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Estado de Minas

Pecados decifrados: avareza


postado em 31/12/2009 09:15 / atualizado em 31/12/2009 11:10

Ela surge acompanhada de uma urgente e ilimitada vontade de querer mais - independentemente do que já se tem ou do impacto que aquele desejo pode ter no próximo. A avareza é uma forma excessiva e insaciável de carência. Para os religiosos, ela nos faz ultrapassar os limites das nossas verdadeiras necessidades, uma ganância sem fim. Na quinta reportagem da série sobre os sete pecados capitais, o Correio conversou com especialistas para descobrir o que está por trás dessa ambição desenfreada que se desenvolveu ainda mais com o passar dos séculos. Para entender melhor esse pecado, é preciso saber que ele não está apenas na ganância pelo dinheiro e pelo poder. "Nossa avareza também está na comida, no sexo, nas drogas e no álcool. Nós produzimos um comportamento de vício, com um crescimento do abuso de substâncias sem o sentido de limite ou de saciedade", explica Sue Grand, psicanalista americana e autora do livro The reproduction of evil: A clinical and cultural perspective (A reprodução do mal: Uma perspectiva clínica e cultural). O estadista e cientista americano Benjamin Franklin definiu o pecado da seguinte forma: "A pobreza quer algumas coisas; a luxúria, muitas coisas; mas a avareza quer tudo". Já Erich Fromm, renomado psicanalista alemão, escreveu no livro Escape from freedom (Fuga da liberdade), de 1941, que a avareza é um buraco sem fundo, que exaure a pessoa num esforço infinito para satisfazer uma necessidade sem nunca atingir o estado de satisfação. %u201CÉ um sentimento difícil de identificar, ainda mais na sociedade moderna. As pessoas do século 16 acreditavam que era muito perigoso do ponto de vista espiritual. Existia até o medo de que a pessoa pudesse, acidentalmente, pecar%u201D, conta Jared Poley, professor do Departamento de História da Universidade de Georgia, nos Estados Unidos. Naquela época, existiam dois tipos de avareza. Um tinha foco no desejo, no fato de a pessoa querer muito algo. O pecado estava justamente aí, na inabilidade de deixar esse sentimento de desejo para trás. O outro estava reservado para aqueles que ganharam tanto quanto podiam durante a vida e não queriam largar a riqueza e a satisfação de adquirir ainda mais. "As duas formas estão ligadas a um tipo de doença social. Essa vontade de alcançar a riqueza se transforma quase em um crime social, porque separa o rico do pobre e consegue destruir nosso senso de comunidade e de conexão", comenta Poley. Um dos maiores críticos a esse pecado era Paracelso, famoso alquimista e filósofo do século 16. Ele imaginava que a avareza era uma espécie de teste que Deus colocava no caminho dos homens. Em um de seus textos ele escreve: "Porque ele tem esse corpo, o homem pode comer mais do que é pedido pela sua natureza, e beber mais do que sua sede necessita. Deus, em sua benevolência, colocou na frente de nossos olhos coisas que desejamos: bons vinhos, mulheres justas, boa comida e bom dinheiro. E esse é o teste: se nós conseguimos permanecer sob controle ou rompemos e excedemos o limite da natureza". Para Martinho Lutero, a avareza estava ligada a uma questão de honra. O teólogo e reformista pregava que o dinheiro deveria ser ganho de forma honesta e apenas algumas profissões conseguiam atingir esse objetivo. "Essa honra vinha com o que cada profissional fazia para contribuir com a sociedade e as leis. Essa ideia era apresentada em contraste com a busca por se ter a barriga cheia e só querer usufruir da riqueza. Era um problema da alma. Foi só nos séculos 19 e 20 que a avareza passou a ser vista como um tipo de patologia que poderia ser tratada", afirma o historiador. A ganância desenfreada que antes era vista apenas pelo aspecto religioso passou a ser estudada pela psicologia. Surgiram as teorias do desejo focadas na ambição e no consumo deliberado. "Sigmund Freud acreditava que a parcimônia e a discrição eram traços de uma personalidade avarenta", diz Poley. Primeiras experiências O desejo desenfreado pode ser influenciado pelas nossas primeiras experiências. A infância humana é cheia de vontades e dependência, as necessidades são sempre urgentes e vemos o mundo como um lugar que ou vai nos gratificar ou nos privar de algo. Segundo Sue Grand, quando passamos para a adolescência, precisamos descobrir que vivemos em um mundo relacional, no qual nossas necessidades não podem predominar e ultrapassar os sentimentos dos outros. "Se falhamos em ensinar a uma criança essas duas experiências, o seu sentimento de necessidade pode se transformar em uma avareza intensa", explica. Geralmente, as crianças que são privadas de amor e limites sentem um intenso desejo por algo mais. Em vez de reconhecer isso como um problema, a família desvia a atenção para essas necessidades emocionais e acaba enfatizando a aquisição material, o poder, o status e o dinheiro como um substituto para esse sentimento de carência. Para a especialista, o trauma da infância nos segue até a fase adulta e traz consequências para nossa vida e personalidade. "A necessidade (de afeto) real fica escondida, a criança permanece faminta, a fome se transforma em urgência e na avareza, vista nas mais diversas culturas", afirma a psicanalista. No filme do diretor americano Oliver Stone Wall Street, o personagem Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, diz uma frase que ficou famosa no fim dos anos 1980 : "Ter ganância é bom". Para Poley, em um mundo capitalista e moderno, a avareza não é necessariamente negativa. "Ela pode servir como motivação para o homem, mas também pode levar ao individualismo extremo, de um esforço enorme para satisfazer os desejos pessoais. E isso continua a deixar abertas as críticas que Paracelso e Lutero fizeram há 500 anos: a avareza continua a ser um crime social em suas diversas formas", conclui o historiador. » Ganância na literatura Um Conto de Natal, Charles Dickens Ebenezer Scrooge é um homem rico e avarento que não gosta de Natal. O empresário não é solidário com os funcionários e se preocupa apenas com os lucros. Na noite natalina, ele se depara com o fantasma de Jacob Marley, seu sócio, morto há sete anos, que diz não ter paz porque nunca foi generoso quando vivo. Essa visita e a dos fantasmas do passado, do presente e do futuro mudam o destino de Scrooge. O grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald Depois de uma longa viagem, Jay Gatsby perde o amor de sua vida para um homem mais rico. Para conquistar a amada de volta, ele enriquece e compra uma mansão vizinha à dela. Para surpreendê-la, promove festas e esbanja luxo. A ganância de Gatsby exemplifica a sociedade americana dos anos 1920, que valorizava sobretudo a riqueza e o glamour. Eugene Grandet, Honoré de Balzac A felicidade de Eugene é atrapalhada por seu pai, um rico comerciante de vinhos cujo único objetivo na vida é acumular mais riqueza. Em sua obra, Balzac demonstra como a busca pelo poder e pelo dinheiro pode influenciar o caminho de alguém. MacBeth, William Shakespeare Quando descobre por uma profecia que pode se tornar rei, MacBeth planeja a morte do monarca para conseguir chegar ao trono. Depois de cometer assassinato e conquistar o poder, ele começa a eliminar todos os que possam atrapalhar seu caminho. A ambição pelo poder transforma e consome sua vida de forma avassaladora. O santo e a porca, Ariano Suassuna O velho Euricão Árabe é devoto de Santo Antônio e esconde em sua casa uma porca cheia de dinheiro. Durante o enredo de Suassuna, ele se questiona o tempo todo sobre o que seria mais importante para ele: o dinheiro ou santo. Euricão está sempre com medo de alguém roubar suas economias e desconfia de todos. Conto Conversão de um avaro de Machado de Assis

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