Cidades

Mães da quarentena relatam alívio e esperança após nascimento dos filhos

Mães que venceram a covid-19 encontraram forças e renovam a esperança com o nascimento dos filhos. O fato de ver que os bebês nasceram saudáveis, sem o vírus, trouxe também um motivo para sorrir no meio dessa pandemia

Cibele Moreira
postado em 07/07/2020 06:00
 (foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Benita começou a sentir os sintomas de covid-19 no sétimo mês de gravidezEm meio a pandemia, o nascimento de uma criança representa também o sentimento de esperança para muitas mães que, além de ter enfrentado a ansiedade da gravidez, também se protegeram da covid-19. Entre as emoções da gestação, da insegurança em relação a doença, vem o alívio ao ouvir o choro na sala de parto e saber que o bebê está saudável. Essa foi a sensação de, aproximadamente, 49 gestantes que deram a luz na rede pública de saúde do Distrito Federal, durante os meses de março até a primeira quinzena de junho.

Com a pequena Olívia no colo, a artesã Benita de Oliveira Carneiro, de 32 anos, conta que, durante a gestação, o maior medo que ela teve foi de a neném nascer prematura. ;Vi muitos casos de mãe tendo o bebê antes do tempo, e isso me preocupou bastante;, relata. A moradora do Guará foi diagnosticada com a doença. ;Quando recebi o resultado, já estava recuperada. Comecei a sentir os sintomas no sétimo mês de gravidez e, apenas no oitavo, quando realizei um segundo exame, veio a confirmação do vírus;, explica.

Por estar agora em uma fase que não há mais transmissibilidade, Benita respira com mais alívio. ;Agora é redobrar os cuidados para que ela não pegue;, pontua. Além de Benita, os outros três filhos também apresentaram sintomas leves da covid-19. Atualmente, todos estão bem e podem curtir a irmã que nasceu no último dia 2. Mãe e filha receberam alta do Hospital Regional da Asa Norte no último sábado.

A chegada de Maria Eduarda também foi celebrada com bastante alegria por Antônia Valneide Martins, 31. A dona de casa conta que o nascimento da filha foi o que deu força para a família que perderam quatro familiares pela doença. ;A sensação é horrível. Saber o quanto cruel é esse vírus e ver pessoas próximas morrerem. A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente, até que acontece;, relata.

Por ter pessoas próximas que testaram positivo, Antônia precisou fazer o exame para a detecção da covid-19. O resultado saiu no dia de ganhar a bebê, e, com o acompanhamento no Hospital Regional da Asa Norte (Hran) ; unidade de referência para pacientes com o novo coronavírus ; ela deu entrada na maternidade do hospital em 30 de maio. ;Foi um baque saber que estava com a doença, nunca imaginei que ia pegar. Ainda bem que estava assintomática e que o parto foi tranquilo, natural e rápido. Confesso que foi um alívio saber que a bebê nasceu bem. O meu medo era de não poder ficar com ela;, explica.


Mudança na rotina


Além dela, o marido, Hélio Lourenço de Brito, 42, e, os dois filhos, de 6 e 9 anos, tiveram o diagnóstico do novo coronavírus. No entanto, todos estavam assintomáticos. O maior desafio foi controlar a vontade de beijar e abraçar a bebê nos primeiros 14 dias. ;A orientação passada pela equipe médica foi de evitar ter um contato mais próximo com a neném nesse período de quarentena. É ruim não poder cheirar, beijar, mas se é para o bem dela vale a pena;, pontuou.

A rotina também mudou. A hora da amamentação ganhou o álcool em gel e a máscara como aliados nos primeiros dias, tudo para evitar que a contaminação na recém-nascida. Mesmo após o período de distanciamento, Hélio conta que a família procura estar de máscara. ;Buscamos esse cuidado e também adaptamos as comunicações com os familiares. Temos uma família muito grande e era comum, nos reunir, receber visitas. Agora só por videochamada e fotos nos grupos do WhatsApp;, pontua.

Referência no atendimento aos pacientes com a covid-19, o Hran também se destaca no acolhimento às gestantes que apresentam algum sintoma da doença. A maternidade está voltada para essas mães e oferta todo o amparo necessário para resguardar a saúde da grávida e do bebê. Porém, a estadia na unidade nem sempre gera uma sensação de alívio.

Para Tamara Regina Pacífico Silva, 26, a descoberta dos sintomas do novo coronavírus e a internação no Hran trouxe aflição na última semana. Mesmo sendo bem acolhida e atendida pelos profissionais da saúde, que fazem o acompanhamento das gestantes, ela relata que a limitação de não receber a visita do esposo, em um momento delicado como esse, pesa bastante. ;Na terça-feira, quando eu fui internada, o meu marido estava trabalhando. Nem dei um abraço nele nem me despedi. Todos os dias ele me pergunta se estou melhor e quando volto para casa. Mas não sei;, comenta.

Um dos momentos mais difíceis para ela, foi quando descobriu o sexo do bebê e não pode dizer ao marido. ;Eu tinha planejado tudo para descobrir e fazer uma surpresa para meu esposo. Queria muito ter contado pessoalmente, mas como não posso receber ninguém, fiz uma ligação e contei para ele. Às vezes me dá um vazio;, conta ela que será mãe de mais um menino, o nome já foi escolhido: Bryan.

Tamara, tem também um filho de 8 anos, o Arthur, está na expectativa da chegada de Bryan, que está na 19; semana. Em relação aos receios, ela afirma que tem medo do desconhecido, de não saber o que vai acontecer, mas sempre que ouve o coração do filho batendo, forte e saudável, ela se acalma.

Ela foi internada após apresentar os sintomas de perda de olfato e paladar, além de sentir muita dor. Chegou a fazer uma tomografia que apresentou alteração no pulmão. Pela suspeita da covid-19, precisou ficar no hospital até o resultado do exame. No último sábado, veio a boa notícia. Ela recebeu alta e pode dar continuidade no isolamento, em casa.

Pesquisa


Além do Hran, o Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB) também está ofertando acompanhamento para as gestantes que tiveram covid-19 e não estão mais na fase ativa da doença. O programa oferecido pela unidade faz parte de um projeto de pesquisa que visa analisar os efeitos do vírus durante a gestação, no parto, pós-parto e no desenvolvimento da criança.

De acordo com a chefe da Unidade Materno-Infantil do HUB, e uma das coordenadoras da pesquisa, Lizandra Paravidine, esse estudo é importante para entender o impacto que a doença tem na vida dessas mães e crianças. ;Sabemos que esse vírus afeta o sistema neurológico, como na aparição de sintomas da perda de olfato, perda do paladar, dor de cabeça. Queremos saber se essas questões também vão ter impacto para o desenvolvimento do bebê;, pontua.

Além disso, as mães recebem amparo de uma equipe multiprofissional com psicólogos, médicos, pediatras. O objetivo é acompanhar cerca de 300 gestantes para avaliar, por exemplo, se a covid-19 aumenta o risco de abortamento, parto prematuro, pré-eclâmpsia e malformação fetal. ;Estamos preparados para atender as gestantes e os recém-nascidos;, ressalta Lizandra.

Até a última quarta-feira, 11 mães tiveram o primeiro atendimento pelo projeto. Entre elas, está a Andreia de Paula Rodrigues Brito, 34. A servidora pública conta que está feliz por poder ajudar nessa pesquisa. ;Estou supercontente. Eu me senti útil por saber que posso contribuir para ajudar outras mães;, afirma ela, que está no sétimo mês de gestação.

Andreia conta que descobriu a doença quando estava na 20; semana da gravidez. ;Inicialmente foi um choque. É um vírus novo, nem os médicos sabem ao certo. A minha maior preocupação foi com o bebê, se ele estaria bem. Fiquei com medo de um aborto, porque eu não estava assintomática. Senti muito cansaço físico, febre, tive muita tosse. Veio a preocupação;, relata ela. ;Como eu poderia ter o neném com a falta de ar? E se faltar a UTI? O meu estado emocional foi lá embaixo. Agora estou mais tranquila, estou bem mais preparada, e contei muito com a ajuda dos profissionais do posto de saúde n; 8 de Taguatinga. Fui bem amparada;, destaca.

Diante do novo cenário de pandemia, com as orientações de isolamento social, sem muito contato físico, higienização sempre que for necessário e o uso de máscara. Ela e os três filhos estão se adaptando à nova rotina dentro de casa. ;O meu filho pequeno, de 5 anos, sofreu bastante quando eu estava em quarentena;, lembra.

Sobre o atendimento no HUB, ela conta que está gostando bastante. Andreia se sente mais calma para ter o bebê. ;Sei que estarei bem amparada. E, para a mãe que está passando pela mesma situação, a minha dica é: procure apoio. Aqui em Brasília tem uma rede muito boa. O SUS é excelente, não deixe de fazer o pré-natal e se cuide;, pontua.

A pós-doutora em psicologia perinatal do Hospital Materno Infantil Alessandra Arrais, explica que o acompanhamento das mães nesse período de gestação é muito importante. ;Eu costumo dizer que, além do acompanhamento da saúde do bebê, é preciso ter um pré-natal psicológico também. Cuidar da saúde mental delas, principalmente nesse período que estamos passando;, ressalta.

Saiba mais


A pesquisa


Para ser atendida no projeto de acompanhamento do Hospital Universitário de Brasília, a gestante deve entrar em contato pelo telefone 2028-5232. É preciso ter o diagnóstico confirmado de covid-19 há pelo menos 14 dias e atender a alguns critérios, como ter 18 anos, ou mais, e não ter suspeita ou confirmação de outras infecções congênitas ou doenças crônicas preexistentes, exceto diabetes e hipertensão.

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