Cidades

Crônica da Cidade

postado em 10/07/2020 04:07
Pequenas empresas

Há cerca de três meses, no dia em que anunciou medidas para combater os efeitos econômicos do coronavírus, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, recomendou que as pessoas e as empresas honrassem os seus contratos.

Muito antes da pandemia, contratei um jardineiro para dar uma geral, uma vez por mês, no quintal. Certo dia, me esqueci de pegar dinheiro no banco para pagá-lo. Três dias depois, ele me telefonou todo desconcertado para me lembrar da grana a que tinha direito: ;Desculpe, mas preciso do dinheiro para comprar meu remédio de pressão;. Disse a ele que eu é que devia desculpas.

O conselho de Roberto Campos Neto era, portanto, sábio, pois se alguém não paga, cria uma cadeia de problemas. Sobra até para o próprio governo, que deixa de arrecadar impostos. No entanto, o mesmo governo que recomenda a pontualidade dos compromissos esqueceu de dar condições de sobrevivência para as pequenas e médias empresas durante a crise sanitária. As linhas de crédito prometidas não se abriram ou ficaram inacessíveis pelo preço altíssimo dos juros.

Por isso, aconteceu o óbvio: mais de 600 mil pequenas empresas encerraram as atividades. Isso provocou um efeito dominó que bateu nos trabalhadores. As pequenas e médias empresas são responsáveis por 54% dos empregos no país. Quer dizer, a ação protegeria não apenas os CNPJs, mas também os CPFs.

Todavia, na memorável reunião ministerial de 22 de abril, talvez tenha se deslindado parte do mistério da inacessibilidade do crédito. O ministro da Economia Paulo Guedes declarou que a melhor opção para o governo era esquecer as pequenas e médias empresas, pois perderia, enquanto que se priorizasse as grandes corporações, ganharia dinheiro. Seja qual for a intenção, o erro precisa ser reparado com urgência para salvar as pequenas empresas que restam.

Na área onde moro, a Associação de Condomínios do Jardim Botânico concebeu uma experiência muito interessante que aliou a solidariedade e o estímulo à atividade econômica. Quando estourou a pandemia, os próprios condôminos pediram à entidade que criasse um projeto para que pudessem ajudar as pessoas mais pobres da região.

Tudo era baseado em doações na forma de cestas básicas a serem retiradas em pequenos mercados de São Sebastião. Isso salvou famílias da fome e várias empresas da falência. A seleção das famílias era realizada por meio de redes comunitárias, igrejas e escolas. Funcionou muito bem.

No decorrer do tempo, algumas pessoas doadoras tiveram os salários reduzidos, os líderes políticos não deram bons exemplos, houve uma desmobilização e o movimento perdeu a adesão do início. É uma experiência pequena, despretensiosa e imperfeita.

Mas, de qualquer maneira, identifiquei nela um vislumbre de que as coisas poderiam ser diferentes. A solidariedade deveria ser um projeto de Brasil. Nós precisaremos muito dela para enfrentar a reconstrução do país pós-pandemia.



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