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Correio Braziliense

Com reabertura no DF, especialistas reforçam necessidade de isolamento

Com mais atividades comerciais liberadas e data marcada para reabertura de bares e restaurantes, a situação da covid-19 depende da responsabilidade da população quanto ao distanciamento social e ao uso de máscaras. Em 24 horas, o DF teve 33 mortes e 1.620 novos casos


postado em 11/07/2020 07:00

O policial civil aposentado Matias Gomes de Sousa, 79 anos, teve alta ontem depois de 45 dias: celebração pela volta ao convívio com a mulher, com quem está casado há 50 anos(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O policial civil aposentado Matias Gomes de Sousa, 79 anos, teve alta ontem depois de 45 dias: celebração pela volta ao convívio com a mulher, com quem está casado há 50 anos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Agora que a liberação de mais atividades comerciais no Distrito Federal foi autorizada pela Justiça — bares e restaurantes voltam em 15 de julho —, a responsabilidade de evitar a piora do cenário da covid-19 dependerá, ainda mais, de conscientização. A proliferação da doença (veja Evolução) e a queda no número de vagas disponíveis em leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) exigem o cumprimento das recomendações relacionadas ao distanciamento e ao isolamento social. Com isso, poderá se evitar que o sistema de saúde não fique sobrecarregado.

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O alerta de especialistas recebeu reforço após a flexibilização. Infectologista e professora universitária, a médica Joana D’Arc Gonçalves pede que os brasilienses reflitam sobre cuidados e prevenção. “Podemos esperar o aumento do número de pacientes que podem ter complicações da covid-19 sem conseguir acesso aos serviços de saúde. O ideal é termos mais testes, para que se possa isolar quem estiver infectado. Sem esse exame, que está em falta, se tivermos sorte e uma população extremamente comportada, talvez não tenhamos um número tão alto de casos”, observa.

Para a médica, a situação será mais complexa, principalmente para pessoas do grupo de risco e profissionais da saúde. “Os próximos 15 ou 30 dias serão difíceis. Tem muita gente exausta na área da saúde, com vários problemas”, destaca Joana, que pede para que a população fique em casa. “Sei que há a questão econômica, mas (se for necessário sair,) é preciso usar máscara, manter distanciamento e quem apresentar sintomas respiratórios deve ficar em casa”, ressalta.

Ontem, o total de moradores do Distrito Federal que morreram por causa da covid-19 chegou a 785. A Secretaria de Saúde confirmou mais 33 óbitos provocados pela doença. O número de casos registrados subiu para 67.297 — 1.620 a mais do que no dia anterior. Desse total, 54.402 (83,3%) pacientes testados se recuperaram. No entanto, na tarde de ontem, 22 pessoas com suspeita ou que tiveram resultado positivo no exame de detecção do novo coronavírus aguardavam na fila de espera por um leito em unidade de terapia intensiva (UTI).

Professor de saúde coletiva na Universidade de Brasília (UnB), Marcos Takashi Obara considera que a flexibilização traz riscos à saúde da população. “Isso provoca uma tendência maior de movimentação, o que aumenta a potencial chance de transmissão do vírus”, observa. “É preciso cautela e cuidado na hora da reabertura de certos setores, para que não haja recrudescência da contaminação. Ainda assim, sem dúvida, haverá aumento considerável de casos daqui para a frente”, acredita Marcos. Ceilândia (8.997), Plano Piloto (4.889), Samambaia (4.621) e Taguatinga (4.586) despontam nos primeiros lugares entre as regiões administrativas com maior número de notificações. Na primeira delas, o GDF autorizou apenas o funcionamento de atividades essenciais.

Superação

Depois de 45 dias internado, o policial civil aposentado Matias Gomes de Sousa, 79 anos, teve alta ontem e voltou para casa, no Guará, e para a mulher, com quem convive há 50 anos. Matias venceu a covid-19 e já sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), tem dificuldades na fala e se alimenta por sonda. Passou por três unidades de saúde nos últimos dias, foi intubado e ainda deu entrada na UTI duas vezes. Na saída do hospital, a família reuniu-se para cosmemorar a alta. “Ele tem uma força de vontade muito grande, vontade de viver mesmo. Quando estava no hospital, ele fazia fisioterapia para ficar bom logo. Quando o médico chegava, ele se arrumava para fazer o exercício, doido para ir embora”, contou ao Correio a filha Anne Shirlly.

Um dos motivos da ansiedade do aposentado em voltar para casa era estar com a companheira, Maria José, 78 anos. “A saudade era visível no olhar do meu avô. A toda hora, ele ficava perguntando que horas ele ia para casa, porque queria ver o amor dele”, disse a neta Clarisse Sousa e Silva, 22. Na semana passada, depois de 38 dias sem vê-la, Matias comemorou com ela as Bodas de Ouro do casal. Com o aposentado ainda no quarto, Maria recebeu autorização especial do hospital para passar a tarde com o marido. Ela levou um bolo para que cantassem parabéns.

A professora aposentada também teve covid-19, mas com sintomas leves. Ela não precisou ser internada. A família não sabe como os idosos se infectaram, pois estavam isolados. “Na minha cabeça, tinha quase certeza de que, se ele pegasse, não conseguiria viver. Eles ficavam na varanda, e eu, do lado de fora na rua”, contou Anne. O casal se conheceu em Brasília, teve três filhos e, hoje, seis netos. “A gente se espelha neles, porque eu nunca conheci um casal tão apaixonado e tão entregue um ao outro. Os meus avós ensinam para toda a família o que é significado de ter o amor verdadeiro e construir uma família. E que o amor supera tudo”, ressalta Clarisse.
 
Colaborou Roberta Pinheiro 

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