Cidades

Distrito Federal atinge a maior média móvel de casos de covid-19

Análise de especialistas mostra que o Distrito Federal registrou a maior média móvel desde o início da pandemia, 13 dias após a abertura dos estabelecimentos. Projeção mostra que a capital pode ter mais 800 mortes este mês

Walder Galvão
postado em 04/08/2020 05:59
pessoas andando na ruaApós quase cinco meses do primeiro diagnóstico da covid-19, a Secretaria de Saúde considera que o Distrito Federal enfrenta o pico da pandemia. Óbitos continuam a ser registrados diariamente, principalmente, após a flexibilização das medidas de restrição, como a abertura do comércio. Análise feita por especialistas, cedida ao Correio, mostra que a capital registrou a maior média móvel de infecções pelo novo coronavírus 13 dias depois da retomada de bares e restaurantes.

ilustração de dados

Em 30 de junho, a capital havia marcado uma média móvel de diagnósticos de 1.978, o recorde até então. Em seguida, o índice oscilou e sofreu queda. Em 15 de julho, dia em que bares e restaurantes receberam autorização do Executivo para reabrir, ele estava em 1.580. Entretanto, após essa retomada, em 28 de julho, o DF teve a maior taxa desde o início da pandemia: 2.092.

Os doutores Breno Adaid e Thiago Nascimento, pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), do Departamento de Ciência do Comportamento, e coordenadores do mestrado em administração do Centro Universitário Iesb, em conjunto com o estudante de estatística César Galvão, responsáveis pela análise, consideram que a retomada de bares e restaurantes são um dos fatores que impulsionou o aumento da média móvel na capital.

;A gente só vê o impacto da abertura de algum segmento após 10 ou 15 dias. Quanto mais a gente se movimenta, mais o vírus se espalha. Porém, nosso índice de isolamento social não caiu. Portanto, se as pessoas não estão saindo mais, isso pode ter acontecido porque elas se aglomeraram;, explicou Breno Adaid.

Levantamento mais recente de uma empresa de softwares, que monitora a geolocalização dos aparelhos celulares da população, mostra que, no domingo, 47,8% dos brasilienses cumpria o isolamento. O ideal, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é de 70% para ser efetivo.

De acordo com o especialista, a média móvel estava tendendo a descer, mas voltou a subir após a reabertura dos estabelecimentos. Apesar do aumento da média móvel, Adaid reconhece que a capital enfrenta o pico da pandemia. ;O que aconteceu foi que tivemos um novo teto dentro desse período;, frisou. O especialista considera que os casos continuam a crescer, mas não de forma acelerada. ;Oscilamos mais e isso puxou a média nova para cima. O acumulado mostra que tivemos 50% mais casos em julho do que em junho;, comentou.

Por meio de nota oficial, a Secretaria de Saúde informou que aumentou a fiscalização nos estabelecimentos comerciais ao longo das últimas semanas, por intermédio da Divisão de Vigilância Sanitária (Divisa). ;Cerca de 300 ações são realizadas por dia em todo o DF para verificar o cumprimento dos decretos durante a pandemia, sendo que 20% dessas ações são feitas a partir de denúncias encaminhadas à Divisa;, frisou o texto. Questionada sobre estimativa de duração do pico da pandemia e sobre estabilização da quantidade de óbitos e casos, a pasta não respondeu.

Projeção

Ontem, o DF registrou 21 mortes provocadas pelo novo coronavírus. A tendência é de que os óbitos continuem a aumentar este mês. Projeção feita pelos especialistas mostra que cerca de 800 óbitos devem ser contabilizados até o fim de agosto.

O gráfico de crescimento divulgado pelos especialistas revela três cenários para a capital. Na hipótese mais provável, em 30 de agosto, o DF teria 2.374 vítimas da covid-19. Em uma análise agressiva, o número de mortos seria maior: 2.792 óbitos. Na projeção atenuada, a quantidade de mortes seria de 1.956 até o fim do mês.

Breno Adaid explica que a previsão de óbitos pode ser alterada, caso acabem a disponibilidade de leitos nas unidades hospitalares da capital. ;Se houver um colapso no sistema de saúde, a quantidade de mortes estouraria o cenário péssimo;, comentou. Atualmente, segundo levantamento da Secretaria de Saúde, os leitos exclusivos para pacientes com o novo coronavírus estão 77% preenchidos no DF.

A rede pública de saúde está com 74% da UTI comprometida. Ao todo, são 536 pacientes para 750 leitos. O sistema privado encontra-se à beira do colapso, são 285 leitos disponíveis e 269 pessoas internadas, ou seja, 97,82% de ocupação.

Avaliação

A média móvel é um artifício usado estatisticamente a partir do qual se soma os dados do dia com o de um período anterior e divide pela quantidade de dias avaliado. O cálculo usado no gráfico divulgado pela reportagem leva em consideração os números de seis dias atrás.

Quatro perguntas para

Jonas Brant, epidemiologista da UnB

O DF passa pelo pico da pandemia, mesmo com o registro diário de casos?

O número de casos não está crescendo todos os dias. A taxa de reprodução da pandemia está em cerca de 1, ou seja, uma pessoa transmite para mais uma. A somatória do acumulado faz com que cresça o tamanho da epidemia, mas o número de casos novos não tem crescido.

Atualmente, a quantidade de óbitos e de casos confirmados pode ser considerada estabilizada?

O problema é que o quadro se estabilizou em um número extremamente alto. A situação é muito grave. Há uma limitação de capacidade de diagnósticos no DF. As pessoas não estão conseguindo fazer o exame e, quando conseguem, o resultado demora muito. A imagem que temos hoje da pandemia não reflete a realidade.

Há previsão para que o número de casos comece a cair?

Na verdade, não há previsão que esses números caiam, as ações de enfrentamento têm sido pouco trabalhadas. O vírus é enfrentado garantindo detecção dos casos e isolamento dos contatos. Não tem esse rastreamento no DF e isso fragiliza muito as ações de controle. Com o aumento das pessoas saindo de casa, da exposição e a banalização do risco, a tendência é de aumentar.

Por que o registro de casos de um mês tem impacto no número de óbitos somente no mês seguinte?

As pessoas evoluem na gravidade da doença. Elas buscam atendimento, são internadas, o quadro piora, são entubadas e depois evoluem a óbito. São eventos consecutivos e, com isso, se vê a consequência no mês seguinte.Tem muito a ver com o tempo de internação.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação