Cidades

Obter vacina eficaz contra a covid é desafio grande, diz professor da UnB

André Nicola explicou as dificuldades enfrentadas pela comunidade científica para se chegar a um tratamento eficaz da doença

Ana Maria da Silva*
postado em 07/07/2020 06:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
rosto de homem com óculosEm entrevista ao programa CB.Poder ; parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília ;, o médico e professor de imunologia médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) André Nicola explicou as dificuldades enfrentadas pela comunidade científica para se chegar a um tratamento eficaz da doença. ;Temos (seres humanos) de 20 a 25 genes, enquanto os vírus têm cerca de dez. A maioria dos materiais que eles usam para se reproduzir são das nossas células, ou seja, é muito difícil agir contra o vírus sem matar o indivíduo que ele habita;, avalia.

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Hoje, há mais de 140 vacinas sendo pesquisadas no mundo, duas das mais promissoras devem ser testadas aqui, no Brasil. Como é que está esse desenvolvimento, por que é tão difícil chegar a um resultado final?

Essas pesquisas estão andando em uma velocidade muito maior do que, normalmente, acontece. Geralmente, demoram cerca de cinco a dez anos, então, na verdade, estamos sendo rápidos. A grande dificuldade é conseguir uma vacina que seja eficaz e segura. Esse tempo é importante para garantir a segurança das pessoas. Algumas vacinas demoraram décadas para serem feitas. Há um custo de, mais ou menos, um bilhão de dólares, cada uma. As coisas estão andando muito mais rápido do que o normal. Isso é um desafio enorme para os cientistas e pesquisadores clínicos que estão fazendo o desenvolvimento.

Há duas vacinas que estão sendo consideradas mais promissoras. Quais são?

Elas estão na última fase de estudos clínicos antes de serem lançadas no mercado. É o que chamamos de fase clínica três. Uma é a vacina chinesa chamada CoronaVac, de uma empresa chamada Sinovac. A outra foi desenvolvida por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra. As duas estão na última fase de estudos.

Há como estimar quando essas vacinas vão chegar no mercado?
Eu não trabalho com a parte final do desenvolvimento da vacina, mas tenho lido informações sobre. A expectativa otimista deles é de conseguir uma vacina para o final deste ano ou começo de 2021. Os grandes desafios são testar e ver se realmente funciona, que é a fase em que se encontram os estudos. Depois disso, irão produzi-la em grande quantidade.

Ainda há um percentual baixo da população que teve a doença confirmada, mas há teorias de que deveríamos deixar as pessoas se contaminarem para haver a imunização geral. Qual é o risco de uma teoria como essa?

Chamamos isso de imunidade de rebanho. Significa ter um número tão grande de pessoas que foram infectadas e, hoje, estão imunes, fazendo com que a doença não circule mais. Para que isso aconteça, é preciso que cerca de 70% da população seja infectada. Há um estudo da Espanha, um dos países mais afetados pela covid-19, que verifica que somente 5% da população teve a doença. Lá, houve um caos no sistema de saúde. Com 70% teremos um caos muito maior, e milhões vão morrer. Essa não é uma estratégia adequada. Devemos chegar a imunidade de rebanho quando tivermos uma vacina, antes disso é muito difícil. A esperança é que a vacina funcione ao ponto da gente poder imunizar, ao menos, 70% da população.

Pessoas que se recuperaram têm a possibilidade de serem infectadas novamente? A ciência tem respostas para isso?

Não há resposta para isso, pois ainda não houve tempo suficiente para avaliar. Têm doenças que as pessoas ficam imunes por 80 anos, como o sarampo. Há outras que as pessoas não têm imunidade para o resto da vida, podendo desenvolver a doença pela segunda, terceira, quarta vez. A gente não sabe, ainda, em qual dos dois grupos a covid-19 entra. Tem muita gente tentando descobrir. Até agora, existem alguns relatos, mas não são concretos. Eu ainda não vi nenhum estudo completo e concreto mostrando que, de fato, a proteção dura ou não para o resto da vida. Quando a pessoa tem a segunda vez, você precisa garantir que ela teve uma primeira vez, e o teste pode ter falhado.
* Estagiária sob a supervisão de Guilherme Marinho

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