Cidades

Crônica da Cidade

postado em 03/08/2020 04:14
O curioso caso da naja

O noticiário da cidade tem ficado monotemático no último mês. Além das notícias sobre a covid-19 ; cobertura difícil e necessária, que, vez em quando, traz também informações reconfortantes, como a da relação de afeto entre pacientes e profissionais de saúde da edição de domingo ;, os animais ganharam as páginas do jornal e as da internet.

As estrelas, nesse caso, não são os nativos do Cerrado. O lobo-guará até ocupou a cena por alguns momentos, já que vai estrelar a cédula de R$ 200, anunciada pelo Banco Central. Mas outros ganharam ainda mais destaque. Em uma trama digna de folhetim, que desvelou possível esquema internacional de tráfico de animais exóticos ; cobras, tubarões, lagartos, aves e outros bichos ; foram apreendidos por diferentes autoridades policiais e ambientais.

Tudo começou com uma naja. Sim, a cobra, nativa de regiões da África e da Ásia, morava ; e ainda mora ; no Planalto Central, onde picou o dono, que a criava clandestinamente. Antes que ele se recuperasse da picada, saísse do coma e tivesse alta do hospital para prestar esclarecimentos à polícia, no entanto, outras 16 serpentes e até tubarões foram encontrados em diferentes endereços do Distrito Federal. Nesse meio tempo, um amigo do jovem picado chegou a esconder a pobre naja, para depois soltá-la próximo a um shopping, em negociação confusa, que fez policiais vasculharem a cidade de um lado a outro atrás da serpente venenosa. Encontrada, foi levada ao novo lar, o Zoológico de Brasília, onde espera destinação final.

Dada a repercussão do caso, que ganhou projeção nacional e mereceu divulgação até em horário nobre na tevê, um outro jovem resolveu entregar ao Ibama, voluntariamente, animal que criava ilegalmente em casa. E era nada mais nada menos que a víbora-verde-de-voguel. Também originária da Ásia, a serpente não tem antiofídico no Brasil. Ou seja, se um incidente como o da picada do estudante ; agora preso suspeito de envolvimento em esquema de tráfico internacional ; ocorresse, provavelmente a pessoa atacada não conseguiria sobreviver.

O tema é sério. E exige a atenção que ambientalistas alertam há tempos, sob o risco de comprometer o ecossistema local, gerando desequilíbrio ambiental. E, talvez pela possibilidade de fugir um tanto dos temas da pandemia, o caso da naja viralizou nas redes sociais. Até a nota de R$ 200 ganhou uma versão bem-humorada, estampada com a cobra. Ela virou uma revolucionária: libertou-se de seu algoz e contribuiu para a soltura de outras tantas ;companheiras;. É possível até que ganhe uma ;irmã;, animal da mesma espécie encontrado há alguns anos em Camboriú (SC).

Odeio cobras. Não aguento ver fotos, muito menos vídeos delas rastejando. Tive, no entanto, que superar a fobia para acompanhar a trama digna de novela das 21h. Mas toda a aparente coragem cobrou um preço. Outro dia, as tais serpentes tomaram conta dos meus sonhos. A estrela do pesadelo quem era? Justo a mais venenosa, a víbora. O verde vivo era a cor do terror. Desesperada, eu gritava a quem pudesse ouvir e vir ao meu resgate: ;Não tem antiofídico no Brasil!”. Acordada, respirei aliviada. O quarto estava livre das serpentes.

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