Cidades

Salões e academias sofrem com abre-fecha; hoje, começam o dia abertos

Após disputas judiciais e decretos abrindo e fechando setores da economia, o sentimento que paira sobre pequenos empreendedores é de incertezas. Em Ceilândia apenas atividades essenciais estão liberadas. No resto do DF, salões de beleza e academias reabriram as portas

Cibele Moreira, Tainá Seixas, Mariana Machado
postado em 11/07/2020 07:00

Barbearia na W3 Norte se adaptou às normas para abrir as postas, novamente, ontem, após fechar, na quartaA semana foi de incerteza para os comerciantes do Distrito Federal. No início, a expectativa era de que todas as atividades seriam retomadas gradualmente, seguindo calendário organizado pelo governo local. Os principais afetados foram salões de beleza e academias, que reabriram, na última terça-feira, e precisaram suspender, novamente, os serviços, no dia seguinte, devido a uma decisão judicial. O governo recorreu e, na quinta-feira, teve o pedido acatado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT).

A Barbearia Chiquinho, na W3 Norte, acompanhou o vai e vem de decisões. Funcionou, na terça e quarta-feira; fechou, na quinta; e reabriu, ontem. Cícero Araújo, 33 anos, proprietário do estabelecimento lamenta a incerteza que a disputa, entre governo e judiciário, inflige aos comerciantes. ;Deixou a gente em uma insegurança tanto jurídica quanto profissional. A gente se preparou para reabrir, atendendo ao decreto, atendendo à norma técnica da vigilância sanitária. Eu fiz um investimento, usei dinheiro que não tinha e, logo em seguida, já tive que fechar.;

Com a pandemia e necessidade de suspender as atividades comerciais, Cícero viu sua renda secar. Ele acumulou dívidas e reduziu a equipe de 18 para 10 pessoas. ;Se for pra funcionar, que a gente funcione com uma data certa para poder trabalhar. Se não for, digam logo, porque do jeito que estão fazendo, toda hora uma decisão diferente, a nossa maior preocupação é não saber o que vai acontecer amanhã;, desabafa.

No salão de beleza de José Felix, 57 anos, não foi diferente. Após manter o local fechado por 4 meses, na quarta-feira, as portas estavam abertas, seguindo todo o protocolo de segurança determinado pelo governo, mas, na quinta, a atividade foi, novamente, suspensa. Ontem, abriu mais uma vez. Localizado na Quadra 300 do Sudoeste, a loja de José foi uma das poucas a abri. ;Com essa instabilidade, você acaba desestimulando e deixando todo o segmento frustrado. Gerou uma frustração muito grande, por conta dos investimentos que foram feitos. Pra nós, é complicado, porque são muitas expectativas não só dos clientes, mas, também, dos funcionários.;

;Caos;

Outro setor afetado pelas mudanças foram as academias. A presidente-fundadora do Sindicato das Academias do DF (Sindac) descreve a situação como ;o caos para o segmento;. De acordo com ela, o que era para ser uma questão simples de gestão se transformou em prejuízo para diversas empresas, que precisaram retomar contratos com empregados e investir na reabertura, seguindo as normas de segurança. ;Os alunos estão estarrecidos, questionando o fechamento, porque academia é um lugar onde se cuida, justamente, da saúde. A nossa batalha, agora, é pra tornar o nosso serviço essencial.;

A academia Acuas Fitness, na Asa Sul, precisou mudar o cronograma de reabertura. Depois de ter planejado abrir as portas na próxima segunda-feira, a gerência do estabelecimento suspendeu a decisão. ;A gente vai ter que refazer o retrabalho de marketing, ligar para os clientes, mandar e-mail, colocar nas redes sociais. É um retrabalho que a gente faz a cada novo decreto;, argumenta Fabíula Magalhães, gerente do local.

Para manter as portas abertas, no entanto, as lojas precisam seguir recomendações da vigilância sanitária. Academias, por exemplo, não podem utilizar catracas com biometria, e salões devem afastar as cadeiras de atendimento, em dois metros umas das outras.

;Meio aberto;

O clima de incerteza estava, também, entre os comerciantes de outras regiões do DF. Em Sobradinho, salões de beleza mantiveram portas semiabertas e muitas academias permaneceram fechadas. Nos estabelecimentos em atividade, funcionários usavam máscaras, e havia álcool em gel para clientes nos balcões.

Em Ceilândia e Sol Nascente/Pôr do Sol, no entanto, o cenário era diferente. O governador Ibaneis Rocha (MDB) determinou a suspensão das atividades não essenciais, desde quinta-feira. Com a decisão, maioria dos estabelecimentos está proibida de funcionar. No Sol Nascente, a população respeitou a determinação. Somente locais como mercados, farmácias e padarias abriram as portas, ontem, e havia pouca gente na rua. No centro de Ceilândia, grande parte dos estabelecimentos suspenderam o funcionamento, mas era possível observar algumas lojas desobedecendo a decisão. Ambulantes ocupavam as ruas vendendo mercadorias em bancas.

Seliane Gonçalves, 45 anos, comerciante autônoma reconhece que não está cumprindo a regra, no entanto ela argumenta não ter alternativa para conseguir seu sustento. ;A gente está aqui trabalhando dignamente. É errado, porque a gente está passando por cima de normas, que devia obedecer. Mas, se a gente precisa do sustento que vem daqui, a gente vai ficar em casa? Quem vai pagar nossas contas?;, reclama.

Janaína Marcela Rocha da Silva, 36 anos, é moradora de Ceilândia, mas vai à Asa Norte todos os dias, onde trabalha como empregada doméstica. Apesar de observar diferenças no tráfego de pessoas entre as diferentes regiões, discorda da medida do governo. ;Eu acho que deveria ser no DF inteiro. De que adianta fechar aqui e o povo ir para Taguatinga. Eu acho que ele (Ibaneis) não está sabendo lidar com a situação;, opina. O garçom José Cosme do Nascimento, 54 anos, por outro lado, vê o esvaziamento do centro de Ceilândia com bons olhos. ;Devia ter tomado essa providência antes. Agora que está se alastrando o vírus. Mas está em tempo, ainda;, acredita.

Moradora de Ceilândia, para Janaína as medidas devem ser em todo o DF

Contraponto

Os especialistas temem que as medidas de proteção adotadas não sejam suficientes para evitar o aumento de infecções pelo novo coronavírus, com a reabertura do comércio em meio a um crescimento no número de casos e óbito, no DF. Segundo o infectologista Leandro Machado, é uma decisão difícil porque, por um lado, muitas pessoas estão sem renda. Por outro, retomar as atividades representa risco de infecções.

;A gente está vivendo um contexto onde os hospitais estão sem vaga de UTI. Se você abre comércio, você aumenta a probabilidade de uma pessoa não infectada entrar em contato com uma pessoa infectada. Com isso, você não só aumenta o número de infecções, mas, também, de infecções graves. O perigo é a gente vivenciar aquilo que Manaus e São Paulo viveram;, descreve o médico.

Em nota, a Casa Civil alega que os números de casos e óbitos estão de acordo com os valores projetado e que a situação é monitorada diariamente. Além disso, o órgão defende que a retomada de atividades comercias é importante para a manutenção da saúde física e mental da população.

Três perguntas para

Vera Lúcia Santana Araújo, advogada especialista em direito administrativo e constitucional

Afinal, a decisão de reabertura do comércio cabe à Justiça ou ao poder Executivo?

A priori, tudo que é relativo à gestão é de responsabilidade do poder Executivo. No entanto, estamos vivendo uma pandemia com algumas peculiaridades. O início da gestão de crise foi de extrema responsabilidade, inclusive, o governador se destacou ao ser o primeiro a tomar as medidas de isolamento social. Porém, o que nos parece é que a pressão de alguns segmentos está deixando o governador inseguro. A prioridade é a política de saúde. É salvar vidas. Sabemos que o isolamento social é a medida mais assertiva de combate ao novo coronavírus. É obrigação do Estado criar o máximo de condições para esse isolamento. Quando o Executivo rompe com as orientações de diversos órgãos sanitários, inclusive da Organização Mundial da Saúde (OMS), cabe ao Judiciário intervir. E, não foi algo que partiu do magistrado. O Judiciário foi provocado por partes legítimas, com argumentos que têm fundamentos. Qualquer pessoa, que se sinta lesionado por algo, pode entrar com ação na Justiça. E o magistrado tem esse poder de responder e avaliar a demanda, tomando decisões.

Do ponto de vista jurídico, a situação dos comerciantes se estabiliza, agora, ou outras decisões podem fazer com que eles tenham que suspender o funcionamento, novamente?

A cada e qualquer ação nova pode gerar uma resposta de abrir ou fechar comércio. As ameaças feita s(leia reportagem a baixo), inclusive ao magistrado, mostra a gravidade de leviandade do empresariado diante de um cenário de pandemia.

Qual é o custo dessa disputa entre Judiciário e Executivo tanto para o governo quanto para a Justiça?

O custo é o mais elevado possível: é a vida humana. Veja bem, se um morador da Ceilândia ; cidade com o maior índice populacional do DF ; trabalha em outra região administrativa, ele é cobrado do patrão de ir ao trabalho, se colocando em risco. E sabemos como é a situação do transporte público, vai ficar nesse leva e traz do coronavírus. E esse morador vai ter menos acesso a um leito de UTI, a um atendimento hospitalar. Os hospitais não têm essa capacidade de atendimento. E, ainda, estamos na seca, uma época que leva a população aos hospitais. Todo esse cenário gera insegurança, e a população só consegue ter amparo no judiciário.

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