Poucas pessoas percebem, mas as inovações tecnológicas que contribuem para
preservar a vida de milhares de pessoas muitas vezes são desenvolvidas por profissionais que,
aparentemente, nada têm a ver com a medicina. Um novo cateter criado por um pesquisador da
Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, promete tornar mais seguro o procedimento cirúrgico
que corrige ou minimiza alguns tipos de arritmia cardíaca. A doença é responsável por um terço
dos acidentes vasculares isquêmicos no mundo.
Desenvolvido pelo engenheiro
elétrico Rui Alves de Sousa durante o mestrado, o ;cateter esofágico acessório; pretende evitar
a morte de pacientes vítimas de uma complicação que ocorre na ocasião da chamada cirurgia de
ablação por radiofrequência. ;A ablação é uma cauterização da parte do tecido cardíaco que
provoca a arritmia. Uma vez cauterizado, o descompasso cessa. No entanto, quando a área a ser
tratada fica no átrio esquerdo, região próxima ao esôfago, existe risco de ocorrer uma fissura
entre os dois órgãos. Essa lesão é decorrente da elevação excessiva da temperatura no local. Não
é muito comum, mas quando acontece é fatal;, explica o criador do novo cateter.
Segundo o pesquisador, apesar de a ablação ser um aquecimento controlado, atualmente a
temperatura entre as duas estruturas não pode ser medida com segurança. ;O cirurgião trabalha em
cima de estimativas e caso os 50; C sejam ultrapassados, a fístula é praticamente inevitável. O
problema é que o procedimento é encerrado sem que a lesão seja notada. Os dois órgãos, o esôfago
e o coração, acabam colando um no outro. Com os batimentos, cerca de 10 dias depois da cirurgia
ocorre um rompimento e o sangue invade o esôfago ou o ar invade o coração, o que leva à morte;,
relata Rui.
Consciente do risco enfrentado por médicos e pacientes, o engenheiro se empenhou para
desenvolver um cateter esofágico capaz de medir e monitorar a temperatura em toda região que
pode ser afetada pela cauterização. ;Esse cateter é introduzido pela boca e, diferentemente do
equipamento usado para cauterizar, ele apenas faz a medição constante da temperatura durante a
cirurgia para evitar danos inesperados. Ele trará segurança aos médicos, pois hoje os cirurgiões
podem apenas estimar o momento ideal para interromper o precedimento com segurança;, detalha o
professor da UnB Ícaro dos Santos, orientador da dissertação de Rui. <--[if gte mso
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Ouça trecho da entrevista com o pesquisador Rui Alves
de Sousa
Com o equipamento desenvolvido na Universidade de Brasília, durante a ablação por radiofrequência a
temperatura do esôfago é medida simultâneamente por cinco termistores (termômetros) que ficam no
interior do cateter esofágico. ;Nosso cateter é conectado ao computador, que informa ao cirurgião as
variações da temperatura em pontos diferentes. Assim, não há perigo de ocorrer a fístula;, observa.
Por enquanto, o cateter foi testado apenas em laboratório, mas, de acordo com o professor Ícaro, o
próximo passo do projeto é tentar financiamento para testar o equipamento em animais e humanos e
produzi-lo em escala comercial. ;É uma etapa que demanda recursos consideráveis. Nosso objetivo é
buscar incentivos junto a instituições governamentais de pesquisa ou empresas que queiram explorar
comercialmente esse dispositivo;, adianta o docente.
O eletrofisiologista Eduardo Saad, especilista no procedimento de ablação por radiofrequência,
observa que o cateter usado há alguns anos para medir a temperatura durante a ablação tem somente um
termistor e não cobre toda a região tratada. ;Venho usando um cateter esofágico de uma empresa
americana que está realizando um protocolo de testes. Ele tem seis termistores e funciona muito bem.
Imagino que o equipamento da UnB deve ser parecido e virá para contribuir com a medicina;, considera
o médico.
A equipe do eletrofisiologista José Barreto lança mão do ecocardiograma intracardíaco para evitar a
fístula átrio-esofágica. ;Por meio dele, visualizamos o átrio esquerdo e a relação com o esôfago, o
que proporciona mais segurança no procedimento. O equipamento da UnB facilitaria bastante. Acho
importante a instituição desenvolver tecnologias que colaborem com os médicos e protejam o
paciente;, completa.