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Correio Braziliense ENTREVISTA | ANDRÉS OZAITA

Espanhol desvenda danos da maconha à memória


postado em 03/08/2009 08:00 / atualizado em 03/08/2009 19:50

O especialista espanhol Andrés Ozaita, do Laboratório de Neurofarmacologia da Universitat Pompeu Fabra, com sede em Barcelona, acaba de decifrar como a maconha prejudica a consolidação da memória. Em entrevista ao Correio, ele falou sobre a pesquisa publicada na revista científica Nature e explicou que o segredo está no mecanismo de sinalização intracelular relacionado à síntese de novas proteínas no cérebro.

O que desencadeia a perda de memória em pessoas que fazem muito uso de maconha? Como o THC atua para prejudicar a memória?

 

As deficiências cognitivas produzidas pelo delta9-tetrahidrocanabinol (THC), principal componente psicoativo da cannabis, foram criadas por nós em animais de laboratório (camundongos), usando testes no qual se propõe a analisar a capacidade de recordação de algo durante 24 horas. Usando essa aproximação experimental, investigamos os mecanismos cerebrais envolvidos nessa propriedade perniciosa dos canabinóides. A relação de nossos resultados com os déficits de memória observador em humanos poderá ser corroborada. No nosso modelo animal, mostramos que o THC altera a memória quando é administrado depois que o animal tem criado a memória. Observamos que o THC atua alterando a consolidação da dita memória.

Por que a ciência não havia ainda comprovado a influência do THC sobre a memória?

 

Os efeitos do THC sobre a memória são conhecidos e têm sido estudos durante muitos anos. A novidade de nosso trabalho de investigação reside na combinação de análise do comportamento (teste de memória) junto a estudos a nível celular-molecular das mudanças que acompanham a administração do THC no cérebro de animais de laboratório. Ela nos tem permitido descobrir as vias de sinalização intracelulares que se alteram no cérebro do camundongo após a administração do THC, assim como o papel que essas vias têm na modulação dos efeitos perniciosos do THC sobre a memória.

De que modo o THC atua dentro dos neurônios e como ele afeta a síntese protéica no cérebro?

 

Nosso estudo demonstra que a administração de THC em camundongos ativa processos de sinalização intracelular no cérebro relacionados à síntese de novas proteínas. Usando um inibidor do processo de síntese de proteínas mostramos que os efeitos do THC sobre a memória podem ser anulados. Tudo isso nos leva a pensar que o THC poderia alterar os processos naturais de consolidação da memória, que também são conhecidos há muitos anos e que dependem da síntese de novas proteínas.

Qual é o papel dos receptores de canabinóides neste processo? Qual sua ligação com o THC e com a perda de memória?

 

Os receptores para canabinóides são essenciais em todos os processos mencionados, já que a pré-administração de um fármaco que bloqueia os receptores para canabinóides antes da administração de THC anula os efeitos perniciosos do THC sobre a memória. Usando camundongos modificados geneticamente que não produzem receptores para canabinóides, constatamos que o THC não tem efeitos deletérios sobre a memória desses animais.

Durante quanto tempo uma pessoa precisaria fumar maconha para começar a apresentar problemas de memória?

 

As extrapolações a seres humanos são sempre difíceis. No trabalho experimental realizado se controlam as doses administradas, enquanto que no consumo humano as doses são mais difíceis de se calcular. Nosso estudo torna evidente os mecanismos neurobiológicos básicos envolvidos nos efeitos deletérios do THC sobre a memória e ajudará a desenhar novas aproximações experimentais para estudos clínicos realizados em humanos.

Como a rapimicina pode ajudar no combate à amnésia provocada pela maconha?

 

A rapamicina já é usada em pacientes como imunossupressor, a fim de se evitar rejeição nos transplantes de órgãos. No nosso caso, a incluímos no estudo por ser um inibidor específico da via de sinalização que encontramos que modulava o THC no hipocampo, a área do cérebro relacionada aos processos de memória e aprendizagem. Em nosso paradigma experimental, os animais pré-tratados com rapamicina tampouco sofriam os efeitos adversos sobre a memória da administração posterior de THC. Esse é um dado muito interessante, mas não nos diz se os efeitos negativos sobre a memória do consumo crônico de THC em humanos podem ser revertidos.

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