Cidades

Advogado baleado diz ter recebido proposta de deputado para mudar versão

Helvidio Neto teve alta após 13 dias internado. Em entrevista ao Correio, ele disse que vai processar o deputado e o restaurante

Jaqueline Fonseca
postado em 17/07/2020 18:52
Restaurante onde ocorreu festa clandestina fica na 408 SulO advogado baleado pelo deputado estadual Alexandre Knoploch (PSL/RJ) teve alta nesta sexta-feira (17/7) e se recupera do tiro em casa, depois de 13 dias internado. Ao Correio, Helvídio Neto apresentou novas versões do ocorrido na madrugada de 2 de julho. Disse que o restaurante onde o evento acontecia antes da confusão omitiu o socorro e que o parlamentar propôs pagar R$ 15 mil para que as duas partes acordassem que não houve desproporcionalidade na reação.
Segundo Helvídio, o convite para participar de uma ;balada privada; no restaurante Noah, na 408 Sul, partiu de uma amiga. Após a chegada de três deputados estaduais do PSL do Rio de Janeiro, o advogado baleado narra que o burburinho entre os convidados era de que os parlamentares deram uma ;carteirada; na entrada do restaurante. ;O comentário entre os participantes da festa era de que ninguém conhecia os deputados e ninguém os tinha chamado. Pelo que falaram, os deputados ouviram o barulho dentro do restaurante e pediram pro segurança para deixar entrar, se não, eles chamariam a fiscalização;, disse Helvídio.
À época, o funcionamento de bares e restaurantes estava proibido em razão das medidas de isolamento adotadas pelo Governo do Distrito Federal para conter a disseminação do coronavírus.

Em 8 de julho, o então responsável pela defesa de Helvídio, Thiago Leônidas - que não o representa mais - disse ao Correio que três deputados estaduais estiveram no evento que terminou com o tiro: Rodrigo Amorim, Gustavo Schmidt e Alexandre Knoploch.

Após o ingresso dos parlamentares no restaurante, teria começado um desconforto entre os presentes por causa do comportamento dos deputados que, de acordo com o relato de Helvídio, mexiam com as mulheres que estavam ali, todas acompanhadas. A confusão teria começado quando um dos deputados deu um soco em um amigo de Helvídio. O advogado partiu pra briga e revidou a agressão no homem que correspondia com a descrição apresentada pelo amigo, ;um moreno de óculos;.

Depois de ser atingido no olho esquerdo por Helvídio, o deputado Alexandre Knoploch sacou a arma e atirou no advogado. A vítima baleada correu para dentro do restaurante mas afirma que foi retirada do local. ;O responsável pelo restaurante pediu para a gente não chamar a polícia nem a ambulância. Eles me obrigaram a sair, ir pulando num pé só para a esquina e esperar a ambulância. Todo mundo foi embora e me deixou na rua. Só ficou um amigo do dono bar e ele fez a cabeça da moça que estava comigo para que ela falasse que estávamos na rua, vimos uma briga de casal e que, quando tentei ajudar, fui atingido pelo tiro;, afirma.

Troca de versão por R$ 15 mil

Helvídio diz que o deputado Alexandre Knoploch tentou comprar o silêncio dele e propôs um acordo por R$ 15 mil. Inicialmente, o advogado aceitou e chegou a receber R$ 1.250. Depois, no entanto, diz que se arrependeu do acordo pois, segundo relatou, teria que mudar o depoimento feito à polícia. Prints de conversas mantidas com representantes do parlamentar mostram o acordo sendo feito e, depois, em nova troca de mensagens, a desistência de Helvídio, que devolveu o valor.

;Vou processar todo mundo;

Helvidio se diz revoltado e traumatizado com o episódio. Ele está sem andar, pois o tiro acertou dois ossos essenciais para o movimento dos pés, e precisará de nova cirurgia, já marcada para a primeira semana de agosto. Ele ficou internado no Hospital de Base por 13 dias e passou por uma cirurgia no pé. ;Eu estou com fratura exposta. Destruí os dois metatarsos, estou com falha óssea, vou ter que fazer um enxerto da bacia para colocar osso no pé.;

Disse ainda que vai processar o deputado Alexandre Knoploch e o restaurante onde aconteceu o evento. Para ele, o tiro que levou do deputado foi uma reação desproporcional. Ele também disse que acionará a Justiça, por meio da Defensoria Pública, pela omissão de socorro do restaurante. ;Acho completamente desproporcional a atitude do deputado Alexandre e o restaurante. Todas as testemunhas do tiro são mais amigos do dono do bar ou do deputado. Estava errado de fazer a festa e também de omitir socorro. A vítima no final das contas sou eu;, defende.
Em nota, o Alexandre Knoploch afirmou que "vê com muita estranheza a nova versão dada pelo advogado Helvídio Neto". "Reitera ainda que agiu em legítima defesa e moverá uma ação penal contra Helvídio, inicialmente, por calúnia e difamação". Segundo o texto, a versão apresentada por Helvídio mais recentemente não condiz com a realidade dos fatos. "No último dia 2, o deputado foi convidado para uma reunião particular em Brasília. Ou seja, a versão sobre "carteirada" não é verdadeira".
Alegou ainda que a defesa do deputado não tentou fazer nenhum acordo financeiro com Helvídio, após o ocorrido. "O que houve foi um acordo para custeio de despesas médicas, a pedido do próprio Helvídio. Foram combinadas 12 parcelas no valor de R$ 1.250, para arcar com serviços como os de fisioterapia". "A defesa de Knoploch não tentou convencer Helvídio a mudar de versão em nenhum momento. Pelo contrário: a iniciativa de procurar a delegacia de polícia partiu do próprio parlamentar, relatando a veracidade dos fatos, em boletim de ocorrência."
O Correio procurou o restaurante Noah, mas não obteve retorno até a mais recente atualização desta reportagem.

A investigação

O Delegado responsável pelo caso, Mauricio Iacozzi, disse que Helvídio não relatou à polícia a proposta que disse à reportagem ter recebido do deputado Alexandre Knoploch. O responsável pela investigação disse que apuração do caso está em fase final. O advogado foi baleado na noite de quarta (1;/7) para quinta (2/7).

Veja a íntegra da nota do deputado estudal Alexandre Knoploch:

O deputado estadual Alexandre Knoploch afirma que vê com muita estranheza a nova versão dada pelo advogado Helvídio Neto. Reitera ainda que agiu em legítima defesa e moverá uma ação penal contra Helvídio, inicialmente, por calúnia e difamação.

Isso porque a versão por ele apresentada mais recentemente não condiz com a realidade dos fatos. No último dia 2, o deputado foi convidado para uma reunião particular em Brasília. Ou seja, a versão sobre "carteirada" não é verdadeira.

Além disso, a defesa de Alexandre Knoploch não tentou fazer nenhum acordo financeiro com Helvídio, após o ocorrido. O que houve foi um acordo para custeio de despesas médicas, a pedido do próprio Helvídio. Foram combinadas 12 parcelas no valor de R$ 1.250, para arcar com serviços como os de fisioterapia.

A defesa de Knoploch não tentou convencer Helvídio a mudar de versão em nenhum momento. Pelo contrário: a iniciativa de procurar a delegacia de polícia partiu do próprio parlamentar, relatando a veracidade dos fatos, em boletim de ocorrência. Foi dele também a iniciativa de pedir exames complementares, provando que não havia ingerido álcool.

Vale a pena lembrar que Knoploch agiu em legítima defesa, disparando contra o pé de um homem que o agrediu, em via pública, pelas costas.

No dia seguinte ao ocorrido, foi contactado pelo próprio Helvídio que lhe pediu desculpas pela agressão e confirmou que havia confundido o deputado com outra pessoa.

O parlamentar afirma também que não cederá a nenhuma tentativa de extorsão.

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