Cidades

Medo afasta clientes das lojas e vendas on-line continuam boa opção

Embora o comércio esteja retomando as atividades, o faturamento não é o mesmo. O receio de infecção pelo novo coronavírus diminuiu a frequência dos clientes. Para especialista, vendas on-line continuam sendo uma alternativa

Mariana Machado
postado em 08/07/2020 06:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Albanita Ordones, dona de uma loja de roupas em Planaltina, conta que acumulou dívidasGradualmente, o comércio do Distrito Federal tem retornado às atividades. Desde 26 de maio, as lojas de rua reabriram as portas. Um dia depois, foi a vez dos shoppings. Cumprindo a determinação do governador Ibaneis Rocha (MDB), os proprietários devem acatar a algumas normas, como a testagem de funcionários, para detectar o novo coronavírus, e a disponibilização de álcool em gel nos estabelecimentos. Ainda assim, o movimento está longe de ser o mesmo do que era antes do início da pandemia.

Na loja de roupas de Albanita Ordones, 62 anos, em Panaltina, o dinheiro que entra não dá para lucrar. ;Foram dois meses fechados. Isso foi horrível, e acumulamos dívidas com aluguel atrasado e funcionário para pagar. O que a gente vende é só para despesa e para colocar as contas em dia;, lamenta. No balcão, álcool para clientes e funcionários e medidor de temperatura. ;Não deixo ninguém entrar sem máscara;, avisa.

Uma pesquisa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-DF), em parceria com o Sebrae, avalia que as vendas, em maio, tiveram queda de 11,63%, em relação a abril. O estudo ouviu 542 empresários e constatou que, apenas, os setores de ferragens e ferramentas, minimercados, farmácias e padarias tiveram crescimento. O maior impacto foi no segmentos de vestuário, com queda de 37%, joalherias, com baixa de 37,75%.

Recuperar o faturamento de 2020 é impossível, como afirma o economista Newton Marques. ;É um impacto muito grande. Basicamente, é o setor terciário que movimenta a capital. As pessoas estão receosas de comprar e perderam renda;, argumenta. A escalada nos casos de coronavírus, também, tem reflexo direto no consumo. ;O problema todo não é de matar ou não a economia, mas uma total desorganização do sistema de saúde em meio a uma pandemia. Se morrer uma empresa tradicional é ruim, mas um negócio pode ressurgir no futuro. Vida não. Se morreu, acabou, e isso não está sendo levado a sério;, alerta Newton.

Segurando as pontas

Quem apostou em e-commerce tem visto os negócios melhorarem. No início deste ano, o arquivologista João Benitz, 25 anos, decidiu empreender, fabricando e vendendo objetos feitos de concreto ; como luminárias, vasos e acessórios ; e abriu a marca Bem Simplão. Os produtos eram expostos na loja colaborativa Endossa, mas, tão logo começou, surgiu a pandemia e ele precisou partir para a internet. ;Por um momento fiquei desesperançoso, mas acabou que eu aumentei as vendas;, comemora.

Agora, ele quer estudar mais sobre a metodologia que pretende manter, mesmo depois da pandemia. Com a boa saída, João já pensa no que fazer para atender às demandas de Natal. ;O plano é ter um site da minha marca e ampliar as vendas on-line. É algo importante a se desenvolver. Estou me programando para comprar materiais e deixar um estoque preparado.;

Queda

Nos shoppings, a situação não é tão favorável. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Shoppings Centers (Abrasce), os empreendimentos do Centro-Oeste tiveram queda acumulada de 67,2%, entre 2 de março e 28 de junho. Em nota oficial, a Abrasce informou que começa a ser observada uma desaceleração na queda. ;Na média, as vendas sobem cada semana, no que diz respeito ao resultado acumulado do período, o que mostra que, apesar de não estarmos em um cenário ideal, temos conseguido nos movimentar.;

Presidente do Sindicato do Comércio Varejista do DF (Sindvarejista), Edson de Castro estima que o movimento atual seja 30% do que era antes da pandemia. ;Quem compra em shopping são pessoas mais velhas, então acabam ficando em casa. Isso não paga despesas nem custos, e o desconto dado pelos shoppings em aluguel e demais encargos é muito pouco;, avalia.

De acordo com Edson, a volta dos bares e restaurantes deverá melhorar o cenário econômico. ;As pessoas vão almoçar, vão ao cinema e acabam comprando alguma coisa, também.; O comércio de rua está um pouco melhor, mas enfrenta dificuldades. ;A grande incerteza de tudo isso é quando vai passar. Falam que só no ano que vem, e isso deixa o lojista muito preocupado, porque não aguenta a despesa até o fim do ano;, analisa.

Duas perguntas para

Luis Guilherme Alho, Professor de Economia do Centro Universitário Iesb

Como os empresários deverão se comportar neste momento de reabertura? Devem manter os serviços on-line e de delivery?

Com certeza. Buscar formas alternativas para alcançar o público continuará relevante. A gente vai ter um número significativo de pessoas que não vão retomar as atividades presenciais como antes. Esse é o modelo que tende a se consolidar, independente do cenário de pandemia. A gente tende a ter continuidade da utilização desses serviços de delivery e compras on-line. Em maio e abril, houve aumento de mais de 100% de compras on-line por parte dos brasileiros. Deve haver redução na busca desses serviços, mas não como o patamar anterior.


Como deixar o cliente mais seguro para comprar?

A segurança, nesse contexto de pandemia, está atrelada a políticas de prevenção. Diversos estabelecimentos estão promovendo vídeos e publicidade para mostrar as medidas de prevenção que têm adotado para que o consumidor se sinta seguro de ir ao estabelecimento. Quanto mais a clientela se sentir segura, maior a chance de recorrer àquela empresa. Superar esse receio é algo que vai ser chave para o estabelecimento, principalmente, para quem não conseguiu se adaptar às vendas on-line.

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