Cidades

Artistas e coletivos culturais buscam se reinventar diante da pandemia

Com a impossibilidade de ocupação do principal palco da arte urbana, a rua, artistas e coletivos buscam alternativas para os desafios do novo normal

Lisa Veit*
postado em 10/07/2020 06:00
 (foto: Rafael Odrus - Planaltina/Divulgação)
(foto: Rafael Odrus - Planaltina/Divulgação)
Trabalho de Rafael Odrus no Comitê do Grafite. Resistência e engajamento socialA arte urbana é uma forma democrática de produção e acesso cultural, em que as ações ocorrem pela ocupação de espaços públicos e, por conta disso, dialogam diretamente com as pessoas que habitam e/ou circulam nas cidades. Entretanto, a pandemia e a necessidade do isolamento social esvaziou significativamente as ruas, e trouxe um grande desafio para grupos que têm a cidade como espaço cultural e local de trabalho: dar continuidade às atividades, que são essencialmente encontros interativos entre artistas, público e a cidade.

A Rede Urbana de Ações Socioculturais (Ruas), por exemplo, é uma janela aberta para os projetos de arte e cultura urbana da periferia. Durante esse período, tem desenvolvido medidas para fortalecer a rede de apoio e munir projetos, profissionais e comunidades para o enfrentamento da crise. Para isso, implementou-se o Fundo de Apoio às Periferias do DF, além da continuidade e fomento do Laboratório de Empreendimentos Criativos, o LECria.

;Estamos focando em reestruturar o projeto, tendo em vista o novo normal, com o apoio às famílias que já estão conosco e avaliando quais são os nossos limites e possibilidades;, explica Max Maciel, coordenador pedagógico da Ruas. ;A cultura urbana está atônita, pois ela precisa intrinsecamente da rua, uma vez que a interação e a ocupação do espaço público sempre foi algo que defendemos. O grafite precisa do muro, o break precisa do chão, o DJ precisa do público, o rap precisa de seu palco e das pessoas;, contextualiza.

Ele destaca a importância do aprendizado e inclusão de novos ambientes de conexão, como um meio de adaptação ao momento. ;Estamos analisando a questão do streaming, como podemos gerar conteúdo e ter uma fonte de renda com ele. Nossa classe cultural está tentando sobreviver, com editais e apoios, mas também com a busca pelo aprendizado, conhecimento e adaptação. Tudo para manter o nosso grito e representatividade, e que possamos sair fortalecidos;, destaca Max.

Reunião de integrantes da Batalha da Escada, em 2019: agora fazem o Escada de casa, com lives pelo Instagram e YouTube

Grafite


;O grafite é o grito no silêncio dos muros;, como cita Max Maciel. É a expressão, da arte e de temas relativos à periferia e a realidade, exposta em uma galeria aberta. Os artistas do grafite também começaram a pautar as cidades com temas que emergem na pandemia, e levaram esses trabalhos ao público isolado, por meio do espaço virtual, como redes sociais.

;O Instagram do Comitê (Permanente) do Grafite nasceu com a pandemia, no intuito de criar possibilidades de economia criativa e arte no DF e entorno. Criamos o 1; Festival do Grafite em Casa, onde os artistas puderam expor sua arte por meio de apresentações ao vivo;, conta Danilo Rebouças, servidor da Secretaria de Cultura e membro titular do Comitê do Grafite. No perfil da rede social, @comitedografitedf, são expostos trabalhos e artistas de Brasília, Brasil e de outros países.

A busca de recursos também é uma questão para os grafiteiros que vivem da arte e que enfrentam a crise da pandemia. ;O fomento vem de projetos dentro do Conecta Cultura, ações da Secretaria de Cultura do DF, por meio de editais, como FAC on-line, FAC premiação Brasília 60 anos, e FAC regionalizado. Além disso, estamos em planejamento para o 4; Encontro do Graffiti;, cita Danilo.

Alguns artistas estão fazendo transmissão nas redes sociais para se reaproximar do público, que normalmente transita pela cidade. ;Há, inclusive, a aproximação da linguagem com o grande público por meio das lives. Satão, Nabrisa, 061 e outros grafiteiras e grafiteiros estão retratando a realidade e a luta contra a covid-19, muitas vezes com humor, outras vezes, com tons bem dramáticos;, conta Danilo.

Batalhas de Rap


Da arquibancada do Teatro de Arena da UnB às redes sociais, o grupo Batalha da Escada (BDE), que se reunia ali toda quarta-feira, às 18h, se reestruturou com um projeto chamado Escada de casa, com lives pelo Instagram e YouTube, debatendo e refletindo sobre temas variados como saúde, políticas públicas, hip-hop, feminismo, movimento negro, arte e cultura, desigualdades sociais e principalmente a manutenção do debate e do pensamento crítico, típicos do Rap.

Reunião de integrantes da Batalha da Escada, em 2019: agora fazem o Escada de casa, com lives pelo Instagram e YouTube

;A BDE nunca foi apenas a expressão da arte por si só, ela abrange várias pautas ligadas não só ao hip-hop, mas às vivências que se colocam ali naquele território. Infelizmente estamos sem poder nos aglomerar, mas isso não significa que não podemos entrar em contato uns com os outros e tentar manter este debate em movimento e gerar reflexões sobre os impactos do momento. Até que a gente consiga, quem sabe, realizar uma batalha virtual sem prejuízo algum ao projeto, invés de batalhas de MC;s presenciais, oferecemos conversas virtuais;, explica Raphael Steigleder, coordenador geral do coletivo da BDE. O grupo, que em 2020, completa cinco anos de existência, está adaptando o planejamento de comemoração para o virtual, que se configura como um espaço público alternativo para esse momento.

*Estagiária sob a supervisão de José Carlos Vieira

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação