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Correio Braziliense

Neuralgia de nervo da face é considerada a dor mais intensa registrada

Falta de informações até entre médicos dificulta diagnóstico e tratamento


postado em 28/08/2009 08:15 / atualizado em 28/08/2009 10:34

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Numa escala de 1 a 10, ela é considerada a dor mais intensa que um ser humano pode sentir. De origem neurológica, a neuralgia do trigêmeo — nervo da face com ramificações oftálmica, maxilar e mandibular — atinge uma em cada 100 mil pessoas e, apesar da baixa incidência, preocupa os médicos, porque provoca uma grande perda na qualidade de vida do paciente. Além disso, faltam informações sobre a doença, não só entre o público em geral. Uma pesquisa realizada com 240 médicos de cinco especialidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Curitiba e Porto Alegre mostrou que 23% deles têm dificuldades em diagnosticar dores neuropáticas.

Segundo o anestesiologista Geraldo Carvalhaes, diretor da Clínica da Dor, em Belo Horizonte, não há exames que detectem as dores neuropáticas, caracterizadas por lesões ou disfunções do sistema nervoso. O cérebro interpreta essas lesões de forma exagerada, fazendo com que os pacientes as sintam com muita intensidade. Para chegar à conclusão de que uma pessoa sofre do problema, o principal diagnóstico é clínico. A partir dos sintomas, o médico descarta outros problemas, como infecções e tumores, até chegar à neuropatia.

Além de indicar a dificuldade dos médicos em fazer esse diagnóstico, a pesquisa realizada pelo laboratório Pfizer mostrou que 82% dos pacientes precisaram passar por mais de um médico até descobrirem de que mal sofriam. O diretor-médico da empresa, João Fittipaldi, lembra que as pessoas costumam associar a dor a alguma alteração física, coisa que não existe no caso das neuropatias. “Sentir dor é muito desagradável e pode impossibilitar o trabalho e os relacionamentos pessoais, porque não há humor que resista a ela”, afirma. “Acontece que, muitas vezes, as pessoas acham que, por não terem uma alteração física detectada por exames como o de raios X, a alteração é psicológica. Por isso, é comum os pacientes contarem que passaram por vários especialistas antes de saber o que têm.”

Faca enfiada
Foi assim com a aposentada mineira Genoveva Vaz, 75 anos e nove filhos. Moradora de Piumhi, a 256km de Belo Horizonte, ela peregrinou por diversas cidades até descobrir que sofre de neuralgia do trigêmeo. “Fiz vários tratamentos, me davam antibióticos e não adiantava nada”, conta. Há 12 anos ela convive com a dor que atinge o lado direito da face. “Começa com uma dorzinha e depois parece que estão enfiando uma faca. Quando tinha as crises, chegava a chorar.” Outra sensação descrita pelos pacientes é a de um choque elétrico.

As dores de Genoveva só foram melhorar depois de se submeter a um novo tipo de tratamento, que combina remédios com um aparelho de estimulação magnética. Com eletrodos colocados na cabeça do paciente, o médico faz um mapeamento do cérebro e escolhe se quer estimular ou inibir determinada área, de acordo com o problema. Segundo Carvalhaes, que importou o equipamento da Rússia, a vantagem do tratamento é que ele dispensa cirurgias que, no caso de idosos, podem ser perigosas. As principais vítimas da neuralgia do trigêmeo têm mais de 65 anos.

O anestesiologista explica que os procedimentos cirúrgicos procuram esmagar o nervo com um balão de ar ou queimá-lo por meio de radiofrequência. “Para pacientes mais velhos, a cirurgia pode ser arriscada. Estamos conseguindo estabilizar esses nervos com sucesso”, diz. Dona Genoveva aprovou. Depois de 10 sessões, ela diz que está se sentindo melhor, embora ainda tema uma recaída. “Há 30 dias estou melhor. Então, eu mesmo faço a comida e cozinho doces. Antes, não tinha disposição para nada”, diz. “Mas ainda está dolorido”, completa a aposentada, que precisa se submeter a novas sessões.

Defasagem
O diretor da Clínica da Dor diz que os remédios existentes no mercado não dão conta, sozinhos, de lidar com o problema, pois estão defasados. Para se ter uma ideia, o mais receitado atualmente data de 1955. Mas ele aposta na chegada de uma nova substância, a pregabalina, voltada para tratamentos de fibromialgia e dores neuropáticas. Ele modula a condução do impulso nervoso, diminuindo a comunicação de mensagens de dor dos nervos doentes para o cérebro. A substância, cujos estudos testaram 14,5 mil pessoas, age mais rápido e não interage com outros medicamentos. Vinte por cento dos pacientes apresentaram tonturas que sumiram depois de quatro semanas.

 O médico Geraldo Carvalhaes faz tratamento com aparelho de estimulação magnética em Genoveva. Depois de 10 sessões, a aposentada diz que se sente melhor(foto: Marcelo Sant?Anna/EM/D.A Press)
O médico Geraldo Carvalhaes faz tratamento com aparelho de estimulação magnética em Genoveva. Depois de 10 sessões, a aposentada diz que se sente melhor (foto: Marcelo Sant?Anna/EM/D.A Press)
Desesperado pela ação ineficaz de um remédio antigo que usa desde dezembro, quando descobriu ter a doença, o caminhoneiro Guilherme Joaquim, 69 anos, resolveu apelar para a automedicação. Combinado à substância prescrita, ele toma um outro remédio, receitado pelo balconista da farmácia. “Na primeira vez que tomei o remédio que o médico passou, tive até alucinação. Aí ele diminuiu a dose e a dor voltou de novo. Tenho sofrido demais. Ela sobe pelo lado do ouvido e só falto desmaiar”, relata. “Na semana passada, me deu de um jeito que eu nunca tinha visto, pensei que ia morrer.” As dores de Guilherme começam no queixo e sobem pelo ouvido. “O médico falou que eu ia sofrer seis meses e depois ia passar. Mas isso não aconteceu”, reclama.

Assim como Genoveva, Guilherme teve dificuldades para descobrir o que tinha. Como as primeiras dores surgiram na cavidade oral, ele consultou um odontologista, que extraiu dois dentes. “Não passou, aí eu fui numa clínica particular e a médica falou que era problema no trigêmeo”, diz. Segundo Geraldo Cavalhaes, isso acontece com frequência. “É comum pacientes perderem vários dentes por causa do diagnóstico errado”, diz.

» Leia mais sobre dores neuropáticas

Definição
É um tipo de sensação dolorosa que ocorre em uma ou mais partes do corpo e é associada a doenças que afetam o Sistema Nervoso Central, ou seja, os nervos periféricos, a medula espinhal ou o cérebro. Essa dor pode ser consequência, também, de algumas doenças degenerativas que levam à compressão ou a lesões das raízes dos nervos ao nível da coluna.

Características
Ador neuropática se manifesta de várias formas, como sensação de queimação, peso, agulhadas, ferroadas, choques. Pode ser acompanhada ou não de "formigamento" ou "adormecimento" (sensações chamadas de parestesias) de uma determinada parte do corpo. Como no sistema nervoso existem fibras "finas" e fibras "grossas", as características das dores podem identificar qual o tipo de fibra que está acometida. Nas lesões de fibras finas geralmente predominam as dores em queimação, aperto e peso. Nas lesões de fibras grossas são mais comuns as dores em pontadas, agulhadas e choques. Existe, ainda, situações em que existem ambos os tipos de dores, isto é, dores de fibras finas e grossas ao mesmo tempo, sendo chamadas de dores mistas. Quando somente um trajeto nervoso está comprometido pela doença, por isso chamado de mononeuropatia, a dor é bem localizada, podendo afetar um lado do corpo ou da região (por exemplo, um lado da perna, do tórax, da face, etc.). Às vezes, mais de um nervo pode estar envolvido no processo, causando dores em mais de um segmento do corpo (mononeuropatia múltipla). Quando vários nervos estão alterados ou danificados, ou seja, nas polineuropatias, a dor aparece de forma difusa, generalizada, podendo provocar dor no tronco, nos braços e pernas ao mesmo tempo. A dor pode ser contínua (estar presente durante todo o tempo) ou intermitente (em crises, surgindo em horários intercalados). A intensidade da dor varia de fraca a intolerável, dependendo do estágio da doença e do grau de comprometimento dos nervos.

Fatores desencadeantes
Doenças infecciosas – causadas por bactérias ou vírus que podem afetar os nervos pela liberação de toxinas ou pela degeneração provocada pela presença do microorganismo. Podem determinar dores agudas ou dores que persistem após a resolução do processo infeccioso, como, por exemplo, a neuralgia pós-herpética causada pelo vírus Herpes varicela zoster, vulgarmente conhecido como "cobreiro".

Traumas – em trajetos nervosos por acidentes, fraturas ou cirurgias que levam a dores agudas de grande intensidade no período de convalescença ou no pós-operatório, as quais podem se tornar crônicas, caso não sejam tratadas adequadamente.

Diabetes mellitus – na fase degenerativa, pode lesar a capa que reveste os nervos (chamada de "bainha de mielina"), provocando a neuropatia diabética.

Acidentes – que afetem a coluna, determinando lesões da medula, podendo causar dor intensa e persistente.
Alcoolismo, deficiência nutritiva e de certas vitaminas – afetam a função nervosa de forma significativa desencadeando um quadro de dor.

Tratamento
O tratamento da dor neuropática varia de acordo com a doença e o estágio em que ela se encontra. O objetivo é tratar especificamente do nervo, ou a doença que está lesando o nervo indiretamente e/ou a dor oriunda dessas lesões ou visar somente o alívio da dor. Os medicamentos comumente usados são:

Anticonvulsivantes – substâncias usadas para tratar epilepsia (gabapentina, carbamazepina, lamotrigina) que atuam diminuindo a atividade elétrica dos nervos ou inibindo a passagem das dores por determinadas vias nervosas.

Anestésicos – como a cetamina e ropivacaína, que também diminuem a atividade elétrica dos nervos.
Antidepressivos – como a amitriptilina e imipramina, que estimulam certas partes do sistema nervoso que vão inibir a passagem das dores, além de atuar na depressão que geralmente acompanha a neuropatia ou qualquer dor na fase crônica.

Os anticonvulsivantes e os antidepressivos são administrados por via oral e os anestésicos, pelas vias oral, intravenosa e peridural (na medula espinhal). No caso das medicações usadas pela via oral, os resultados de melhora começam a ser sentidos após duas ou três semanas de tratamento e depois de reajustes progressivos nas dosagens. Esses medicamentos costumam, no início, provocar sonolência, tonturas, sensação de cabeça vazia e boca seca, as quais cedem dentro de cinco a sete dias.

Quando se faz uso de medicamento por via intravenosa (infusão pela veia), há necessidade de hospitalização por uns dias, para se controlar melhor as reações. Durante o tratamento, podem ocorrer efeitos colaterais, geralmente mais acentuados no início, que tendem a amenizar com a continuidade da terapia. A persistência com o tratamento é muito importante para se obter bons resultados.

Cirurgia
Para alguns tipos específicos de dores neuropáticas o médico pode indicar algum tipo de tratamento cirúrgico sobre o nervo ou na medula espinhal ou até em nível cerebral (exemplos: implantes de eletrodos, estimuladores que funcionam como marca-passos do coração).

» Orientações gerais

- É aconselhável buscar orientação médica;

- Quando mais informações você tiver em relação ao seu problema, mais chances de um bom resultado você terá;

- Tome as medicações nos horários recomendados, sem alterar as dosagens;

- Pode ser que o tratamento seja de longa duração, porém, não desanime, procure seguir rigorosamente as orientações da equipe (médico, enfermeiro, etc).

Exemplos de doenças ou lesões que provocam dores neuropáticas:

- Neuralgia do trigêmio.

- Neuralgia do glossofaríngeo (nervo da língua e garganta).

- Neuralgia facial atípica.

- Neuralgia traumática (após acidentes).

- Neuralgia incisional (de cicatrizes).

- Radiculalgia pós-laminectomia (por cicatriz após cirurgia de hérnia de disco).

- Neurite ou polineurite diabética.

- Plexalgia ou plexite após radioterapia.

- Tumores comprimindo nervos.

- Síndrome talâmica (após derrames cerebrais em áreas específicas).

- Disestesia do paraplégico (após lesões completas ou incompletas da medula espinhal).

Fonte: Pfizer

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