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Correio Braziliense

Alimentação brasileira: aliada ou inimiga?

Em 30 anos, a alimentação dos brasileiros mudou radicalmente. Produtos industrializados e de baixo valor nutricional vêm substituindo progressivamente frutas, verduras e hortaliças. Boa comida, porém, pode ser uma trincheira até contra o câncer


postado em 04/09/2009 09:50 / atualizado em 04/09/2009 10:05

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A receita é simples e conhecida: a boa saúde está diretamente relacionada à alimentação balanceada. No entanto, hábitos alimentares saudáveis estão cada dia menos presentes no cardápio de grande parte da população. O acesso aos alimentos é maior, mas os produtos mais consumidos são aqueles com baixo valor nutricional. Para se ter uma ideia, o consumo de refrigerantes no Brasil aumentou 400% nos últimos 30 anos. No mesmo período, as cadeias de fast food registraram crescimento de 600%. Atualmente, a ingestão de frutas, hortaliças, verduras, cereais e grãos pelos brasileiros alcança apenas um terço dos 400g diários necessários para prevenir o câncer e recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O descuido deixa adultos e crianças doentes e sem proteção para lutar contra muitos males.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) relata que os tipos de tumores malignos relacionados aos hábitos alimentares estão entre as seis primeiras causas de mortalidade relativa à doença no país. Nutricionistas e médicos alertam que o brasileiro perdeu a referência do que é saudável. As crianças são reféns de papinhas, sucos industrializados, biscoitos e salgadinhos. Os jovens são campeões no consumo de hambúrgueres, salsichas e batatas fritas — produtos que oferecem riscos por terem em sua composição níveis significativos de agentes cancerígenos. Os idosos são levados pelo turbilhão da má alimentação, não apreciam nem reconhecem o sabor do que está a disposição nas prateleiras dos supermercados e em grande parte dos restaurantes, mas acabam comendo o mesmo que filhos e netos.

Para Fábio Gomes, nutricionista da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca, a alimentação industrializada está no cardápio mesmo em localidades remotas ou interioranas, onde o consumo de legumes e frutas regionais costumava ser maior. “O apelo da publicidade da indústria alimentícia é devastador. E isso pode ser observado tanto nas classes sociais mais abastadas quanto nas menos favorecidas. Na cabeça das pessoas, os produtos industrializados simbolizam o desenvolvimento. Elas esquecem apenas que o custo para a saúde é muito alto”, pondera.

Gomes explica que o sal, os nitritos e os nitratos que compõem os alimentos processados têm ação carcinogênica e mutagênica. Em palavras simples, eles expõem o organismo ao câncer e outras doenças. “Exatamente o oposto ocorre no corpo de quem ingere frutas, legumes e cereais em quantidades ideais. “Por diversos mecanismos, esses itens inibem a mutação de células que desencadeiam o câncer ou atuam de forma a dificultar a multiplicação delas”, revela.

A vida mudou
O especialista lembra ainda que os hábitos alimentares dos brasileiros já foram melhores. “O acesso aos produtos processados era muito menor, por isso consumíamos mais alimentos frescos e saudáveis. As refeições eram preparadas em casa e as pessoas dedicavam tempo a elas. Almoçar e jantar era prazeroso, e não apenas um pit stop”, afirma. Hoje, os hábitos que comprometem a saúde começam muito cedo. Estudo recente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 270 famílias constatou que, antes de completarem 2 anos, 67% das crianças já tinham o costume de tomar refrigerantes e 70% comiam biscoitos recheados regularmente.

A nutricionista do Hospital de Apoio de Brasília Marta Evangelista concorda com o colega do Inca. “A vida mudou, está muito corrida e as pessoas se alimentam fora de casa. Fibras, verduras, frutas e hortaliças foram substituídas. Com isso, alimentos mais ricos em gorduras, açúcares e conservantes vão para o prato com mais frequência. A saúde paga o preço. Notamos que, cada dia mais, as doenças que atingiam a terceira idade surpreendem indivíduos muito jovens”, aponta ela.

O economista Adriano Pereira de Paula, 45 anos, acaba de se livrar de um câncer. Ele confessa que a qualidade dos itens que iam para o prato não era uma prioridade em sua vida. “Comia poucas frutas e verduras e a variedade era negligenciada. Quando soube da doença, passei a cuidar melhor da alimentação. Foi um dolorido processo de aprendizagem, mas tenho certeza de que a ingestão de alimentos saudáveis contribuiu no combate à doença. Hoje, estou curado e o meu cardápio está cada dia mais colorido, principalmente com alimentos que fortalecem as minhas defesas”, diz.

Para os especialistas, quase sempre há tempo para se correr atrás do prejuízo. “É difícil porque, quando falamos em prevenção, buscamos qualidade de vida a longo prazo, mas é mais cômodo enxergar somente o presente”, lamenta o nutricionista Fábio Gomes. Segundo ele, carnes processadas, refrigerantes e biscoitos industrializados deveriam ser banidos do cardápio.

"O acesso aos produtos processados era muito menor, por isso consumíamos mais alimentos frescos e saudáveis. As refeições eram preparadas em casa e as pessoas dedicavam tempo a elas. Almoçar e jantar era prazeroso, e não apenas um pit stop”
Fábio Gomes, nutricionista da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca


O número
400 gramas - Quantidade diária de frutas, verduras, hortaliças, grãos e cereais recomendada pela OMS

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