Cidades

GDF e Sinpro continuam diálogo para definir quando aulas voltarão

Independentemente do imbróglio judicial, retomada das atividades presenciais nas escolas das redes pública e privada será gradual, começando com testagem de professores e análise de conteúdo pedagógico. Pais estão divididos quanto ao retorno às salas

Mariana Machado, Thais Umbelino
postado em 09/07/2020 06:00
 (foto:  Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
As aulas das redes pública e privada estão oficialmente suspensas desde 11 de março: decisão fez com que as datas de 27 de julho e 3 de agosto fossem barradas pela JustiçaMesmo com decisão judicial suspendendo a retomada das aulas presenciais e novo decreto do governador Ibaneis Rocha (MDB), que derruba qualquer data prevista para a reabertura das escolas, o debate sobre o tema ganhou força ontem. Representantes do Sindicato dos Professores (Sinpro/DF) reuniram-se com o chefe do Buriti e com o secretário de Educação, Leandro Cruz, para pedir que o retorno não ocorresse em 3 de agosto, como previsto inicialmente pelo GDF. O governo esclareceu que, embora a data tenha sido estipulada para que escolas, universidades e faculdades públicas voltassem a funcionar, isso não significaria que os alunos estariam em sala, efetivamente.

Samuel Fernandes, diretor do Sinpro, destacou que será realizado novo encontro com o secretário de Educação. ;É preciso garantir os equipamentos de proteção individual para todos os profissionais e alunos, além de bebedouros adequados, testagem dos professores, e desinfecção das salas;, detalha. ;Mais do que isso, é necessário diminuir o número de infectados por dia, assim como o de mortes. Neste momento, é impossível voltarmos. E, se em agosto acontece uma nova explosão de casos?;, questionou.

Ao Correio, o secretário Leandro Cruz informou que, a partir de 3 de agosto, seria possível o retorno das atividades, mas pedagógicas. ;Nós testaremos os professores, prepararemos todos os protocolos e teremos uma volta gradual e segura para toda a comunidade da educação;, explicou, horas antes de o novo decreto do GDF ser publicado à noite. Segundo ele, será divulgado um calendário do retorno presencial, baseado em dados científicos e mantendo escalonamento. Todas as medidas previstas no decreto serão seguidas rigorosamente (veja Adaptações).

Em nota divulgada ontem à noite, a Secretaria de Educação informou que ;cumprirá o que estiver determinado nos decretos assinados pelo governador Ibaneis Rocha. Pelo decreto em vigor, no momento, as aulas estão suspensas por tempo indeterminado. No entanto, a pasta segue trabalhando nos preparativos para a retomada das aulas de forma gradual e segura, quando for permitido e possível.;

Como professora e mãe, Isabela Alves, 50 anos, considera que o momento não é propício para o retorno. ;Os casos estão frequentes, nem começaram a cair. Pensando na segurança e na saúde dos meus filhos, acho que a volta às aulas deveria ser prorrogada, mesmo que isso traga prejuízo para eles;, avalia. O filho mais velho, Mateus, 17, está no 2; ano do ensino médio e enfrenta dificuldades na aprendizagem virtual. ;Ele tem deficit de atenção, então, é mais difícil se manter focado. As aulas presenciais para ele são melhores;, disse. Mesmo assim, a mãe defende o isolamento social por mais tempo.

A filha mais nova, Isadora Alves, 12, assim como o irmão, deseja retornar ao convívio com colegas e professores, mas acredita que não é o momento ideal. ;Não sei como será esse retorno e ainda não me sinto segura para a situação. As escolas vão conseguir diminuir o número de alunos dentro das salas de aula e possibilitar um revezamento? Como será a questão do recreio? Como garantir segurança a todos?;, perguntou a professora. ;O ano letivo está prejudicado, não adianta voltar agora, sendo que ele vai ter de se estender para 2021;, refletiu Isabela.

Rede particular


Quando voltarem as aulas escolas particulares ; até ontem, estavam autorizadas a retomar o ano letivo em 27 de julho ; a fiscalização dos protocolos de segurança será feita pela Secretaria de Educação, além da Vigilância Sanitária e do DF Legal. Está marcada para hoje uma reunião entre o secretário-chefe da Casa Civil, Gustavo do Vale Rocha, e representantes da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa/DF) e do Sindicato dos Professores de Entidades de Ensino Particulares do Distrito Federal (Sinproep).

Rodrigo de Paula, do Sinproep, explica que um dos questionamentos a ser colocado durante o encontro é referente à testagem dos professores. ;A gente precisa de um protocolo mais rígido, com retorno escalonado;, argumentou. ;Queremos também a garantia de que o professor que seja contaminado não será demitido, porque, na rede particular, não temos essa estabilidade da rede pública;, acrescentou.

Alexandre Veloso, presidente da Aspa, defendeu que o governo precisa explicar o que levou à definição das datas estipuladas no decreto. ;Pedimos, desde a semana passada, dados que fundamentaram o retorno e não recebemos. Isso é importante para passar para os pais para que eles possam definir o que acham melhor, mas com dados corretos e transparentes;, ressalta. Segundo Alexandre, muitas famílias estão divididas sobre mandar ou não os estudantes às escolas. ;Alguns acham perigoso tanto para os filhos quanto para a coletividade. Eles entendem que ali é um espaço de contaminação comunitária sem controle. A baixa letalidade da criança não é a questão, mas eles entendem que ela passa a ser um vetor da doença.; Mas, até mesmo entre os que defendem a volta, as opiniões mudam. ;Existem pais que querem, porque estão trabalhando de novo, mas também não têm certeza, porque estão vendo a lotação das unidades de terapia intensiva (UTIs).;

A Secretaria de Educação reforçou que, depois de resolvido o imbróglio judicial, ;publicará um novo calendário, baseado em fatos científicos, com cuidados e protocolos necessários, mantendo o escalonamento, que é necessário para um retorno gradual e seguro. Tudo o que está sendo feito do ponto de vista da preparação estrutural da secretaria e de um planejamento para garantir a segurança de toda a comunidade de educação do Distrito Federal.;

O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe/DF), Álvaro Domingues, ressaltou que os colégios particulares estão preparados para reabrir as escolas. ;Sabemos que a rede privada é composta por 570 escolas e atende a 165 mil alunos, e a rede pública, 660 escolas, com 460 mil alunos. São muito diferentes e muito complexas. É natural que voltem em momentos diferentes, de maneira lenta, gradual, progressiva e segura. Lembramos que, no caso das escolas particulares, nós estamos devidamente habilitados para poder implementar política segura de retorno e, principalmente, estar contribuindo com a sociedade, acolhendo aqueles que desejarem ir para escola de forma segura e respeitando o direito daqueles que querem permanecer em casa;, detalhou.

O vendedor Diego Pereira, 30, pai de Valentina, 5, e Yasmin, 9, entende que o retorno é necessário, principalmente para a aprendizagem das filhas, mas admite que se sente inseguro. ;A gente quer que elas voltem porque têm de aprender, mas ficamos com medo dessa doença;, afirma. Para ele, o mais prudente é esperar. ;Temos de avaliar a situação e quais os cuidados que serão tomados nas escolas. As atividades devem voltar, mas é necessário reaprender hábitos comuns de higienização para combater o vírus.;

Adaptações


Quando as datas de retorno forem decididas, as escolas deverão se adaptar para a reabertura. Veja as normas

; Higienizar as cadeiras e mesas de uso coletivo regularmente

; Disposição das carteiras, cadeiras e mesas à distância de 1,5 metro entre elas

; Proibido o funcionamento dos bebedouros

; Privilegiar a ventilação natural do ambiente. Janelas e portas dos ambientes devem permanecer permanentemente abertas durante as aulas. No caso do uso de ar-condicionado, realizar manutenção e limpeza dos filtros diariamente

; Priorizar reuniões e eventos a distância

; Suspensão da utilização de catracas e pontos eletrônicos com biometria

; Delimitação, por meio de sinalização, da capacidade máxima de pessoas em salas de aula, bibliotecas, ambientes compartilhados e elevadores, respeitando o distanciamento mínimo obrigatório

; Escalonamento de horários de intervalo, refeições, saída e entrada de salas de aula, bem como de horários de utilização de ginásios, bibliotecas, pátios etc. a fim de preservar o distanciamento mínimo obrigatório entre pessoas e evitar aglomeração nas áreas comuns

; Atividades esportivas devem ser realizadas ao ar livre ou em ambientes ventilados

; Limpeza geral e desinfecção das instalações antes da reabertura da escola

; Testagem para covid-19 dos profissionais da educação

; Disponibilização de locais para a lavagem das mãos com sabão e toalhas de papel descartáveis ou disponibilização de dispenser com álcool em gel

; As turmas devem ser reorganizadas de modo a reduzir o número de estudantes em sala de aula, promovendo a alternância entre o ensino presencial e o ensino mediado por tecnologias

; Devem ser evitadas aglomerações de pais/responsáveis e estudantes em frente à escola, estabelecendo-se escalonamento para a entrada e saída dos estudantes

; Jogos recreativos, esportivos e outros eventos que criem condições de aglomeração devem ser cancelados

; Estudantes e professores que se enquadram no grupo de risco atuarão exclusivamente por meio do ensino mediado por tecnologias

; Deve-se restringir o uso de objetos que possam ser compartilhados pelos estudantes

; Limpeza e sanitização dos ambientes escolares com maior frequência

; As escolas deverão adotar programas de conscientização do uso de máscara, do distanciamento e das demais medidas de prevenção ao novo coronavírus

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