs da rede pública e privada (foto: Breno Esaki/Agencia Saude)
Projeção da Sala de Situação da Universidade de Brasília (UnB) prevê esgotamento de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI’s) já esta semana ou início da semana que vem, a depender da criação de novos leitos. Segundo dados do Governo do Distrito Federal (GDF) desta terça-feira (2/6), 47% dos leitos públicos de UTI estão ocupados.

Os dados da Sala de Situação da UnB mostram que o número de infectados por coronavírus dobra a cada 10 dias. Portanto, mesmo a ampliação do número de leitos não afasta a possibilidade de colapso do sistema de saúde até o fim do mês.

“Se, em cinco dias, vamos lotar os 200 leitos existentes, em 10 dias lotamos 400 leitos. Mesmo com essa ampliação que o DF vem propondo há um risco muito grande de saturação até o final do mês”, explicou Jonas Brant, epidemiologista professor do Departamento de Saúde Coletiva e coordenador da Sala de Situação da UnB.

O pesquisador afirma que não é viável aumentar para 800 o número de leitos, como prometeu o GDF até o fim de junho. “Não existem profissionais disponíveis para sairmos de um cenário de 200 leitos de UTI’s para 800. Não temos um exército de reserva para profissionais de saúde, todos os médicos estão contratados, mesmo se quisesse contratar 100 médicos hoje, eles não existem. Por isso, tenho muitas dúvidas que o DF consiga implementar esse 800 leitos”, disse.

O que fazer

Se não é possível aumentar indefinidamente o número de leitos, resta diminuir a taxa de transmissão. Ainda em abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou critérios para serem observados pelos governos antes de flexibilizar o isolamento social. Das orientações dadas pela OMS, o DF não atende às duas primeiras.

Segundo a organização, antes de flexibilizar o isolamento, a transmissão da covid-19 deve ser controlada e o sistema de saúde precisa conseguir detectar, testar, isolar e tratar todos os casos, além de rastrear todos os contatos. Para Brant, nenhum estado do Brasil tem conseguido rastrear os contatos de infectados de coronavírus para limitar a transmissão.

“O DF vem conseguindo detectar muitos casos, isso tem permitido conhecer relativamente bem a epidemia. No entanto, a ausência de um sistema de busca de contatos é a maior fragilidade do DF, porque com isso conseguiríamos romper a cadeia de transmissão da doença. Isso faz parte do papel da atenção primária em saúde nesse momento”, destacou o epidemiologista.

Outro problema é a abertura de espaços públicos, como parques e templos, além da volta do comércio. “Todos os indicadores internacionais construídos pela OMS e Organização Pan-americana de Saúde (Opas) sugerem que a abertura de espaços públicos e aglomerações só devam ocorrer num cenário de diminuição da epidemia, e a gente no DF está em franco crescimento”, afirmou Brant.

O pesquisador explica que, ao ampliar a abertura de shoppings, parques e cultos, se está ampliando a possibilidade de contato das pessoas e com isso aumentamos a velocidade de transmissão. Isso tudo num cenário onde o DF não vem conseguindo fazer uma boa busca de contatos e a epidemia não está controlada. Brant afirma que o governo deve fiscalizar os ambientes em que o comércio está funcionando de acordo com os critérios da vigilância sanitária, para se certificar de que não estão colocando em risco os clientes ou funcionários.


Protegendo os mais vulneráveis


Outra medida que poderia ajudar no aumento do número de UTI’s é a criação de uma fila única entre o sistema público e o privado. “A gente tem visto que os leitos privados têm sido ocupados por pacientes de outros estados”. O pesquisador destaca a discussão ética na criação de uma fila única, já que, em tese, esses leitos estão reservados para pessoas com plano de saúde. “Todo mundo tem direito à vida, não é porque você paga o plano de saúde que você tem mais direito à vida que outras pessoas”, afirmou.

Para Brant, o Brasil deveria adotar o modelo da fila única da mesma forma que existe para transplante de órgãos. “A fila única para órgãos funciona muito bem, é um critério de risco. Todo mundo está nessa fila e quem tem mais risco tem prioridade. Então deveríamos adotar o mesmo princípio para as UTI’s”, explicou.

O pesquisador afirma ainda que as pessoas de baixa renda apenas ficarão em casa se perceberem ajuda do governo, daí a necessidade de programas de assistência. “Elas precisam de recursos, elas não têm estabilidade econômica e, se elas sentirem que estão sozinhas, vão sair de casa”.
 
*Estagiário sob supervisão de Nahima Maciel 


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