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Correio Braziliense

Fracasso é a herança da COP-15

Em uma reunião esvaziada de líderes mundiais, negociadores fecham um texto que não conseguiu atingir o objetivo de substituir o Protocolo de Kyoto. Conferência acabou em um acordo meramente político, sem força de lei


postado em 19/12/2009 07:00 / atualizado em 19/12/2009 09:53

Cristiana Andrade
Enviada especial


COP-15
AGENDA DO MEIO AMBIENTE

CÚPULA DE PAÍSES TENTA SUPERAR IMPASSES PARA CUMPRIMENTO DE METAS CONTRA O AQUECIMENTO GLOBAL, DE 7 A 18 DE DEZEMBRO, EM COPENHAGUE


Copenhague — Fadada ao fracasso desde o segundo dia, quando vazou o esboço pouco ambicioso do acordo final, a Conferência das Partes da Convenção das Mudanças Climáticas (COP-15), na Dinamarca, afundou-se numa série de impasses e contratempos. A conferência, que deveria ser um dos mais importantes eventos internacionais do século, terminou oficialmente sem conseguir estabelecer metas ousadas de emissões de gases de efeito estufa. Ficou para o fim do ano que vem, durante a COP-16, a discussão de um acordo que substitua o Protocolo de Kyoto. Antes disso, haverá mais uma reunião preparatória em Bonn, na Alemanha.

Um texto costurado às pressas, já sem a presença da maioria dos chefes de Estado, limitou o aumento da temperatura até 2ºC e o corte de 50% das emissões até 2050, além da criação de um fundo, a partir do ano que vem, com US$ 10 bilhões anuais. Tudo que já havia sido falado, mas não decidido, na quinta-feira. Sem força de lei, trata-se apenas de um acordo de cavalheiros.

O clima de fiasco — nem a foto oficial dos chefes de Estado foi tirada — irritou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que criticou os líderes mundiais durante seu pronunciamento de 20 minutos. “Confesso que estou um pouco frustrado porque discutimos a questão do clima e cada vez mais constatamos que o problema é mais grave do que nós possamos imaginar”, afirmou. “Mesmo as metas, que deveriam ser uma coisa mais simples, tem muita gente querendo barganhar”, disse. Antes de concluir sua fala, o presidente alfinetou mais uma vez: “Não sei se algum anjo ou algum sábio descerá neste plenário e irá colocar na nossa cabeça a inteligência que nos faltou até agora. Eu não sei”. Lula partiu para Brasília às 15h (horário local).

O presidente chegou a dizer que o Brasil pode contribuir para o fundo mundial, criado com objetivo de ajudar os países mais pobres a se adaptarem a uma economia limpa, embora não seja obrigado a fazê-lo. “Vou dizer isso com franqueza e em público, o que não disse ainda em meu próprio país, que sequer disse a minha equipe aqui, que não foi apresentado nem diante de meu Congresso. Se for necessário fazer mais sacrifícios, o Brasil está disposto a colocar dinheiro para ajudar os outros paíse”, anunciou, provocando imediatamente aplausos e burburinhos na plateia. No seu entender, no entanto, é preciso que os países desenvolvidos considerem, porém, que “não estão dando esmola”.

Durante toda a tarde de ontem, o presidente reuniu-se com outros chefes de Estado, como com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama91), com quem ficou a portas fechadas por 30 minutos. Governante mais aguardado no evento, o prêmio Nobel da Paz foi uma figura inexpressiva, cuja participação frustrou negociadores e ambientalistassup>(2). Logo depois de Lula discursar, Obama teve a palavra e afirmou que “nenhuma nação poderá obter tudo o que deseja”. No pronunciamento, o presidente norte-americano não fez qualquer referência aos compromissos de seu país sobre a redução das emissões, assim como uma ajuda financeira às nações em desenvolvimento, ou a exigência de transparência dos grandes emergentes, entre eles, a China.

A postura de Obama mereceu um comentário irônico do ministro do Meio Ambiente brasileiro, Carlos Minc. “O prêmio Nobel não está à altura da expectativa que a população do planeta tem em relação a ele. Obama, faça alguma coisa, ou você vai ter que devolver o Nobel aqui”, afirmou. Ignorando o apelo do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que pediu aos chefes de Estado para não irem embora e voltarem para seus países “com as mãos abanando”, Obama foi embora no início da noite. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que não poderia considerar “boas” as negociações.

Falta de compromisso
A última versão do texto costurado pelos líderes mundiais prevê que o aumento da temperatura global seja limitado em 2ºC em relação ao registrado na época pré-industrial, com uma revisão de meta em 2016, quando o número poderia chegar a 1,5ºC. Para o diretor de ações na Amazônia do Greenpeace, Paulo Adário, que virou o dia de quinta para sexta-feira no Bella Center, em mais de 24 horas de trabalhos, o acordo político que deve ser assinado indica um fracasso no processo de diálogo entre as nações. “Esse resultado vai custar caro para os líderes que não tiveram, a visão de mudança da nossa forma de viver. Teremos um acordo só político, vazio de substância, sem compromisso formal, com proposta de financiamento sem sabermos como vai ser arrecadado, lamentavelmente.”

Mas cerca de 100 nações, entre elas, o bloco das pequenas ilhas e dos mais pobres, querem limitar o aumento da temperatura global para 1,5 ºC imediatamente. Isso porque estudos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU mostra que, se houver aumento da temperatura até esse patamar, os recifes de coral — base da cadeia alimentar dos peixes — serão dizimados. Os peixes fazem parte da alimentação de 30% da população do mundo. “Não temos condições de ter um aumento de 2ºC. Pois, se o nível do mar subir, inúmeras ilhas, como Kirabati, Tuvalu, Seychelles, Kirabati e as Ilhas Marshall vão sofrer muito. No nosso caso, será um grande prejuízo. Nosso povo tem uma ligação com a terra muito grande, já existem muitas pessoas sofrendo”, diz um dos integrantes da missão da ONU nas Pequenas Ilhas, Caleb Christopher, que mora nas Ilhas Marshall.

Kamel Djemouai, autoridade argelina que encabeça o grupo africano, declarou que sair sem acordo seria melhor do que sair com um ruim. “Estamos nessa discussão há dois anos para chegar aqui e não termos um acordo legalmente vinculante, que deveria ser assinado e tratado como lei por todos os países. A humanidade não vai perdoar isso”, disse Djemouai.


"Cheiro de enxofre"
Sob a presidência de Barack Obama, os Estados Unidos continuam cheirando a enxofre, como na época de Bush, afirmou ontem o presidente venezuelano, Hugo Chávez, em seu discurso na plenária final de Copenhague. “Obama veio, falou e saiu pela porta dos fundos. Mas o enxofre continua a ser sentido aqui, pelo mundo”, falou ante os 193 países participantes da cúpula, aludindo a um comentário que fez na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2006, em referência ao então presidente George W. Bush.


Libertação
Ao menos 1,5 mil pessoas protestaram no frio glacial das ruas de Copenhague para exigir a libertação de 19 militantes detidos em manifestações precedentes. Portando faixas e bandeiras pretas, os manifestantes, a maioria jovens, gritavam: ‘Justiça Climática já’, ‘libertem os presos políticos’, ‘vergonha, vergonha’. O protesto, convocado pela organização Climate Justice Action (CJA), foi acompanhado por centenas de policiais.

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