Jornal Correio Braziliense

Ciência e Saúde

Tripulantes da missão que levou o homem à Lua reúnem-se para comemorar os 40 anos da expedição

No encontro, não faltaram críticas sobre as prioridades do programa espacial norte-americano

Sem as pesadas roupas de astronauta com as quais o mundo se acostumou a vê-los, e bastante elegantes nos ternos de corte impecável, tripulantes da missão Apollo, que levou seis vezes o homem à Lua, comemoraram ontem, em Washington, os 40 anos da primeira viagem ao satélite. O festejo, que incluiu uma visita ao presidente norte-americano Barack Obama (1)na Casa Branca, teve, em entrevista à imprensa, tom de desolação. Eles estão inconformados com os rumos do programa espacial dos Estados Unidos, principalmente com a ameaça de a Nasa não bancar a tão sonhada exploração humana de Marte.

Um dos mais preocupados com a possibilidade de o planeta vermelho ser cortado do orçamento da Nasa, Edwin ;Buzz; Aldrin, 79 anos, que viajou na Apollo 11 e foi o segundo homem a pisar a Lua, tem usado o slogan eleitoral de Obama para sensibilizar o país em torno da viagem. ;Estados Unidos, vocês ainda têm um sonho? Vocês ainda acreditam em si mesmos? Peço à futura geração e a nossos dirigentes políticos que deem esta resposta: sim, podemos;, provocou, no domingo à noite, durante um evento no Museu Aéreo e Espacial do Instituto Smithsonian. Ontem, foi mais polêmico e chamou a Estação Espacial Internacional de ;elefante branco;, após Jim Lovell criticar a pouca utilidade, até agora, da plataforma. Lovell foi o comandante da Apollo 13 e tornou-se um herói nacional, vivido no cinema por Tom Hanks, ao salvar a tripulação de um desastre.

[SAIBAMAIS]Aldrin e Walt Cunningham, que pilotou o Módulo Lunar da Apollo 7, chegaram a discutir, elegantemente, com o astronauta David Scott, comandante da Apollo 15 e primeiro homem a dirigir um veículo lunar no satélite. ;É muito caro, custaria zilhões de dólares;, disse. ;Temos de encontrar um motivo para ir a Marte que justifique o investimento;, argumentou. Para mandar uma missão tripulada ao Planeta Vermelho, estima-se um gasto de US$ 200 bilhões apenas com a construção dos foguetes e da nave. Para os dois colegas, porém, o motivo de tanto gasto é claro: investir no espaço é investir na humanidade. ;O público pensa: é muito caro investir 0,6% da receita no programa. Isso é uma idiotice, na minha opinião;, rebateu Cunningham.

Depois de criticar o programa espacial, Aldrin afirmou aos jornalistas que ir à Lua significou, pessoalmente, apenas mais um trabalho. ;Se havia sentimento envolvido? Não. Nós estávamos apenas tentando fazer um pouso bem-sucedido. Você não se preocupa, não sente medo;, garantiu. Já o astronauta Eugene Cernan, último homem a pisar a Lua, em 1972, discordou. Ele contou que, durante o pouso lunar, podia ver a Terra o tempo todo do lado de fora da janela. ;Se isso não é emoção, então, não sei o que é;, afirmou.

Ao contrário de Aldrin, presença constante em eventos, os outros dois tripulantes da Apollo 11, Neil Armstrong e Michael Collins, ambos de 78 anos, evitam aparecer em público. Ontem, não foram à coletiva de imprensa em Washington. Mas, na noite de domingo, eles participaram da recepção no Museu Aéreo e Espacial, onde foram saudados por mais de 500 pessoas, incluindo Charles Bolden, o primeiro negro a dirigir a Nasa.

No evento, Roger Launius, chefe do departamento de História Espacial do Instituto Smithsonian, afirmou que a viagem do homem à Lua acabou com a áurea de mistério que sempre envolveu o satélite. ;Quando chegamos lá, desmitificamos a Lua;, afirmou. Para o teólogo David Wilkinson, da Universidade de Durham, na Inglaterra, a missão Apollo 11 teve outro significado, mais filosófico. ;Fiz parte de uma geração que decidiu estudar ciências depois dessa experiência (da viagem ao espaço). Em paralelo aos resultados científicos, a herança da Apollo é seu efeito nessa geração. Mas a Apollo também levantou certas perguntas importantes sobre o lugar dos seres humanos no Universo, sobre nossa responsabilidade ambiental e até sobre a espiritualidade.;

1 - HERÓIS AMERICANOS
No 40; aniversário da viagem à lua, os três tripulantes da nave Apollo 11 foram recebidos pelo presidente norte-americano Barack Obama, no Salão Oval da Casa Branca. ;Raramente eu tive um prazer tão grande quanto hoje, ao encontrar esses três ícones, três genuínos heróis. Ter Neil Armstrong, Michael Collins e ;Buzz; Aldrin aqui, ao meu lado, é simplesmente maravilhoso;, disse.

; Um dia de astronauta

Quem nunca sonhou em ser astronauta? Realizei parte do sonho de criança ao aterrisar em Houston (EUA). Após viajar 40 quilômetros de carro a partir do centro da metrópole texana, fiz um breve mas excitante passeio pelo espaço, pagando relativamente pouco e sem sair da Terra. A aventura deu-se no Johnson Space Center, unidade da Nasa (agência espacial norte-americana) aberta aos turistas desde 1992. Para receber os visitantes, há um pavilhão de 17 mil metros quadrados projetado pela Walt Disney Imagineering.

O centro espacial é hoje a maior atração de Houston. Uma espécie de Disneylândia das viagens espaciais. O passeio inclui visita ao centro de controle dos voos do projeto Apollo, que levou o homem à Lua pela primeira vez, aulas sobre o treinamento dos astronautas e pesquisas espaciais. Para se ter uma ideia da importância do lugar, ;Houston; foi a primeira palavra dita pelo homem na Lua. Histórias como essa são contadas e mostradas ; por meio de vídeos e áudios originais ; no tour pelo Johnson Space Center. Os funcionários da unidade da Nasa ainda monitoram todas as viagens espaciais norte-americanas. No centro, também são treinados astronautas e projetados foguetes e naves.

Um trenzinho faz o passeio pelas vias do centro espacial e leva aos prédios funcionais onde estão escondidas coisas extraordinárias. No caminho, dentro do veículo, ouve-se ao fundo uma musiquinha épica de filme hollywoodiano sobre conquista espacial e depoimentos de ex-astronautas sobre a razão da humanidade tentar desvendar os mistérios do universo. Soa piegas, mas funciona.

Tem-se a constatação de que ali há gente trabalhando para o homem conquistar o espaço quando se ouve o depoimento do diretor de voo aposentado e ex-comandante do Johnson Space Center, Gene Kranz. Entre tantas coisas, ele explica, em uma gravação, que, no local, foram treinados mais de 300 astronautas.

Em um dos prédios funcionais quadrados, sem qualquer placa na fachada ou janela, fica o primeiro e mais famoso centro de controle de missões da Nasa. Acomodados em poltronas vermelhas, como as de cinema, os turistas veem, por trás de uma barreira de vidro, o centro de controle.

A apresentação de vídeos nas telas do painel de controle, em preto e branco, mostra aos visitantes momentos históricos vividos ali. Entre eles, a contagem regressiva para a partida da Apollo 11 rumo ao espaço e os primeiros passos do homem na Lua. O sistema de áudio reproduz gravações dos diálogos entre os cientistas da Nasa em Houston e os astronautas da Apollo 11.

Perto das naves
Do centro de controle, o trenzinho parte para o Hangar X. O prédio abriga naves que, por algum motivo, não passaram nos testes de voo. Do depósito de espaçonaves, o visitante segue para as instalações onde são treinados os astronautas. Os turistas veem instrumentos de testes, uma versão de um ônibus espacial e parte da Estação Espacial Internacional.(1)

A última parada do trenzinho é a mais atraente. Ideal para uma fotografia. No Rocket Park, um espaço gramado e aberto, estão foguetes testados no começo dos anos 1960, os primeiros do projeto Apollo. Também há propulsores e peças dessas naves. Todas lançadas de Houston.

De volta ao centro de visitantes, os frequentadores ; em especial crianças e adolescentes ; brincam à vontade. Para os adultos, também é difícil se conter. Pode-se usar simuladores de voo, que dão a real dificuldade de pilotar um ônibus espacial. Também é possível entrar em uma Apollo e ver um módulo lunar parecido com o que desceu na Lua. Ainda pode-se tocar uma pedra lunar.

Há também o museu de roupas de astronautas e de flâmulas de missões. O visitante pode experimentar alguns capacetes antigos. Se der fome, tem uma praça de alimentação, com cachorro quente, hambúrguer e comida de astronauta. Tudo para você ficar com a cabeça na Lua.

1 - CONTRIBUIÇÃO BRASILEIRA
Os protótipos são usados para exercícios dos astronautas, como saídas de emergência e reparos na aeronave. Há bandeirinhas brasileiras em alguns pontos do hangar. Vale lembrar que o nosso país integra o projeto de construção e manutenção da Estação Espacial Internacional. O Brasil foi representado por Marcos Pontes, nosso primeiro astronauta. Ele entrou para a Nasa em agosto de1998 e começou o treinamento no Johnson Space Center.