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Correio Braziliense OBCECADOS PELA MAGREZA

A anorexia e a bulimia já atingem 1% e 5% das mulheres no mundo


postado em 09/07/2009 08:00 / atualizado em 09/07/2009 08:12

Reféns da busca desenfreada por padrões de beleza estabelecidos no cinema, no mundo da moda ou na publicidade, jovens e adolescentes se empenham em alcançar formas e contornos nem sempre tangíveis. A obsessão pela magreza pode desencadear a bulimia nervosa e a anorexia nervosa, doenças classificadas no grupo de transtornos alimentares pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Quando abatem artistas ou modelos famosas, os distúrbios viram notícia. No entanto, anônimos insatisfeitos com a própria imagem e determinados a se enquadrar na ditadura de corpos perfeitos são cada dia mais atingidos pelos problemas.

Embora não se saiba com precisão o número de anoréxicos e bulímicos no Brasil e no mundo, é certo que as duas doenças são realidade em praticamente todos os países. Segundo Adriano Segal, diretor de Psiquiatria de Transtorno Alimentar da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a anorexia atinge 1% da população feminina mundial, enquanto que a bulimia chega a 5%. “São doenças psiquiátricas crônicas causadas por uma complexa interação entre aspectos genéticos, psicológicos e sociais, sempre desencadeadas por dietas alimentares”, observa o médico (veja quadro). “Profissionais valorizados pela forma física, como modelos, bailarinas e jóqueis, têm maior chance de desenvolverem os transtornos, mas com o ‘tsunami’ de regras estéticas absurdas, as doenças atingiram pessoas de outras áreas”, relata Segal. A prevalência entre os homens é de cinco a 10 vezes menor que a incidência entre as mulheres, mas o impacto na vida do doente e dos familiares é desastroso em todos os casos. Os sinais e sintomas mais evidentes são o medo de engordar e as mudanças no comportamento alimentar, caracterizado pela recusa de alimentos, no caso da anorexia, ou pelo comportamento compulsivo ao se alimentar seguido da tentativa de eliminar o que foi ingerido (provocando o vômito ou usando de laxantes, por exemplo), no caso da bulimia. Depressão O psiquiatra do Programa de Orientação e Assistência aos Pacientes com Transtornos Alimentares da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Marcel Higa Kaio, alerta que pelo menos 30% dos pacientes também sofrem de depressão. “As duas doenças trazem consequências que comprometem ainda mais a autoestima. Nos homens anoréxicos, é observada a perda do interesse sexual. Nas mulheres, há interrupção da menstruação e possível comprometimento da fertilidade. Mas uma série de transtornos nos rins, coração e outros órgãos são comuns tanto para eles quanto para elas”, enfatiza Kaio. Embora crônicos, os dois problemas são passíveis de tratamento quando o diagnóstico não é tardio. O problema é que a vítima, principalmente a de anorexia, não aceita a doença e se nega a tratá-la. Raphael Boechat, psiquiatra e professor da Universidade de Brasília (UnB), lembra que a negação leva a família e os próprios pacientes a procurarem ajuda somente quando o mal está em fase avançada. De acordo com ele, sem tratamento, os transtornos se agravam, gerando outras enfermidades. “Alguns anoréxicos chegam aos hospitais correndo risco de morte, restando poucas opções aos médicos”, lamenta. Boechat adverte que de 5% a 18% dos pacientes anoréxicos morrem em decorrência da doença e que a bulimia pode evoluir para o câncer do esôfago em razão dos vômitos que alteram a mucosa do órgão. “A família e os amigos exercem papel importante na aceitação e no incentivo pela busca de ajuda especializada. Sozinho, o doente dificilmente busca o tratamento”, aponta o médico. Infelizmente, ainda há muito desconhecimento sobre os problemas. Pesquisa do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revela que grande parte dos pais subestima a gravidade dos trasntornos. “Isso se relaciona a uma crença de que as alterações de comportamento dos filhos são uma postura típica da adolescência”, dizem os autores do estudo, Cybele Espíndola e Sérgio Blay. “Eu me via enorme” Além dos danos físicos, os males fazem com que a vida emocional e profissional dos doentes estacione. A mestre em relações internacionais A.B.G.*, 33 anos, reconhece que parou no tempo e que sem a ajuda dos pais jamais teria sobrevivido aos dois transtornos. “Tinha 19 anos quando desenvolvi a bulimia. Meu peso era normal, mas me via enorme diante do espelho. Tinha um histórico de dietas e depressão e via na comida uma forma de descarregar minhas insatisfações e frustrações. Como desejava um corpo perfeito, passei a tomar laxantes para compensar o que comia”, conta. O próximo passo de A. foi começar a provocar o vômito. “Não sou baixa, tenho 1,71m, mas a distorção em relação a minha imagem era tanta que, além dos vômitos e dos laxantes, passei a comer o mínimo possível. Cheguei a pesar 46kg. Mesmo assim, decidi casar e ir morar nos Estados Unidos, onde precisei ser levada às pressas para o hospital. Uma parada cardíaca era iminente”, relata. Os médicos a enviaram para um centro de tratamento específico para pacientes com transtornos alimentares. “Entendi que poderia ter uma alimentação normal sem engordar, mas quando voltei ao Brasil tive uma recaída. Essas doenças são um vício. A caminhada de volta é dolorosa. Retornei para os Estados Unidos para me tratar e, desde 2006, tenho superado o problema. É uma luta diária. Sou uma sobrevivente”, conclui. * Nome não revelado a pedido da entrevistada » Ouça depoimento sobre a bulimia dado por A.B.G.

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