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Correio Braziliense

Prato cheio para a dengue

Pesquisadores de São Paulo constatam que excesso de uma substância chamada nitrogênio amoniacal torna a água mais propícia à proliferação do Aedes aegypti


postado em 28/02/2010 17:35 / atualizado em 28/02/2010 17:51

A qualidade da água não é uma preocupação apenas dos seres humanos. O mosquito da dengue também avalia bem as condições do líquido antes de depositar seus ovos. Uma pesquisa da Secretaria de Saúde de São Paulo mostrou que características químicas da água vinda de poços profundos pode contribuir de maneira decisiva para o surgimento de larvas do Aedes aegypti, principal transmissor da doença, que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), atinge anualmente cerca de 100 mil pessoas em todo o mundo. O estudo apontou que a presença de uma substância conhecida como nitrogênio amoniacal atrai as fêmeas do inseto, aumentando em 25 vezes o índice de infestação do mosquito.

O estudo surgiu por causa da grande quantidade de insetos encontrados nas caixas d’água das residências de Potim, no interior de São Paulo. “Percebemos que as casas abastecidas com água de poços profundos tinham um índice de infestação da larva muito maior que as outras residências, abastecidas com água de superfície”, explica a pesquisadora Gisela Rita Alvarenga Marques. “Nelas, mesmo após a limpeza dos lotes e das caixas d’água, o mosquito persistia, e as ações de combate praticamente não tinham efeito”, completa.

Feita a análise físico-química da água dos lençóis freáticos, os pesquisadores detectaram que ela possuía uma concentração de nitrogênio amoniacal 65 vezes maior do que a de outros locais. Na água de Potim, havia 1,93mg dessa substância para cada litro — qualquer concentração acima de 1,5mg/l torna o líquido impróprio para o consumo humano. Em Taubaté (SP), de onde foi retirada a amostra que serviu de comparação para a pesquisa, essa concentração era de apenas 0,03 mg/l.

Segundo a pesquisadora, as fêmeas do Aedes aegypti preferem botar seus ovos na água com nitrogênio amoniacal pois ele dá maiores chances de sobrevivência para as larvas. “Essa substância libera uma espécie de cheiro que atrai as fêmeas do inseto. O nitrogênio amoniacal estimula a produção de matéria orgânica, que servirá de alimento para as larvas dos insetos”, explica Gisela.

Os pesquisadores ainda não sabem por que a concentração da substância na água de Potim é tão grande. Para isso, novas pesquisas ainda precisam ser feitas. “Existem várias hipóteses que justificam essa situação atípica. As principais são a de que a água desse lençol freático tenha sido contaminada pela ação humana. Outra possibilidade é a de que as características geológicas do local propiciem a grande quantidade de nitrogênio amoniacal nos recursos hídricos”, afirma a pesquisadora.

Independentemente da causa, a ausência de monitoramento da qualidade da água foi preponderante para a superpopulação do mosquito. “O Ministério da Saúde adota padrões muito rígidos para níveis de contaminação da água com substâncias como o nitrogênio amoniacal, portanto, se essa água estava sendo distribuída para a população, a qualidade não estava sendo monitorada. Assim, da mesma forma que isso ocorreu em Potim, pode estar acontecendo em várias outras cidades que também são abastecidas por poços profundos”, completa Gisela.

Distrito Federal

A pesquisa serve de alerta para a necessidade de atenção especial à água subterrânea utilizada no abastecimento doméstico. No Distrito Federal, poços profundos abastecem a cidade de São Sebastião, além de comunidades agrícolas localizadas em regiões distantes da rede principal, que utilizada captação de águas de superfície. Além disso, localidades como Vicente Pires e Park Way são abastecidas por poços rasos, onde o risco de contaminação é ainda maior.

A responsabilidade de monitorar a qualidade da água servida na rede pública do DF é da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). “O que não impede, que nós, sempre que há alguma dúvida sobre a qualidade da água de alguma região, façamos análises em laboratórios contratados por nós”, explica Plínio Cícero, superintendente de Fiscalização de Serviços Públicos da Agência Reguladora de Águas e Saneamento do Distrito Federal (Adasa), órgão responsável pela fiscalização da concessionária de água.

No caso do abastecimento em poços artesianos, sejam eles domésticos ou de condomínios, os donos dos terrenos onde estão instalados são os responsáveis pelo monitoramento. “Mesmo para a captação doméstica, antes de perfurar, é preciso fazer um estudo que verifique a qualidade dos recursos hídricos daquele local. E, em toda renovação, que acontece no máximo a cada cinco anos, esses testes precisam ser refeitos”, explica Plínio. No caso de poços perfurados clandestinamente, é responsabilidade da agência fazer fiscalizações periódicas para evitar o uso indevido da água. “Felizmente, nós não encontramos alterações nesse tipo na água em Brasília, pois mantemos um controle rígido de sua exploração, já que ela é um bem público”, completa.

Mesmo com todos esses cuidados, o Distrito Federal enfrenta uma epidemia de dengue. Segundo o assessor da Subsecretaria de Vigilância em Saúde Ailton Domicio da Silva, as cidades mais atingidas são Itapoã, Paranoá, Planaltina, São Sebastião e Vila Planalto. “Além disso, a doença começa a se alastrar por outras localidades, como Samambaia”, explica.

O assessor orienta que a população tome cuidado para não deixar água acumulada. “A ciência estuda uma maneira de acabar de vez com a doença. Enquanto ela não chega, é muito importante que os hospedeiros do vírus sejam eliminados”, afirma. “Isso vale tanto para as localidades em que a doença já é epidêmica quanto nos demais lugares”, completa Silva.

O NÚMERO

100 mil

Total estimado de infectados pela dengue a cada ano em todo o mundo

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