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Correio Braziliense

Teoria de que répteis pré-históricos evoluíram até o surgimento das aves é mudada

Pesquisadores americanos e chineses identificam espécie de dinossauro que vai derruba a hipótese


postado em 29/01/2010 10:50

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Milhões de anos depois de os dinossauros desaparecerem misteriosamente da Terra, cientistas norte-americanos e chineses encontraram uma nova espécie pertencente ao período Jurássico (1) Superior. Até então, os paleontólogos acreditavam que o Haplocheirus sollers, uma estranha mistura de ave com os temíveis animais pré-históricos, era um pássaro primitivo, ainda sem asas. Porém, a equipe de pesquisadores liderada pelo norte-americano John Choiniere, da Universidade de George Washington, conseguiu comprovar que eles estavam errados. O resultado foi publicado ontem na revista especializada Science.

Encontrado na bacia chinesa de Junggar, na região autônoma de Xinjiang, o fóssil bastante conservado foi submetido a testes radiométricos que constataram que o dinossauro, pertencente ao grupo dos alvarezsauridae, viveu entre 158 milhões e 161 milhões de anos atrás. Em entrevista ao Correio, Choiniere afirmou que, até então, o exemplar mais antigo desse tipo de dinossauro datava de 95 milhões de anos, sendo, portanto, do período Cretáceo Superior. “Nossa descoberta é cerca de 60 milhões de anos mais antiga, o que mostra que esse grupo começou a evoluir há pelo menos 160 milhões de anos”, disse.

O fóssil foi achado em excelentes condições. Os seus aproximadamente 140cm de comprimento estavam preservados, faltando apenas a ponta da cauda, que devia medir entre 190cm e 230cm. Pelo estado da caixa craniana, Choiniere acredita que se trata de um exemplar que morreu no início da idade adulta. O animal possuía pelo menos 30 dentes maxilares, sendo que eles diminuíam de tamanho na parte posterior da boca.

“Posso dar algumas pistas sobre seus hábitos. Ele media cerca 3m de altura e era muito rápido e ágil. Provavelmente, tinha penas, mas que não eram usadas para voar”, contou Choiniere. Também possuía muitos dentes pequenos, que eram pontudos e com serrinhas. Então, provavelmente, ele se alimentava de pequenos animais, incluindo dinossauros menores, mamíferos e répteis, como lagartos”, explicou.

Nas mãos do Haplocheirus sollers está o aspecto mais interessante do achado, do ponto de vista morfológico. Em seus membros superiores, assim como nos demais espécimes alvarezsauridae, havia uma garra, usada, provavelmente, para cavar em busca de esconderijos de presas ou para caçar insetos que viviam em tocos de madeira apodrecida. Porém, ao contrário dos outros animais do grupo, que possuíam dois pequenos dedos sem utilidade, as extremidades das mãos do Haplocheirus eram idênticas às de muitos outros dinossauros carnívoros.

“Isso mostra a transição de um típico dinossauro carnívoro para a forma mais especializada da mão dos alvarezsauridae”, atestou o pesquisador norte-americano. O animal descoberto seria, portanto, o elo perdido da evolução desse grupo, que foi a base dos maniraptoras, ou mãos de garra, em grego, pertencentes ao Jurássico Médio. Trata-se de espécies de dinossauros e de aves que coabitavam a Terra e tinham muitas semelhanças morfológicas. Outra evidência confirma a tese de Choiniere: o espécime descoberto na China era maior que os tradicionais alvarezsauridae, sugerindo que, ao longo do tempo, o grupo foi diminuindo de tamanho até chegar ao formato dos fósseis que datam de 95 milhões de anos.

Coloridos
Outra pesquisa publicada na edição de quarta-feira da revista Nature lançou mais uma luz sobre a morfologia dos dinossauros. Cientistas dos Estados Unidos, da China e da Irlanda apresentaram, pela primeira vez, a cor das penugens que recobriam a pele tanto dos animais pré-históricos quando dos pássaros primitivos. Eles descobriram que o sinosauropteryx, o primeiro dinossauro não voador a apresentar pelos, possuía uma coloração que alternava entre o laranja e o branco. Já o pássaro confuciusornis, que viveu no Jurássico Superior, era branco, preto e laranja- escuro, cores que se espalhavam por algumas partes do corpo. Trabalhos futuros vão permitir um mapeamento mais preciso da coloração e dos padrões de toda a estrutura do pássaro.

A equipe de pesquisadores relatou na Nature dois tipos de melanossomas — organelas onde fica a melanina, substância que dá o pigmento à pele — retirados das penas de numerosos pássaros e dinossauros do nordeste da China. Como a melanossoma é uma parte integrante da estrutura rígida da proteína que compõe os pelos, elas sobrevivem por centenas de milhões de anos. Essa foi a primeira vez que cientistas anunciaram a descoberta dessa substância advinda de animais pré-históricos.

Professor de paleontologia da Universidade de Bristol e principal autor do artigo, Mike Benton afirmou que a pesquisa poderá ajudar a resolver o debate sobre a função original dos pelos — se eram usados para voo, proteção dos raios solares ou apenas por questões estéticas. “Nós sabemos agora que a pelagem veio antes das asas, então, a função original não poderia ser promover o voo”, disse, no estudo. Para ele, o verdadeiro objetivo dos pelos era dar visibilidade ao animal — assim como o pavão, os dinossauros e pássaros pré-históricos tirariam proveito da cor para se exibir. “Apenas depois, na evolução das espécies, a penugem seria útil para voar ou proteger do sol”, afirma.

1 - Tempo dos dinossauros
O período Jurássico durou de 205,7 milhões a 142 milhões de anos atrás e está compreendido na era geológica Mezozoica. Foi o tempo em que os dinossauros dominaram a Terra. Ele divide-se em Jurássico Inferior, Médio e Superior, da mais antiga à mais recente. Logo depois foi sucedido pelo período Cretáceo.

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