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Correio Braziliense DTM

Pacientes que sofrem com sintomas como dores violentas de cabeça ou na face podem estar sofrendo da disfunção da articulação temporomandibular

A maior parte dos atingidos enfrenta peregrinação pelos consultórios médicos até receber o diagnóstico correto


postado em 30/10/2009 08:10

A dor de cabeça da técnica em informática Maria dos Reis de Fátima Rocha, 50 anos, persistiu por mais de uma década. A desagradável sensação era tão forte que irradiava pela nuca. Os ouvidos também doíam e eram acometidos por zumbidos constantes. Preocupada com o transtorno e com o dia a dia completamente comprometido pela dor, ela procurou ajuda de especialistas de diversas áreas. Jamais imaginaria, no entanto, que o diagnóstico, disfunção da articulação temporomandibular ou DTM, seria cogitado por um clínico geral e confirmado por uma odontóloga.

A cirurgiã dentista Simone Carrara, especialista nesse tipo de disfunção, explica que a DTM é uma patologia realmente esquecida pelos profissionais da saúde. A maioria das vítimas do mal passa por uma verdadeira peregrinação médica antes de serem submetidas ao tratamento adequado. O problema atinge a articulação que faz toda a movimentação da boca. “Ela fica à frente do ouvido e liga o crânio à mandíbula. A disfunção desencadeia vários sintomas. Dores de cabeça e na face, estalos na articulação, vertigem e dificuldades para se alimentar e falar são os mais comuns e causam sérios danos à qualidade de vida dos pacientes”, observa.

A odontóloga revela que não existem marcadores biológicos, ou seja, exames que provem que a pessoa tem a doença. Geralmente, o paciente sofre muito, tem um quadro complexo de disfunção da ATM e a radiografia ou tomografia não apontam a desordem. Nem a ressonância magnética, segundo a dentista, pode ser confiável para detectar o mal. Por isso, o mais importante é a conversa entre o especialista e o doente. “É pela história do paciente que a DTM pode ser identificada com segurança. Muitos médicos e até dentistas não conversam cinco minutos com a pessoa que está sofrendo. Pedir uma série de exames que não apontam o motivo do desconforto e sofrimento não resolve o drama vivido pelos doentes”, pondera.

Maiores vítimas
A DTM é mais frequente em mulheres. Alguns estudos sugerem que, para cada seis atingidas pela disfunção, apenas um homem desenvolve o problema. “Tenho percebido que a desproporção é ainda maior, e fica em torno de 10 mulheres para cada homem. O envolvimento hormonal tem grande importância, mas ainda não temos a exata explicação para a desigualdade”, lamenta a dentista. As causas da patologia, porém, já estão mais claras. A má oclusão — relacionamento errado entre os dentes da maxila e os da mandíbula — é um fator desencadeador. Outros motivos, contudo, podem estar envolvidos da disfunção. Indivíduos que mascam chicletes constantemente, roem unhas e apoiam a mandíbula nas mãos prejudicam a articulação sem perceber. “O bruxismo, no entanto, é claramente o principal detonador da ATM. A mania de apertar os dentes tem aumentado consideravelmente e já pode ser considerada um problema de saúde pública, totalmente ignorado pelas autoridades da área”, considera Simone.

Foi exatamente o bruxismo que provocou a disfunção em Maria dos Reis. “Minha articulação estava tão afetada que cheguei ao consultório odontológico e fui diagnosticada imediatamente. Estava desesperada, tomava muitos remédios para tentar controlar a dor. Dormia e amanhecia com essa sensação desgastante. Cheguei a pensar que estava com um tumor na cabeça”, relata. Situação parecida foi vivida pela pedagoga Eliane Baeta Mendonça, que sentia dor na cervical, na cabeça e um zumbido insistente no ouvido. “Cheguei a ficar com o rosto inchado. Não saía mais de casa porque tomava um coquetel de analgésicos e antidepressivos para suportar a situação. Os médicos não entendiam minhas dores. Muitos nem sequer me ouviam, achavam que era um problema psicológico”, relembra. “Sofri muito até encontrar uma profissional especializada que remediou prontamente o transtorno. Em poucos dias, me livrei dos sintomas”, conta.

O tratamento adequado preservou as duas pacientes das manifestações da DTM e proporcionou um retorno às atividades cotidianas. “A DTM não tem cura, é uma doença crônica, mas pode ser tão bem controlada que muitas pessoas esquecem que têm o mal. É comum, após o tratamento, que os sintomas desapareçam por completo”, garante Simone Carrara. Na maioria dos casos, a terapia consiste na colocação de placas interoclusais removíveis de acrílico. Elas impõem à mandíbula uma postura correta e reestabelecem o equilíbrio músculo esquelético. Os casos cirúrgicos são raros. A eletroterapia, usada para diminuir a hiperatividade muscular e promover alívio aos estímulos dolorosos, e a fisioterapia também são ferramentas importantes para a reabilitação dos pacientes.

O fisioterapeuta Evandro Faulin destaca que 60% das vítimas da DTM apresentam nódulos nos músculos do pescoço e da face, verdadeiros pontos de gatilho para a dor. A fisioterapia, nos casos indicados, é feita simultaneamente ao tratamento odontológico. “Analisamos o comprometimento da movimentação do pescoço e da cervical, que acaba bem comprometida em função da DTM, avaliamos e corrigimos a postura, que também influencia o agravamento ou mesmo o início do problema, e trabalhamos o movimento da articulação e a mudança de hábitos do paciente”, explica. “O bem-estar é conquistado em questão de dias”, garante.

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