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Correio Braziliense

Psicólogos do Hran ajudam pacientes e parentes no combate à covid-19

Além de boletins médicos em termos leigos e repassados com calma e compaixão, os familiares dos pacientes com coronavírus internados no Hran recebem teleatendimento psicossocial de psicólogos da unidade


postado em 03/06/2020 06:00

(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Jádina de Jesus da Silva, 39 anos, não encontra palavras para descrever o que sentiu durante os 13 dias em que a mãe, Antônia Maria de Jesus da Silva, 63, ficou internada no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Mãe e filha procuraram a unidade de saúde por outro motivo e acabaram vítimas do novo coronavírus. A maranhense Antônia não resistiu ao combate contra a covid-19 e morreu em 15 de maio. Sem despedidas.

Se, por um lado, faltam palavras para Jádina, por outro, sobram na memória nomes de desconhecidos que preencheram o vazio do isolamento, do distanciamento, do desespero e da tristeza. “O amor existe em qualquer lugar, até mesmo de quem a gente não conhece ou só viu uma vez”, emociona-se. Além de boletins médicos em termos leigos e repassados com calma e compaixão, os familiares dos pacientes com coronavírus internados no Hran recebem teleatendimento psicossocial de psicólogos da unidade.

“O Dr. Iuri e a Dra. Andreia foram dois anjos em momentos de dor e terror. Não deixaram a gente em nenhum momento. Ligavam, iam lá para falar com a minha mãe e fazer chamada de vídeo. Mesmo que não estivessem no setor dela, davam um jeito. Não deixavam a gente sem notícias. Ligavam para conversar com a gente, falavam que era um momento muito difícil, nos davam força. O amor preencheu, a compreensão pela dor do outro e saber que a gente não estava sozinho”, detalha. Jádina até brinca que não sabe qual comunicação os profissionais tinham entre eles, porque quando não era um, era outro que ajudava. “Até a vigilante do hospital nos acolheu. Tivemos apoio de pessoas que dão valor ao ser humano.”

Última vez

No começo de maio, Jádina levou a mãe para uma consulta no Hospital Regional de Taguatinga (HRT) para verificar alguns nódulos que Antônia tinha no fígado. “O médico fez uma tomografia e falou que minha mãe estava com o vírus da covid e que precisava levá-la para o Hran. Não queria que ela fosse para lá de jeito nenhum, porque só tinha pacientes com coronavírus e eu não acreditava nesse diagnóstico. Mas ela estava com falta de ar, respirando pouco”, lembra a filha.

Quando chegaram à unidade de referência para os atendimentos do novo coronavírus, os profissionais explicaram para Jádina que o pulmão da mãe estava muito comprometido e que ela precisaria ficar internada. “Fiquei lá de sábado até às 14h do domingo. Foi a hora que saí do hospital, me despedi da minha mãe, mas não pude abraçá-la. Falei que ia para casa, que não podia ficar com ela, mas que voltava para buscá-la. Não a vi mais.”

A irmã de Jádina, Cleidiane de Jesus Sá Gonçalves, 31, veio do Maranhão acompanhar os cuidados com a matriarca. Foram 13 dias de prontidão. “A gente nem dormia, nem acordava, sempre atentas a tudo. Foram momentos muito difíceis, os mais difíceis de nossas vidas, de muita dor e tristeza, não desejo isso para ninguém”, desabafa. Em meio ao turbilhão de emoções somado ao distanciamento físico da mãe, com proibições de qualquer toque, os “anjos” fizeram a diferença. Fosse com uma palavra, fosse com uma chamada de vídeo que permitisse ver Antônia, as irmãs foram amparadas.

Se pudesse encontrar com cada um que a socorreu nos momentos de aflição, Jádina confessa que choraria e agradeceria. “Estou sempre orando por eles, pelos familiares deles. Queria fazer uma festa e dizer coisas que eu nem sei falar. É muita gratidão e muito amor. Sinto que são pessoas da minha família.” Pela mãe, uma mulher guerreira e amorosa com os filhos, Jádina assegura que vai seguir em frente, apesar da dor da saudade. “Eu só queria ter visto minha mãe uma última vez, para dizer que a amava, perguntar se estava me sentindo, me ouvindo. Vivi os dois dias mais tristes da minha vida: o dia no qual a deixei no hospital e o dia no qual a enterrei.”

De acordo com o responsável técnico da psicologia do Hran, o psicólogo Iuri Luz,  o atendimento surgiu de maneira natural, principalmente, diante do que estava acontecendo em outros países. “A ideia é acolher as angústias, ser um mediador da comunicação entre familiar e paciente e, até mesmo, avaliar e intervir se o familiar tiver alguma condição de saúde mental aguda. Mesmo a distância, mas prestar um suporte terapêutico”, explica.

Boletins e acolhimento

“Minha irmã tinha mais notícias minhas do que eu”, brinca Gilson Rodrigues Reis, 31. Com uma pneumonia de tipo raro, o paciente ficou internado por 10 dias no Hran fazendo acompanhamento e aguardando os testes para a covid-19. “Desde o primeiro dia em que fiquei internado, vinham saber como eu estava, se o exame de coronavírus tinha saído, em que eles poderiam ajudar, que se eu quisesse conversar, poderia ligar espontaneamente”, detalha. O apoio tornou a espera mais tranquila, mas, principalmente, ajudou quem estava longe.

Gilson é o único filho que mora em Brasília. O restante da família é de Luziânia (GO). “Como a gente não podia ir, eles ligavam de manhã, às vezes, à tarde também para dar informação sobre ele, sobre o resultado dos exames, o nível de oxigênio. Também tiraram nossas dúvidas. Passou muita confiança”, lembra Rosilene Rodrigues Guimarães, 38, irmã de Gilson. Como ele viaja muito a trabalho e tem histórico de problema respiratório e pressão alta, a preocupação e a fiscalização da família é grande. “Foi a primeira vez que ele ficou internado, ficamos assustados”, comenta Rosilene.

O impacto da intermediação é sentido tanto pelo familiar quanto pelo paciente. Com suspeita de coronavírus, Creusiane de Oliveira Costa, 31, ficou internada por oito dias na unidade de saúde. “Quando a gente vai para o Hran já pensa que não vai voltar para casa. Dá medo tanto para o paciente quanto para toda a família”, define. Mãe de Jennerfe Oliveira Borges, 10, Creusiane deixou a filha com uma irmã, mas, pelos profissionais do atendimento psicossocial, mantinha contato constante e direto com a criança. Foi a primeira vez que as duas ficaram tanto tempo sem se ver.
“É algo que mexe muito com o psicológico da família ter uma pessoa internada num hospital referência. Então, sempre perguntavam como a gente estava, como éramos tratadas, tentavam nos tranquilizar e me passar confiança de que sairia logo dali”, detalha. Jennerfe complementa: “Senti muito a falta dela, de dormir abraçada com ela. Quando ela me ligava, me deixava tranquila. Dizia que me amava muito”.

As emoções ganharam outros ares quando Creusiane saiu do hospital. “Poder chegar em casa e rever minha filha foi emocionante. As ligações da psicóloga me tranquilizaram. Queria poder agradecer pessoalmente. Já tinha uma admiração por esses profissionais, agora, aumentou.”

 

Depoimento


Tivemos que reinventar a forma de estarmos presentes

“Por estar acostumada com os atendimentos presenciais cotidianamente no hospital, inicialmente, fiquei preocupada com a falta que me faria olhar nos olhos do paciente durante a escuta.  Entretanto, rapidamente, essa dificuldade foi superada, porque percebemos que por teleatendimento também é possível formar um bom vínculo, oferecer escuta e suporte psicológico aos pacientes e aos familiares. Conseguimos, por vezes, estabelecer uma conexão entre pacientes e familiares por meio de vídeos, áudios e mensagens que são reproduzidos in loco pelo Iuri (Iuri Luz, responsável técnico da psicologia do Hran), que também consegue prestar atendimento àqueles pacientes que, por algum motivo, não dispõem de um aparelho telefônico. Tivemos que reinventar a forma de estarmos presentes, e isso tem sido bastante trabalhoso, mas muito gratificante. Continuo sentindo falta do olho no olho, mas noto que a vinculação dos pacientes sinaliza que estamos no caminho certo, dentro das nossas possibilidades neste contexto. Para tudo isso dar certo, também foi muito importante o trabalho em equipe que realizamos aqui.”, Anamaria Reis, psicóloga.

 

Duas perguntas para: Iuri Luz, psicólogo e responsável técnico da psicologia do Hran

Qual a importância desse acompanhamento, mesmo a distância?
Considerando o fato de o familiar ter que permanecer distante do paciente que está internado, o sentimento de impotência e a angústia acabam se potencializando. As visitas também não são realizadas, o que torna esse enfrentamento bastante acentuado. Uma situação que, em via de regra, já traz um certo nível de tensão e preocupação. Mas nesse contexto de covid, cheio de particularidades, a dinâmica do enfrentamento acaba sendo mais dolorosa. Então, a importância é estabelecer um vínculo no qual o profissional acaba sendo um elo qualificado de comunicação entre o familiar e o paciente na medida que esse serviço é realizado por especialistas, psicólogos, residentes de psicologia e outras áreas e assistentes sociais. São profissionais que atuam na área de urgência e emergência, violência, adolescência, doenças crônicas, entre outros. Isso também contribui, de alguma maneira, para que a gente possa oferecer suporte para a família que está na situação de confinamento e, muitas vezes, não consegue administrar a necessidade do isolamento, os efeitos psicológicos e sociais que isso traz. Oferecer uma escuta qualificada, compreensiva, empática, que tenta oferecer um espaço de manifestação do sentimento, das angústias, por si só já traz um certo alívio. Estabelecer esse vínculo também é importante caso as coisas não saiam muito bem. Se estabelece uma relação de cuidado que pode atenuar os efeitos iniciais dessa perda tão dolorosa.

Em algum momento se imaginou nesse papel, nesse tipo de atendimento, acolhendo essas dores, essas pessoas?
De um modo geral, se ver nesse lugar de escuta, dentro da relação de ajuda, é frequente no processo de trabalho da maioria dos psicólogos do hospital. Agora, dentro desse contexto de pandemia, acho que nenhum de nós imaginaríamos. Particularmente, sou um profissional muito identificado com a minha área, a psicologia hospitalar. Sou movido por desafios. Mas, ainda que a gente espere por grandes desafios, não imaginaria isso, sendo exigido como estamos sendo, um atendimento de massa. Temos que entender que, infelizmente, não vamos conseguir atender a todos, vamos ter muitas perdas. Temos que nos manter integrados enquanto pessoa e profissional para manter esse trabalho, que é tão importante. Ter a consciência de que o foco é o paciente.

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