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Correio Braziliense

Confira íntegra da entrevista com o especialista em dengue Luke Alphey


postado em 28/02/2010 17:42 / atualizado em 28/02/2010 17:48

Como funciona a técnica desenvolvida por vocês? Por que somente a fêmea perde a capacidade de voar?
As fêmeas não conseguem voar, mas continuam tendo asas. Eles têm aparência completamente normal, mas os músculos das asas são muito fracos para conseguirem levantar voo. Os machos desta linhagem (portadores do gene inserido por nós) podem voar, ou seja, são completamente normais. O gene que faz com que fêmeas não consigam voar é repressível - se lhes damos um antídoto químico enquanto larvas elas voltam a ter força nos músculos das asas, e assim, capacidade de voar. Deste modo, podemos controlar a capacidade de voo em laboratório, à medida que damos ou não o antídoto.
O método é uma adaptação da técnica de uso de insetos estéreis, que tem sido utilizada em larga escala contra algumas pragas agrícolas há mais de 50 anos, em casos como a bicheira do novo mundo, da mosca da fruta mediterrânea, o método utilizando consiste em emitir radiação até que grande parte dos insetos se tornem estéreis, esta técnica é chamada de Técnica do Inseto Estéril (Sterile Insect Technique ou SIT, em inglês). Nós chamamos a nossa versão de Liberação de Insetos Carregando um Sistema Letal de Genética Dominante (RIDL) (ou release of insects carrying a dominant lethal genetic system, em inglês). Funciona assim:

- Fazemos crescer e se desenvolver normalmente um grande número de mosquitos RIDL (dando-lhes a capacidade de voar para reproduzir através do antídoto).

- Retiramos alguns de seus ovos e os tratamos sem antídotos. Assim, apenas os filhotes machos conseguem voar.

- Liberamos esses machos RIDL na área em que desejamos combater o mosquito. Eles vão procurar se reproduzir com as fêmeas selvagens. O resultado deste acasalamento vai herdar uma cópia do gene RIDL de seu pai. Isto significa que as descendentes femininas não podem voar e são, portanto, tornam se incapacitados ou morrem (elas não podem evitar os predadores, não podem voar para obter uma refeição de sangue e também não podem atrair companheiros, já que os machos são atraídos pelo barulho do batido das asas das fêmeas).

- Portanto, haverá menos fêmeas e, portanto, menos picadas e menos reprodução.
Se uma quantidade de machos RIDL suficiente for liberada por um determinado período, em pouco tempo a população do inseto entraria em declínio e colapso. Também é importante lembrar que só os mosquitos fêmeas picam – machos não picam e são completamente inofensivas para os seres humanos.

Como poderia ajudar a combater a transmissão de doenças como a dengue?
A transmissão de dengue é completamente dependente dos mosquitos, teoricamente não poderiam ser várias espécies, mas na maioria dos casos a única que transmite a doença é o Aedes aegypti. Se pudéssemos controlar esse mosquito então poderíamos controlar ou eliminar a transmissão da dengue. Este é certamente o foco das atuais atividades de controle da dengue (já que não existe medicamento específico ou vacina eficaz). No entanto, métodos de controle atuais não são suficientemente eficazes. Pulverização para matar os adultos, na melhor das hipóteses, só funciona no curto prazo. Localizando e eliminando os locais de criação das larvas funciona bem, mas esse mosquito pode crescer em uma grande variedade de recipientes com água, e é praticamente impossível encontrar todas elas. Por outro lado, os mosquitos machos (alterados por nós) buscarão fêmeas silvestres para se acasalar, transmitindo o gene que impede o vôo delas.

Qual é o próximo passo da pesquisa? Em quanto tempo esta técnica poderá começar a ser aplicada em grande escala?
A próxima etapa é testar a eficácia em uma série experimentos de escala crescente (algo análogo a um ensaio clínico de um medicamento ou vacina). Um grande ensaio interior já foi concluído com êxito pelos nossos colaboradores na Universidade Estadual do Colorado, por isso o próximo passo é ir testar a técnica no campo. Ela aplicada em uma pequena escala no campo (numa base experimental), logo que o próximo ano. Posteriormente os progressos dependerão da rapidez com que os potenciais beneficiários (isto é, pessoas e governos de cada país endêmico de dengue) apliquem a técnica, o que deve acontecer em média daqui três ou quatro anos.

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