Cidades

Crônica da Cidade

Valeu, Velvet

Correio Braziliense
postado em 06/06/2020 04:07
Na época do Orkut, que a jovem leitora, o jovem leitor não devem fazer a menor ideia do que se trata, éramos instigados a listar três coisas de que gostávamos muito. Ao fazer meu perfil naquela que foi a primeira rede social realmente amada pelos brasileiros, lembro que escrevi: estar apaixonado e ser retribuído, comer comida gostosa, e dançar rock'n'roll levemente alcoolizado. Desde a adolescência, essa lista não mudou. Estão aí três coisas que amei e sigo amando.

Para satisfazer a parte de me contorcer ao som de guitarras distorcidas, tive a sorte de encontrar vários lugares na vida. Na adolescência, eram as casas de amigos cujos pais eram doidos o suficiente — e os meus foram algumas vezes — para deixar a gente reunir a galera. Depois, vieram os bares e as festas. Zoona Z, Dreams, Balacobaco, Gate's Pub, Landscape, Cult 22, Balaio Café, Play... Bati ponto nesses recantos underground em diferentes fases da vida e neles vivi muitos momentos felizes, rodeado de amigos e gente bonita, chacoalhando o corpo ao som de DJs que tinham o gosto parecido com o meu ou de bandas independentes.

O rock sempre ressoou em lugares apertados e calorentos, que, não fosse pelo amor ao estilo, ninguém em sã consciência iria. Se bem que a consciência de roqueiro raramente é sã. Esses lugares costumam marcar época e ir embora, não me pergunte porquê. Daquela lista de lugares ali em cima, nenhum existe mais. E, esta semana, um dos últimos redutos que ainda garantiam a minha diversão anunciou que se foi também. O Velvet Pub, lugar maneiríssimo na 102 Norte, anunciou que vai fechar as portas. Mais uma vez, ficamos órfãos.

Já deixou saudade. Começar a noite no Quinto e depois entrar no Velvet para dançar ou assistir a algum show era um dos programas mais legais de Brasília antes da quarentena. O Velvet, criado pelo gente-finíssima Gustavo, também se diferenciava por ser muito mais bonito do que as casas de rock costumam ser e ainda foi um dos lugares que mais manteve espaço para a música autoral, apesar de, no fim, ter sido obrigado a se render ao cover, essa paixão dos brasilienses que não compartilho. Mesmo assim, continuou na minha lista de locais prediletos. Um dos poucos em que eu ainda podia dançar meu rock'n'roll levemente alcoolizado — às vezes, um tanto alcoolizado, admito, como na noite em que resolvi dar um mosh do palco de meio de metro de altura e meu irmão acabou com o nariz sangrando...

No começo desta semana, Gustavo anunciou o fim, depois de 10 anos de funcionamento. “Tentamos de todas as formas manter as portas abertas, mas,  infelizmente, a pandemia e a ineficiência do governo brasileiro para oferecer suporte às pequenas e microempresas nos atingiu de uma maneira que nos fez tomar essa difícil decisão”, escreveu, antes de apresentar números dignos de admiração. Na sua década de existência, o Velvet recebeu mais de 170 bandas e mais de 100 DJs. Foram 550 semanas e 2.750 eventos realizados nesse, como diria o saudoso Júpiter Maçã, lugar ducaralho. Valeu, Velvet.

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