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Correio Braziliense

Conheça histórias de artistas de rua que precisaram se reinventar

Em busca do sustento, artistas de rua do Distrito Federal precisam reinventar-se com apresentações na internet, contribuições por transferência bancária e vaquinhas on-line


postado em 06/06/2020 07:00 / atualizado em 06/06/2020 14:56

A Cia. Circo Rebote já se apresentou em dois festivais, um on-line e outro com distanciamento social, durante a pandemia(foto: Cia. Circo Rebote/Divulgação)
A Cia. Circo Rebote já se apresentou em dois festivais, um on-line e outro com distanciamento social, durante a pandemia (foto: Cia. Circo Rebote/Divulgação)
Com o isolamento social como medida importante para achatar a curva de contaminação do novo coronavírus, muitos artistas do Distrito Federal ficaram sem o principal palco para a busca do pão de cada dia: a rua. Frequentar pontos movimentados das cidades, que antes podia ser uma fonte de renda, tornou-se um risco de contaminação. Acostumados a conviver com problemas como preconceito social e receita econômica incerta, agora os artistas de rua precisam lidar com a falta de público. 


“As dificuldades são grandes. O artista de rua é um aglomerador inconsequente de pessoas. Gostamos de misturar todo mundo e colocar o público para viver aquele ritual. Então, é difícil até para quem segue trabalhando nos semáforos, porque está correndo um risco. Traz uma insegurança quando alguém vai contribuir e abaixa o vidro do carro, entre outros fatores”, conta o palhaço Aipim, que está isolado em casa, sem se apresentar nas ruas.

Para suprir a ausência de plateia e conseguir receita para pagar as contas, muitos artistas, acostumados a se apresentarem em pontos da capital, migraram para as redes sociais, “passando o chapéu” de forma on-line, por meio de contribuições por transferência bancária e vaquinhas na internet.

Mandioca Frita

Por ser do grupo de risco, Mandioca Frita não está trabalhando e conta com uma vaquinha on-line (foto: Mirley Allef/Divulgação)
Por ser do grupo de risco, Mandioca Frita não está trabalhando e conta com uma vaquinha on-line (foto: Mirley Allef/Divulgação)


Com 30 anos de experiência na arte de rua, e 25 deles dedicados a apresentações no Parque Ana Lídia, o palhaço Mandioca Frita está afastado das atividades artísticas. O artista sofreu um AVC no início de março, recebeu alta do hospital, mas segue em casa.

Há mais de três meses longe do ofício, Mandioca Frita sente falta do contato com o público. “A rua é onde divulgo meu trabalho, a contribuição é espontânea. Já ganhei roupas para os meus filhos, berço, muitas coisas além do dinheiro, e muitos amigos. Sou bem leigo com tecnologia, e tudo que aparece para mim passo para os meus filhos. Por meio da live deles, eles me ajudam financeiramente também”, conta.

A pandemia trouxe um impacto grande na receita econômica do palhaço, que hoje se mantém com o dinheiro arrecadado em doações durante o período de internação decorrente do AVC. “Diminuiu 100% (receita econômica), estou vivendo da campanha. Como eu vivo da arte e tenho meu ponto fixo, todo sábado, domingo e feriado, tinha sempre aquele dinheirinho. Entrava R$ 200, R$ 300, R$ 400, isso me garantia a feira da semana, o gás. Então, o impacto foi 100%, pois está tudo parado”, diz.
A campanha de arrecadação de Mandioca Frita segue ativa. Para mais informações, é possível entrar em contato com o filho do artista Davi Maia, no Instagram @palhacoaipim.

Palhaça Macaxeira

Júlia Maia está morando na Alemanha e não consegue voltar a Brasília por conta da pandemia(foto: Antonio Cunha/Esp.CB/D.A Press)
Júlia Maia está morando na Alemanha e não consegue voltar a Brasília por conta da pandemia (foto: Antonio Cunha/Esp.CB/D.A Press)


Também filha do palhaço Mandioca Frita, Júlia Maia é mais conhecida em Brasília como palhaça Macaxeira. Ela mistura a dança do breaking com os trabalhos circenses. Ao lado do irmão e do pai, faz parte da Trupe Raiz do Circo, e ajudou a fundar a trupe As Desempregadas, que são duas mulheres artistas com trabalhos voltados a ações sociais e espetáculos de rua.

Hoje, a artista vive na Alemanha, sem perspectiva de volta ao Brasil devido à pandemia do novo coronavírus. “Aqui, estou de favor na casa de uma amiga, de quarentena, mas conseguindo treinar breaking quase todos os dias, o que tem sido minha grande maior produção no momento. Não há retorno financeiro, mas tento utilizar o máximo do tempo para estudar e desenvolver projetos pessoais e criações artísticas”, explica.

Júlia, que sempre enfrentou as dificuldades de ser uma mulher artista de rua, agora precisa viver com uma receita de 25% do que costumava ter. “O dinheiro que tenho é o que recebi do auxílio emergencial, além do trabalho realizado dentro de dois editais que consegui a aprovação", explica.

Por trabalhar diretamente com o público, a artista vê dificuldades em migra para a internet. “É difícil pensar em uma grande adaptação para o on-line”. Ela realiza lives no Instagram @maia.juliamaia.

Palhaço Aipim

O palhaço Aipim migrou para o mundo das lives(foto: Mirley Allef/Divulgação)
O palhaço Aipim migrou para o mundo das lives (foto: Mirley Allef/Divulgação)


Influenciado pelo pai, Mandioca Frita, Davi Maia ingressou no mundo da arte de rua como uma brincadeira. “Foi brincando que eu aprendi a me comunicar com o público, como olhar para a plateia, a passar o chapéu, a tocar nos sentimentos das pessoas. Depois, essa brincadeira ficou mais séria, o salto se dá quando você passa dificuldades. Tive problemas psicológicos e financeiros, até que o ofício de ser artista de rua virou um instinto para sobreviver”, relembra.

Assim, Davi tornou-se o Palhaço Aipim. Também acostumado com apresentações no Parque Ana Lídia, nos ônibus e metrô da cidade, o artista precisou mudar todo formato do show para o on-line. “Estou isolado, sem fazer apresentações ou promover aglomerações, mas estou trabalhando muito, escrevendo projetos, pensando em formas de sobrevivência e criando materiais nas redes sociais. Além do dinheiro, o artista precisa do público. Como você não pode atraí-lo agora, é importante manter o contato, para quando tudo se normalizar, o público lembre de você”, conta.

Com a pandemia, o artista também sofreu um impacto financeiro. Hoje, conta com o auxílio emergencial do governo e com contribuições espontâneas em lives no Instagram @palhacoaipim. “Estou rodando o chapéu on-line. A minha receita econômica sempre é incerta, posso dizer que diminuiu. Com o cancelamento de alguns eventos, perdi, pelo menos R$ 15 mil”, calcula.

Cia. Circo Rebote

A Cia. Circo Rebote já se apresentou em dois festivais, um on-line e outro com distanciamento social, durante a pandemia(foto: Cia. Circo Rebote/Divulgação)
A Cia. Circo Rebote já se apresentou em dois festivais, um on-line e outro com distanciamento social, durante a pandemia (foto: Cia. Circo Rebote/Divulgação)


Formada pelos artistas circenses Erika Mesquita e Carlos Atawallpa, a Cia. Circo Rebote viaja o mundo, participando de festivais de arte de rua pelo Brasil e em mais de 20 países. A pandemia fez com que eventos na Europa e na Coreia do Sul fossem cancelados.

Para continuar levantando o sustento de cada dia, os artistas também precisaram adaptar as apresentações para o mundo virtual. “Nós, da companhia, tivemos que nos isolar e nos reinventar, enquadrando nosso trabalho às lives e passando chapéu virtualmente, por meio de transferências bancárias. Ser artista de rua nos coloca em diversas situações, resistimos ao tempo, a diversos públicos e espaços. Isso nos beneficia como artistas versáteis, podemos nos adaptar a qualquer situação”, relata Carlos.

A companhia participou de dois festivais durante a pandemia: o Fica em Casa, virtualmente; e o Serenatas de Abril, realizado pelo Teatro Mapati no aniversário de 60 anos de Brasília, com serenatas musicais embaixo dos prédios da capital. “A crise diminuiu nossa renda, mas não a vontade de seguir realizando arte, levando alegria para as famílias que nos acompanham por todos os lugares”, conta o artista, que divulga os trabalhos no perfil @circorebote, no Instagram.

 

Lucas Wendel

 

O músico Lucas Wendel canta em postos de gasolina para divulgar e vender CDs autorais (foto: Bruno Mello/Divulgação)
O músico Lucas Wendel canta em postos de gasolina para divulgar e vender CDs autorais (foto: Bruno Mello/Divulgação)

O músico sertanejo Lucas Wendel encontrou nas apresentações em postos de gasolina uma forma de impulsionar as vendas dos CDs Boteco do Lucas Wendel Vol. 1 e 2. “Eu tocava em uma banda, e a gente ia para cidade para vender nosso o CD em lojas e postos de gasolina. Pensei que em meus trabalhos autorais, ir para os postos poderia ajudar a divulgar e vender meu CDs também”, diz.

 

Para cativar o comprador que vai até o posto de gasolina, Lucas canta trechos de canções e depois oferece o disco por apenas R$ 5. Segundo ele, já foram vendidos milhares de CDs dessa forma.

 

No início da pandemia, o cantor interrompeu todas as atividades. Mas, nos últimos dias voltou com as vendas nos postos do Distrito Federal. Agora, o cantor se apresenta de máscara, sempre divulgando o trabalho no perfil @lucaswendell. “Como estou trabalhando na rua, procuro sempre estar me higienizando, mantendo a distância com quem compra, mas no momento não posso parar. Uma das alternativas que encontrei foi vender meus CDs na internet também”.

 

 

*Estagiário sob a supervisão de Adson Boaventura

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