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Correio Braziliense COP-15

Multidão vai às ruas pelo planeta

Milhares de pessoas exigiram dos negociadores de 193 países mais empenho no combate ao aquecimento global. Quatrocentos manifestantes foram presos na capital dinamarquesa, acusados de desordem pública


postado em 13/12/2009 08:00 / atualizado em 12/12/2009 19:04

Cristiana Andrade
Enviada especial

Copenhague – Uma verdadeira multidão de vozes ecoou forte ontem pelas ruas, avenidas e pontes de Copenhague, onde representantes de 193 países se reúnem até sexta-feira para fechar um acordo sobre as mudanças climáticas no planeta. Bebês repletos de roupas, luvas e gorro; crianças, jovens, adultos e idosos, de várias nacionalidades, gritaram, apitaram e levantaram literalmente várias bandeiras, clamando por justiça global nas decisões que ocorrem a portas fechadas.

Coordenada por uma série de organizações não governamentais (ONGs), a passeata saiu da Praça Christianborg, onde está localizado o Parlamento dinamarquês, e chegou às imediações do Bella Center, no sul de Copenhague, onde ocorre a reunião para Mudanças Climáticas da ONU (COP-15). O trajeto tem 6km e, mesmo com um sábado de sol após uma semana cinzenta, o frio congelante de 1ºC não os fez desanimar.

(foto: Hiram Vargas/CB/D.A Press )
(foto: Hiram Vargas/CB/D.A Press )
As amigas dinamarquesas Marjolijn Ogtgterstroit-Vanelk, 70 anos, e Det Van Lanschot, 57, não quiseram perder o manifesto. “Nunca vi tantas pessoas juntas em Copenhague como hoje (ontem). Estou maravilhada. Acho que temos que nos manifestar mesmo, pois precisamos de uma mudança urgente de atos, nossos e dos governantes”, disse Marjolijn. Det Van comentou que acredita que os povos de vários países já estão mais conscientes sobre a questão ambiental. “Às vezes, penso que precisamos de mudança é dos governantes.”

Três amigos sul-coreanos que vieram por contra própria da Coreia do Sul para participarem como observadores dos debates dentro do megapavilhão Bella Center fizeram sátira contra seu presidente, Lee Myungbak. “Nosso presidente, infelizmente, não pensa verde. Ele está investindo em usinas de energia nuclear, quatro projetos para extrair areia em rios e apostando pesado na construção de infraestrutura, sem se preocupar com o meio ambiente. Ainda não temos muitos problemas por causa das mudanças climáticas, mas alguns fazendeiros já as sentem, como a seca em áreas de plantação de arroz”, comentou um dos rapazes, Yujin Lee, 35 anos. Son Hyunjin estava vestido de presidente Myungbak, e Kim Yung, de urso, fazendo uma alusão ao desaparecimento dos animais.

Mensagem
Para o dinamarquês Frederik Weiergang, 17 anos, esse tipo de manifestação é necessária a fim de levar a mensagem aos negociadores da COP-15 de que há muitas pessoas acompanhando os debates e querem algum tipo de acordo real e que seja de fato eficaz. “Eles passaram anos discutindo e não chegaram a uma boa meta. Na Dinamarca, não neva mais em dezembro, e em outros países, milhares de pessoas estão perdendo suas culturas, suas casas por causa das mudanças climáticas. É muito triste.”

O fotógrafo belga Karol Deckers, 42 anos, estava coberto por fotografias em preto e branco de crianças de várias partes do mundo, que ele mesmo tirou. “São fotos que tiro quando viajo, de meninos e meninas em situação de pobreza ou que já estão sendo atingidos pela seca, pela fome ou por grandes transtornos climáticos.” Uma alemã que se identificou apenas como Maren, 21, estava num pequeno grupo de amigos que saiu da Alemanha para Copenhague para se unir à grande manifestação. “Viemos para tentar dar alguma participação nossa, um sinal de que nos preocupamos.”

Além dos milhares de manifestantes pelas ruas da cidade — a organização estima em 100 mil, mas a polícia, 30 mil —, o governo dinamarquês colocou na via pública um batalhão da polícia e esquadrões especiais de segurança. Durante toda a tarde, carros transitavam em alta velocidade por Copenhague, com sirenes e luzes ligadas.

Confusão
Logo depois do início do cortejo, a pouco mais de um quilômetro do Parlamento, um grupo de quase 300 manifestantes(1) inteiramente vestidos de preto, munidos com picaretas e martelos, atacou vitrines de lojas. Eles foram cercados por 50 policiais, que os mobilizaram no chão para depois interrogá-los. Alguns deles se dispersaram em pequenos grupos de cinco ou seis para se juntarem ao cortejo. “Estamos vigiando os grupos extremistas”, disse o porta-voz da polícia, Henrik Jakobsen, enquanto helicópteros circulavam no espaço aéreo da manifestação.

Um pequeno grupo de extrema esquerda, o Never Trust a Cop (Nunca acredite numa conferência da ONU), convocou uma manifestação anticapitalista no centro da cidade. A maioria dos manifestantes, vindos de carro e de trem das grandes cidades da Alemanha, do Reino Unido, da Holanda e da Itália, é de origem europeia, mas inúmeros asiáticos, entre eles chineses e coreanos, estavam presentes, assim como alguns africanos e, claro, dinamarqueses.

Cerca de 400 pessoas foram presas durante as manifestações. Na sexta-feira, 75. Alegando motivos de segurança, não foi divulgado o número de policiais envolvidos na operação. Um bloqueio foi feito nas imediações do Bella Center, com carros, homens e cães da polícia. Um dinamarquês que pediu para não ser identificado informou que, como a cidade não tem muitas cadeias, várias escolas e outros locais públicos foram usados como delegacias. Ele disse ainda que quem for preso fazendo arruaça nas ruas ficará detido até o fim do encontro das partes, que termina, oficialmente, dia 18.

1- Poucos avanços
A indignação dos manifestantes explica-se pela lentidão da primeira semana de discussões em Copenhague. Houve uma sinalização de que pode não haver consenso sobre a criação do fundo para ajudar países em desenvolvimento a implantar ações de mitigação, além de troca de farpas entre representantes das 193 nações. Com o início da chegada dos ministros e chefes de estado a Copenhague, para a semana de decisões — ontem, foi a vez da ministra brasileira da Casa Civil, Dilma Rousseff, e hoje é esperado o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc —, há grande expectativa de que os negociadores apressem a finalização do texto final, previsto para ser entregue na terça ou na quarta-feira.    

Em uníssono, pelo clima

(foto: Bob Strong/Reuters)
(foto: Bob Strong/Reuters)
Na capital dinamarquesa, protestos bem-humorados, cobrando mais ação dos negociadores. “Blablablá... Ajam agora!”, clamou um dos manifestantes. Outro grupo brincou com o nome da cidade onde é realizado o evento, fazendo um trocadilho, e depositando as esperanças em Barack Obama. Em Copenhague, teve até desfile de pandas gigantes. Já em Brasília, ambientalistas fizeram uma marcha do Congresso à Embaixada dos EUA.

Entrevista // Marcelo Furtado, diretor executivo do Greenpeace Brasil
Uma das questões mais importantes debatidas em Copenhague esta semana, sem acordos, ainda, é a questão do financiamento que os países industrializados devem fazer em países em desenvolvimento, para que haja como os menos favorecidos implantem ações e programas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Você acha que isso vai avançar nesta semana de decisões?

A questão ainda é muito frágil. E ninguém colocou na mesa nem proposta de curto, nem de longo prazo. Sem recurso, não vai haver negociação aqui. Não é barato, mas deve servir para resolver problemas ambientais, de desenvolvimento, sociais, da vida das pessoas. O que é perigoso é que ninguém quer se comprometer.

E aí, para onde isso pode caminhar? Podemos não ter esse acordo final?

Olha, o que pode haver é uma maquiagem verde se os chefes de estado continuarem falando só sobre política e criando, dessa forma, uma expectativa falsa no público. Temos que pensar que é preciso um tempo mínimo para sobreviver, ter dinheiro para adaptação, dinheiro para desenvolver tecnologia. Isso aqui não é um acordo de futebol, de comunicação. É uma reflexão de vida ou morte.

Pelo que percebemos, as discussões essa semana tiveram um tom totalmente voltado para economia, quero dizer, só se fala em dinheiro, quem vai por ou não. E a questão social, ambiental?

Os conflitos sobre escassez de água, recursos naturais, segurança nacional, das populações que estão sendo diretamente atingidas pelas mudanças climáticas estão sendo tratados como um acordo econômico. Repito: temos que fazer um acordo ambicioso e justo. O acordo tem que ser vinculante, senão, vai ficar tudo no fio do bigode, na base do voluntário.

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