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Correio Braziliense

Lula tenta destravar a COP-15

Em seu pronunciamento e, mais tarde, ao falar com a imprensa, o presidente brasileiro afirmou que a humanidade não vai perdoar um possível fracasso nas negociações do clima. Ontem, os Estados Unidos anunciaram contribuição para o fundo mundial


postado em 18/12/2009 07:00 / atualizado em 18/12/2009 09:15

Cristiana Andrade
Enviada especial


COP-15
Agenda do meio ambiente
Cúpula de países tenta superar impasses para cumprimento de metas contra o aquecimento global, de 7 a 18 de dezembro, em Copenhague



Discursos afinados: tanto Lula quanto Sarkozy querem que os países ricos tomem providências mais rápidas e enérgicas(foto: Ricardo Stuckert/PR)
Discursos afinados: tanto Lula quanto Sarkozy querem que os países ricos tomem providências mais rápidas e enérgicas (foto: Ricardo Stuckert/PR)
Copenhague – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou os países que participam da Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) a assumirem sua responsabilidade e fechar um acordo robusto, que atenda aos apelos feitos pela ciência. “Quero falar com toda clareza e franqueza. Esta Conferência não é um jogo onde se possa esconder cartas na manga. Se ficarmos à espera do lance de nossos parceiros, podemos descobrir que é tarde demais. Todos seremos perdedores”, afirmou, em seu discurso.

Mais tarde, em coletiva à imprensa, ele e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciaram que vão liderar uma discussão com os demais chefes de Estado presentes em Copenhague para que hoje, enfim, saiam da mesa propostas ambiciosas, tanto em relação às reduções de carbono na atmosfera quanto ao financiamento para ações de mitigação e adaptação dos países pobres. Lula ressaltou que principalmente os africanos merecem “ter a chance de desenvolvimento no século 21 que não tiveram no século 20”. A dobradinha Lula e Sarkozy, iniciada há dois meses, em Paris, quando os dois divulgaram um texto comum sobre a conferência, conta com o apoio da chanceler alemã, Ângela Merkel, e do premiê britânico, Gordon Brown. Ontem, Merkel demonstrou seu descontentamento com os rumos das negociações. “As notícias que nos chegam não são boas. As negociações não parecem promissoras”, afirmou. Um encontro entre os chefes de Estado e de governo estava marcado para o fim da noite de ontem, mas, até o fechamento desta edição, a reunião não havia começado.

Lula e Sarkozy foram claros, durante coletiva de imprensa, ao cravar que querem êxito hoje, no encerramento da COP-15, iniciada em 7 de dezembro. Eles lembraram que não há mais tempo a perder e que, se voltarem para casa de mãos vazias, todo o planeta vai perder. “Precisamos imprimir uma velocidade de cruzeiro a esse debate, para que tenhamos um acordo mais despachado. Não vamos inventar nada de novo, nem números. O que está na mesa é que vamos trabalhar para chegarmos a 2050 com redução de 80% nas emissões”, afirmou o presidente francês. Ele foi duro com os países que se negam a colocar dinheiro no fundo: “Quem quiser que a COP-15 fracasse, que assuma. Nós não queremos o fracasso”.

Retrocesso
Citando a presença de Barack Obama(1) no encontro — ele deve chegar hoje às 9h na capital dinamarquesa —, Lula disse que “não acredita num retrocesso em Copenhague”. “Sabemos que não é possível desenhar o acordo mais perfeito do mundo, mas temos que fazê-lo, considerando o tempo histórico das emissões, e manter o Protocolo de Kyoto com metas claras e objetivas, respeitando a soberania e a diversidade democrática de cada país”, disse. Segundo o presidente, seria imperdoável para a humanidade que os líderes de 193 nações não tivessem capacidade de desenhar uma proposta a ser aprovada hoje. “É preciso que cada um vá assumindo suas responsabilidades. Vamos construir o amanhã. Ouvi muito pessimismo exagerado e temos que evoluir para tornar confortável a situação de todos”, acrescentou.

Ao ser questionado sobre a posição da China, que não quer participar do fundo nem pretende apresentar metas mais ousadas de redução de gases, Nicolas Sarkozy comentou que o país fez progressos. Porém, afirmou que a questão de soberania nacional para os chineses é algo muito importante e que tanto o país como os Estados Unidos iriam fazer um esforço a mais para acordo hoje. “Tanto eu quanto o presidente Lula falamos com o presidente Obama ao telefone(2). Conhecemos sua posição sobre algumas questões. Não vamos resolver tudo, mas tentaremos preparar um documento a ser votado amanhã (hoje)”, disse o francês.

Banquete incompleto
O presidente norte-americano foi uma das ausências no banquete oferecido ontem pela rainha Margarita, da Dinamarca, aos chefes de Estado e de governo de 118 países. Como só chega hoje a Copenhague, ele foi representado por Hillary Clinton. Outro líder mundial sem lugar à mesa foi o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que não foi convidado para o jantar. A festa foi animada com árias de Rossini, interpretadas pela orquestra da Guarda Real dinamarquesa.

Acordo sólido
Na quarta-feira, o presidente Barack Obama conversou por telefone com Lula como parte de seus esforços para desbloquear as negociações climáticas de Copenhague. “O presidente Obama enfatizou ao presidente Lula a importância de que ambos países trabalhem estritamente para alcançar um acordo sólido, que permita um progresso real para elaborar uma ação global que enfrente a ameaça da mudança climática”, explicou o comunicado da Casa Branca divulgado ontem.



Trechos do discurso do presidente Lula
Aqui, em Copenhague, não há lugar para conformismo. Os países desenvolvidos devem assumir metas ambiciosas de redução de emissões à altura de suas responsabilidades históricas e do desafio que enfrentamos

Esta conferência não é um jogo onde se possa esconder cartas na manga. Se ficarmos à espera do lance de nossos parceiros, podemos descobrir que é tarde demais. Todos seremos perdedores

O combate à mudança do clima não pode fundamentar-se na perpetuação da pobreza

Será muito difícil aprofundar as iniciativas de mitigação ou reforçar a capacidade de adaptação, sobretudo dos países pobres e vulneráveis, sem que os fluxos financeiros tenham forte componente de financiamento público

O Brasil participa desta conferência com a determinação de obter resultados ambiciosos. Mas essa ambição tem de ser compartilhada com todos. As fragilidades de uns não podem servir de pretexto para recuos ou vacilações de outros

A hora de agir é esta. O veredito da história não poupará os que faltarem com as suas responsabilidades neste momento

Leia a íntegra do discurso do presidente Lula

 

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A Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que chegou ontem a Cope-nhague, anunciou que os Estados Unidos estão prontos para mobilizar a criação de um fundo no valor de US$ 100 bilhões por ano até 2020, para ajudar países pobres a se adaptar e combater as mudanças climáticas. O valor que o país investirá deve ser divulgado hoje pelo presidente Barack Obama.

Hillary cobrou transparência dos países emergentes nas negociações. “Em muitas ocasiões no passado, todas as principais economias se comprometeram com a transparência. Agora que estamos tentando definir o que essa transparência significa e como podemos implementá-la e observá-la, ocorre uma marcha a ré nessa transparência, e isso, para nós, é algo que prejudica todo o esforço com que estamos comprometidos”, declarou.

O recado foi para a China, que não quer participar voluntariamente do fundo nem se comprometer com metas ousadas de redução de gases de efeito estufa na atmosfera. “Se não houver um compromisso sobre a transparência, consideramos que não pode haver acordo. É preciso ter um compromisso a respeito da transparência”, afirmou Hillary.

O anúncio da contribuição dos Estados Unidos para o fundo foi considerado um bom sinal, porém insuficiente, segundo o sudanês Lumumba Stanislas Dia-Ping, cujo país preside atualmente o grupo do G-77, mais a China. “Muitas questões ainda não foram resolvidas, temos que analisar os detalhes”, afirmou à imprensa.

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