Cidades

Sintomas da covid e o medo da morte

Coriza, dor de gargante e de cabeça, cansaço, diarreia, febre e receio. Pacientes recuperados contam como é lidar com a montanha-russa de sentimentos enquanto o corpo sofre com os sinais mais severos da doença

postado em 20/07/2020 04:19
Luciane registrou o retorno ao trabalho, após 20 dias afastada

As incertezas que permeiam a covid-19 são muitas. Além da dificuldade em descobrir o momento exato da infecção, cada pessoa reage de maneira diferente à doença. Os sintomas gripais são os mais recorrentes, mas, durante a evolução, outros sinais podem aparecer. Ainda, alguns infectados são assintomáticos, ou seja, não apresentam manifestações clínicas. Dos quadros leves aos mais graves, os sentimentos para quem testa positivo para o novo coronavírus e se recupera vão desde o medo a certeza da cura. Em muitos casos, o aprendizado que fica é o de valorizar os pequenos momentos da vida e as pessoas amadas. ;Foram 18 dias de luta, mas venci a guerra. Ainda tenho marcas, dores no corpo devido ao tratamento intensivo e sinto leve desconforto respiratório, que deve me acompanhar por bastante tempo, assim como a dor de cabeça. São resquícios que o coronavírus deixa, e que o corpo leva tempo para resolver;, conta Gustavo Frasão, 33 anos.

O diagnóstico de covid-19 foi confirmado em 1; de julho, mas, três dias antes, o jornalista havia começado a apresentar os primeiros sintomas. No princípio, forte dor de cabeça acompanhada por febre e dores no corpo. ;No quinto dia surgiram outros: perdi olfato e paladar;, lembra Gustavo. Cinco dias depois, eles se intensificaram. ;Falta de ar, cansaço extremo e manchas roxas nos dedos. Os médicos disseram que a covid-19 ou piora de vez ou melhora de vez após o décimo dia de sintomas. No meu caso, piorou;, completa o morador do Guará. Em 12 de julho, Gustavo foi internado, no Hospital Santa Lúcia, na Asa Sul, em uma unidade de terapia intensiva (UTI). ;Me colocaram no oxigênio e fizeram todos os exames. Nenhum dos sintomas é leve, ainda que sejam parecidos com a gripe. São todos muito intensos e incapacitantes. Sou jovem, não tenho comorbidade, e agravou muito. Não queira correr risco nem desafiar a doença;, aconselha Gustavo.

Lesões

;Eu voltei restaurada. Hoje, eu posso ajudar muito mais quem precisa;, relata a técnica de enfermagem Juliana Conceição, 32, do Hospital Regional da Asa Norte (Hran). A moradora do Paranoá enfrentou 14 dias de luta afastada das atividades. Juliana começou com uma forte dor de cabeça. Depois, vieram as dores musculares e diarreia. Mesmo recuperada, a tontura e a taquicardia são recorrentes. ;Permaneço com algumas sequelas, mas é bom voltar para a linha de frente;, comemora a técnica de enfermagem.

O vírus comporta-se diferente de acordo com cada organismo, independentemente de sexo e faixa etária. ;80% das pessoas vão apresentar formas leves da doença;, explica a infectologista Ana Helena Germoglio. Os sintomas mais frequentes, segundo a especialista, são os gripais, como coriza, congestão nasal e tosse. ;Há, também, sintomas que são menos frequentes, que até dificultam o diagnóstico, como lesões na pele, alterações neurológicas e conjuntivite;, acrescenta a médica. A estimativa é de que os sintomas mais graves acometam 20% dos pacientes. ;Mas, esse é o grande problema, porque elas vão necessitar de atendimento hospitalar, e a conta não vai fechar para a proporção de leitos disponíveis no DF;, alerta.



Suspeita

Ao menor sinal da covid-19, a infectologista Ana Helena recomenda o afastamento de qualquer atividade que o indivíduo esteja desenvolvendo, até que se confirme ou não o diagnóstico. ;A pessoa não deve sair desesperada para a testagem, porque tem o momento ideal de ser feita. A gente sabe que o período entre ter o contato com o vírus e desenvolver os sintomas é variável, geralmente de quatro a 12 dias;, esclarece.

De acordo com a Secretaria de Saúde (SES/DF), os testes rápidos para diagnóstico da covid-19 são recomendados a partir do oitavo dia de sintomas, e para os testes RT-PCR, a partir do terceiro dia. Quem estiver com sintomas gripais leves deve buscar uma unidade básicas de saúde (UBS) para observação clínica. ;Nos casos de sintomas mais graves, o paciente deve ir a um pronto-socorro;, informa a pasta, em nota oficial

A ausência olfativa foi o primeiro sintoma do comerciante Leandro Elias de Souza, 42. ;A partir daí passei a prestar mais atenção no meu estado de saúde;, admite. O morador de Ceilândia procurou a UPA da região e o Hospital de Ceilândia (HRC), mas não conseguiu fazer o teste. Diarreia, dor no corpo, febre e cansaço foram frequentes. No quinto dia sintiu falta de ar. ;Não aguentava mais, achava que ia morrer. Foi quando decidi ligar para um primo meu que trabalha no Hospital Regional do Guará (HRGu) e pedir para que ele conseguisse um leito para mim;, desabafa. No local, confirmou-se a infecção pelo novo coronavírus. O nível de saturação do sangue dele, ou seja, a quantidade de oxigênio, era de 90% (o recomendado é acima de 95%). ;Fiquei quatro dias no oxigênio e, depois, fui transferido para o Hospital de Campanha Mané Garrincha, onde fiquei mais cinco dias até receber alta;, relembra Leandro.

Fé. Essa foi a palavra que definiu os 14 dias da sargento da Polícia Militar Luciane Martins, 40. No final de junho, teve que se afastar das atividades, após ter diagnóstico positivo para a covid-19. Além de fraqueza no corpo, febre, aperto no peito, dor de garganta e sintomas gripais ;o psicológico afeta muito, mas a religião e a crença em Deus sustentam a gente; diz a militar. ;Quando se está abalado emocionalmente, parece que os sintomas pioram;, observa. ;Claro que tive medo de morrer, de perder alguém da minha família, me sentir culpada por isso, mas temos que manter a esperança e acreditar que tudo vai passar;, define Luciane. Após 20 dias afastada do trabalho, a sargento não teve dúvidas: ;Fiz uma foto na entrada do quartel para comemorar a vitória;, declara, satisfeita.


  • Classificação dos sinais e sintomas por grupo

    Leve
    Adultos, gestantes e crianças: síndrome gripal (tosse, dor de garganta ou coriza) seguida ou não de: anosmia (disfunção olfativa), ageusia (disfunção gustatória), diarreia, dor abdominal, febre, calafrios, mialgia e fadiga

    Moderado
    Adultos, gestantes e crianças: tosse, febre persistentes e diárias; ou tosse persistente e piora progressiva de outro sintoma relacionado à covid-19 (adinamia, prostração, hiporexia, diarreia); ou, pelo menos, um dos sintomas anteriores e presença de fator de risco

    Grave

    Adultos e gestantes: síndrome respiratória aguda grave, síndrome gripal que apresente: dispneia/desconforto respiratório, ou pressão persistente no tórax, ou saturação de oxigênio menor que 95% em ar ambiente, ou coloração azulada de lábios ou rosto

    Crianças: Desconforto respiratório, alteração da consciência, desidratação, hipoxemia, dificuldade para se alimentar, lesão miocárdica, elevação de enzimas hepáticas, disfunção da coagulação e qualquer outra manifestação de lesão em órgãos vitais

    Fonte: Ministério da Saúde

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