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Correio Braziliense CHINA

História do primeiro imperador da China é recontada


postado em 02/03/2010 07:00 / atualizado em 02/03/2010 11:05

As conquistas do primeiro imperador da China, Chin Shi Huang Di, foram ricamente documentadas ao longo de 2 mil anos em textos sobre os feitos do guerreiro que unificou o país. Seu reinado também foi marcado por fatos notáveis: foi quando começaram, por exemplo, as obras da Grande Muralha, uma das sete maravilhas do mundo. Mesmo depois de milênios, os relatos a respeito do líder continuaram, principalmente depois que exploradores descobriram, em 1974, sua tumba, guardada por soldados de terracota do tamanho de seres humanos.

Mas a dupla de antropólogos Gary Feinman e Linda Nicholas, pesquisadores do Field Museum, em Chicago, tinha uma desconfiança: a de que a história é escrita por vencedores. Textos antigos, alegam, podem conter informações erradas, favoráveis à memória de Shi Huang Di. Para descobrir se a história tem sido benevolente em demasia com o imperador, os cientistas, que são casados, foram a campo. Como detetives, desde 1996 eles vêm escavando os campos da China, atrás de pistas sobre a história do país quando estava sob o império do conquistador.

A cada ano, eles passavam entre quatro a seis semanas à caça de cerâmicas e outros artefatos por toda a China rural, com a ajuda de colegas da Faculdade de História e Cultura da Universidade de Shandong. Depois, comparavam antigos escritos com as evidências arqueológicas, de forma a ter uma visão mais holística de Shi Huang Di e sua influência na província de Shandong. O resultado da pesquisa foi publicado pelo periódico científico norte-americano Proceedings of the National Academy of Sciences no início da semana.

Embora saibam que Shi Huang Di foi o primeiro guerreiro a unificar a China em 221 a.C., os pesquisadores têm poucos detalhes sobre suas conquistas anteriores e como elas mudaram a história dos lugares por onde ele passou. Registros mostram que, dois anos antes, em 219 a.C., o imperador visitou a montanha de Langya, no sudeste da costa de Shandong. Escritos daquela época disseram que ele ficou deleitado com a beleza do local e resolveu passar três meses por lá. Depois, teria ordenado a colonização da área por 150 mil pessoas, prometendo que os novos imigrantes estariam livres de impostos e do trabalho obrigatório durante 12 anos.

Ele começou a construir uma rede de estradas nessa região extremamente longe da capital, com o objetivo de facilitar o deslocamento de tropas, oficiais e comerciantes. A proximidade a fontes de sal e de aço fez da montanha um lugar atrativo para as atividades econômicas. “Sua ordem para colonizar a área não foi apenas resultado de seu encantamento com a montanha. Ele provavelmente queria mudar pessoas leais a ele para uma região hostil. Ele tinha uma estratégia de unificação em mente — estava consolidando seu império e desenhando a fundação do que hoje é a nação moderna chinesa”, disse Feinman ao Correio.

Gente comum

Muito pouco foi escrito sobre a área costeira de Shandong antes do movimento de colonização de Shi Huang Di, e alguns historiadores acreditam que, anteriormente à chegada dos novos moradores, havia povoados esparsos na região. Porém, os pesquisadores do Field Museum e seus colegas chineses encontraram potes de cerâmica, ferramentas e outros traços de antigos povoados que indicam uma primeira ocupação significativa na área entre 2,6 mil e 2,4 mil antes de Cristo, durante a dinastia Longshan. Ou seja, bem antes de o imperador se encantar com a beleza local. “Shi Huang Di não apenas colonizou a montanha para encher a área de gente. Agora, sabemos que havia pessoas morando lá antes. Esse local tinha sua própria história e desenvolvimento. Mas os historiadores costumam escrever sobre reis e imperadores, não se interessam por gente comum”, afirma Feinman.

A colonização gerou mudanças políticas que afetaram o tamanho dos povoados ao longo da região. Porém, até os pesquisadores do Field Museum escavarem a área ao redor da moderna cidade de Langya, em 2008, não se tinha noção da imensidão das “pegadas” deixadas pelo imperador. À medida que se afastavam do centro moderno da cidade, eles encontravam frequentemente potes antigos, espalhados por uma área de 24km².

“Nossa pesquisa providencia um contexto holístico para esse episódio imperial e as mudanças que provocaram na costa de Shandong. Comparando os registros escritos recentes com a pesquisa arqueológica, agora sabemos que a área já era bem populosa antes da colonização promovida por Shi Huang Di”, acredita Feinman. “A arqueologia amplifica os registros textuais e preenche os vazios com novos detalhes sobre esse importante período da história chinesa.”

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