Jornal Correio Braziliense

Ciência e Saúde

Diabetes fora de controle no Brasil

Estudo mostra que 75% dos brasileiros que sofrem com o mal e não conseguem monitorar a doença adequadamente

Diz o ditado popular: o que não tem remédio, remediado está. Por isso, quando soube do diagnóstico do diabetes tipo 1, a arqueóloga Iara Kern, 75 anos, passou a buscar uma maneira de conviver com a doença e ter, na medida do possível, uma vida normal. Com dieta alimentar saudável e monitoramento da taxa glicêmica, o objetivo foi alcançado com sucesso, apesar da rotina movimentada pelas constantes viagens profissionais. Iara nunca perdeu o controle da glicemia(1) , jamais deixou a diabetes atrapalhar planos pessoais e as complicações por conta do mal não apareceram até hoje, 50 anos depois do diagnóstico. No entanto, infelizmente, a história da arqueóloga é uma exceção. Um levantamento realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia aponta que, no Brasil, 75% dos diabéticos não têm as rédeas da doença. Isso significa que, de cada quatro vítimas do mal, três estão com os índices de açúcar no sangue completamente alterados. Ainda segundo a pesquisa, das 6.371 vítimas do diabetes examinadas em 10 cidades, inclusive Brasília, quase metade já apresentava problemas como retinopatia ; alteração nos microvasos que irrigam a retina ; e neuropatia ; problema nos nervos que causa diminuição da sensibilidade. Para o endocrinologista Antônio Roberto Chacra, coordenador do estudo, a situação é extremamente preocupante. ;Suspeitávamos de um alto índice, mas nos surpreendemos com os 75%, que deve servir de alerta aos pacientes e autoridades de saúde. A alteração nas taxas glicêmicas torna os diabéticos vulneráveis aos problemas cardíacos e vasculares cerebrais, além das complicações nos rins, nervos, olhos e infecções oportunistas. Isso acaba onerando o serviço de saúde. É muito mais caro cuidar das doenças decorrentes do diabetes do que promover o controle da própria enfermidade;, observa. Chacra considera que o descontrole é resultado do pouco treinamento dos médicos e de profissionais de saúde, da baixa adesão dos pacientes ao tratamento e da vida cada dia mais sedentária da população. ;Nosso estudo avaliou a variação glicêmica dos diabéticos não apenas no dia em que a coleta de sangue foi feita, mas nos três meses anteriores a ela. Concluímos que a maioria deles não respeita a dieta alimentar e que é preciso investir na criação de núcleos específicos da doença para que ela seja tratada com a seriedade que merece;, recomenda o endocrinologista. [SAIBAMAIS]A cada ano, estima-se que 7 milhões de pessoas desenvolvam o diabetes em todo mundo. Para algumas vítimas do mal, a dieta alimentar cuidadosa e a prática de exercícios físicos ajudam, mas nem sempre são suficientes para o controle da glicemia. A bailarina Sandra Miller, 32 anos, conta que o estado emocional faz com que a taxa de açúcar no sangue oscile constantemente. ;Desenvolvi o tipo 2 durante uma gravidez e nunca mais consegui controlá-lo. Faço exercícios físicos desde muito jovem e tenho alimentação balanceada, mas não posso ficar nem triste, nem alegre, o que é impossível para uma pessoa ansiosa como eu. Não consigo viver em estado de graça e minha taxa está sempre elevada. Me resta a esperança de que os cientistas encontrem a cura antes que eu desenvolva complicações;, pondera Sandra. Células-tronco No Brasil, uma terapia com células-tronco testada em 20 diabéticos do tipo 1 está em curso desde 2007 e é considerada promissora por especialistas da USP de Ribeirão Preto envolvidos na experiência. Embora seja restrito a pacientes recentemente diagnosticados, o tratamento conseguiu livrar 10 deles das aplicações diárias de insulina. ;Retiramos células tronco da medula do próprio paciente, inativamos o sistema imunológico por meio de uma quimioterapia e transplantamos as células na veia dos diabéticos. Não podemos falar em cura ainda, mas é uma luz no fim do túnel, porque 50% dos transplantados passaram a tomar doses bem menores de insulina. A outra metade dos pacientes teve a atividade do pâncreas normalizada, produzindo o hormônio sem precisar de remédios;, avalia o epidemiologista Júlio Voltarelli, um dos coordenadores do estudo. Algumas novidades sobre medicamentos foram apresentadas no Congresso Americano de Diabetes, realizado em junho, em Nova Orleans (EUA). No entanto, o endocrinologista de Brasília Reginaldo Albuquerque explica que a necessidade de conscientização foi a mensagem principal do encontro. ;A informação é uma grande aliada dos pacientes que precisam conviver com a doença. É preciso atentar aos menores sinais, pois a diabetes é uma doença que chega silenciosamente, com sintomas vagos. O sucesso de novas terapias continuam dependendo do controle da dieta e dos hábitos saudáveis;, aponta. 1 - GLICEMIA É a quantidade de açúcar (glicose) no sangue. O monitoramento da taxa glicêmica é importante para detectar e prevenir a hiperglicemia (excesso de açúcar no sangue) e a hipoglicemia (falta de açúcar no sangue). A glicemia é considerada normal quando, em jejum, está entre 70mg/dl miligramas por decilitro de sangue) a 99 mg/dl, ou é inferior a 140 mg/dl em horários aleatórios nos intervalos de refeições.