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Correio Braziliense

Viagem à Lua não era necessária


postado em 19/07/2009 08:01 / atualizado em 19/07/2009 08:31

Desde Galileu Galilei (1564 - 1642), os cientistas já conheciam a estrutura lunar. Quando, em 1969, os astronautas norte-americanos Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins entraram na órbita do satélite, sabiam exatamente o que iriam encontrar. "Do ponto de vista astronômico, quais as vantagens e benefícios da chegada do homem à Lua? Nenhum. Tudo aquilo que poderia ter sido descoberto já se sabia", decreta o astrônomo Roberto Boczko, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP).

O que não quer dizer que a viagem de 384,4 mil quilômetros e bilhões de dólares tenha sido mero capricho dos Estados Unidos. A propaganda, claro, foi boa. Principalmente em tempos de guerra do Vietnã, quando boa parte do mundo olhava feio para os vizinhos do hemisfério norte. "Sob o aspecto da satisfação estatal, foi um acontecimento muito importante para os Estados Unidos. Quando tudo parecia indicar que os soviéticos chegariam primeiro à Lua, os norte-americanos deram um passo maior", lembra Boczko. Mas toda a humanidade foi beneficiada pelo feito. O astrônomo da USP explica o por quê: "Do ponto de vista tecnológico, houve o desenvolvimento e a evolução de um grande número de itens que eram desconhecidos, com novos materiais, tecidos, sistemas e estruturas". Se hoje os atletas conseguem usar roupas que permitem a ventilação do corpo sem o acúmulo de suor e a perda excessiva de calor, foi graças à necessidade de se descobrir um material que protegesse os astronautas de elementos hostis, como radiação ultravioleta e raios cósmicos. A reciclagem de líquidos - seria impossível descartar qualquer tipo, mesmo a urina - foi outra tecnologia desenvolvida. A área de alimentação também recebeu uma contribuição importante: o sistema de conservação capaz de manter os pratos congelados e desidratados por longos períodos e, depois de aquecidos, recuperarem o sabor original. Como os médicos precisavam monitorar, daqui da Terra, os aspectos físicos dos viajantes do espaço, outra colaboração da viagem à Lua foi o desenvolvimento da telemedicina. "O ganho não foi apenas de conhecimento, mas da descoberta de técnicas impensáveis até então, para criar produtos de confiabilidade extrema", diz o astrofísico Thyrso Villela, diretor de Satélites, Aplicações e Desenvolvimento da Agência Espacial Brasileira. "A própria telecomunicação foi beneficiada. Hoje, é impossível pensar num mundo sem satélites", lembra. Além disso, ressalta o cientista espacial Ramon P. De Paula, chefe do Programa de Reconhecimento da Órbita de Marte, na Nasa, a viagem aguçou o interesse dos jovens. Indiretamente, isso contribuiu mais ainda para o desenvolvimento de novos produtos. "A missão Apollo teve um grande impacto numa geração jovem, que se pôs muito a estudar ciência e tecnologia. Isso teve um grande impacto no desenvolvimento tecnológico dos últimos 40 anos", diz. Primeiro brasileiro a viajar para o espaço, o astronauta e diretor técnico espacial do Instituto Nacional para Desenvolvimento Espacial e Aeronáutico, Marcos Pontes, conta que, de acordo com a Nasa, para cada US$ 1 gasto no programa espacial, há um retorno de US$ 5 no campo social. "Cada conhecimento científico extra, cada tecnologia que se desenvolve, gera tecnologias paralelas, que vão gerar empresas, empregos, não necessariamente no setor espacial, mas em outros setores", diz. Para Pontes, a viagem de Armstrong, Aldrin e Collins significou ainda mais. De certa forma, influenciou a carreira do astronauta. "Eu tinha seis anos quando o homem pisou na Lua. A gente estava sentado na casa de um vizinho assistindo televisão, e eu estava com meu irmão, 13 anos mais velho. Ele conta que eu não acreditei quando o homem chegou à Lua. Só depois que ele me explicou o que aconteceu, eu falei: 'Ok, se eles chegaram à Lua eu também vou chegar lá. Vou ser astronauta'. E aí, foi ele que não acreditou, né?", revela.

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