Paloma Oliveto
postado em 04/03/2010 07:00
Os mais fascinantes animais da pré-história podem ser também mais antigos do que se pensava. A descoberta de um fóssil do Período Triássico por um time de pesquisadores internacionais, divulgada hoje no periódico especializado Nature, deve mudar o entendimento da ciência sobre o nascimento e a evolução dos répteis gigantes. O grupo de paleontólogos liderados por Sterling Nesbitt, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, apresentou o fóssil do protodinossauro Asilisaurus kongwe, espécie que tem muitas características dos dinos, mas não pode ser considerado do mesmo grupo, por não pertencer à mesma árvore genealógica, datando de 240 milhões de anos atrás. Para se ter uma ideia, o dinossauro mais antigo já encontrado por paleontólogos é 10 milhões de anos mais novo.
A nova espécie, descoberta na Tanzânia, na região de Songea, é o primeiro protodinossauro triássico do continente africano, e seu nome é uma mistura de partes das palavras asili, sauros e kogwe, que significam ancestral, réptil e antigo, respectivamente. Durante a escavação, em 2003, foram encontrados ossos de 14 exemplares, o que permitiu montar o esqueleto completo, exceto por algumas partes do crânio e das mãos. A reconstrução revelou um aspecto bem diferente do que era imaginado sobre os silessauros, grupo de animais ao qual o Asilisaurus pertencia.Até agora, os paleontólogos pensavam que esses parentes próximos dos dinossauros eram bem pequenos, andavam em duas pernas e eram carnívoros. A análise do fóssil, porém, mostrou que eles estavam errados. Os silessauros alcançavam até 1m de altura e se estendiam por 3m de comprimento. Pesavam entre 10kg e 20kg, andavam sobre quatro patas e a maioria seguia uma dieta vegetariana. Quando comiam carne, completavam a refeição com boas doses de plantas. ;A coisa mais louca sobre essa nova descoberta é que ele é muito diferente do que todos nós esperávamos, principalmente pelo fato de serem herbívoros e andarem sobre quatro patas;, contou ao Correio Randall Irmis, curador de Paleontologia do Museu de História Natural de Utah, nos Estados Unidos, que há três anos participa da equipe de pesquisadores.
De acordo com ele, os cientistas sabiam que havia algumas espécies triássicas que se encaixariam em um grupo específico, mas, só agora, depois de dissecar a anatomia do fóssil, eles podem afirmar com certeza que existiu, naquela época, a espécie dos silessauros. Esses animais estavam distribuídos por todo o planeta em um período geológico chamado Pangeia, quando os continentes eram unidos em uma só massa.
Ancestral comum
Segundo Irmis, para entender o grau de parentesco entre os silessauros e os dinossauros, é só pensar no homem e no chimpanzé. Ele explica que, apesar de os dinos mais antigos já descobertos terem 230 milhões de anos de idade, a existência de seus parentes próximos em um período entre 10 milhões e 15 milhões de anos antes disso implica que a linhagem de ambos se dividiu de um ancestral comum há cerca de 245 milhões de anos. Os silessauros continuaram a viver lado a lado com os primeiros dinossauros a habitar a Terra durante boa parte do Período Triássico. Os cientistas também concluíram que outros parentes dos dinossauros, como os voadores pterossauros e pequenas formas chamadas lagerpétides, podem também ter se originado muitos anos antes do que se pensava previamente.
A análise do fóssil mostrou que os silessauros tinham dentes triangulares e uma mandíbula semelhante a um bico, sugerindo que possuíam uma dieta baseada em plantas e ovos. Há pelo menos duas linhagens de dinossauros com a mesma característica, os sarópodes e os ornitísquios. Nos três casos, o aspecto dos animais fez com que, inicialmente, se pensasse que eram apenas carnívoros, o que depois foi desmentido. Apesar da dificuldade em comprovar a hipótese, os pesquisadores acreditam que essa dieta maleável, que incluía tanto carne quanto plantas, foi o que garantiu a evolução das espécies e sua longa permanência na Terra.
Segundo Randall Irmis, a pesquisa sugere, devido à anatomia dos fósseis estudados, que pelo menos três vezes durante o processo evolutivo, os dinossauros e seus parentes próximos passaram de exclusivamente carnívoros para comedores de plantas também. ;Essas mudanças ocorreram em menos de 10 milhões de anos, um tempo relativamente curto para os padrões geológicos, então pensamos que a linhagem que deu origem tanto ao silessauro quanto ao dinossauro poderia ter uma grande flexibilidade em sua dieta, e que essa seria uma razão de seu sucesso.;A nova espécie foi encontrada com um número razoável de crocodilos primitivos, no mesmo campo do sudeste da Tanzânia. A presença desses animais sugere que a diversificação dos parentes dos crocodilos e dos dinossauros foi rápida, e que aconteceu antes do que se pensava. O fato lança luz sobre um grupo de animais que depois iria dominar o ecossistema terrestre ao longo de toda a Era Mezozoica, entre 250 milhões e 65 milhões de anos atrás. ;A pesquisa mostra que há mais grupos de animais a serem descobertos do período triássico. É muito empolgante, porque quanto mais aprendermos sobre essa época, mais saberemos sobre a origem dos dinossauros e de outras espécies;, afirma Irmis. ;Todo mundo adora os dinossauros, mas essa nova evidência sugere que eles eram apenas um dos grandes e distintos grupos de animais que vieram à tona no Período Triássico;, afirmou Sterling Nesbitt, principal autor da pesquisa, por meio da assessoria de imprensa da Universidade do Texas.
1 - Mar de Tétis
A era Mesozoica é dividida em três períodos: Triássico, Cretáceo e Jurássico, sendo esse último o mais recente. O triássico ocorreu há 250 milhões de anos e é marcado pela expansão do Mar de Tétis, oceano que deu origem ao Mar Mediterrâneo. No início, o mundo era uma só massa, a chamada Pangeia, que depois se dividiria nos continentes.
; Três perguntas para
Randall Irmis, curador de Paleontologia do Museu de História Natural de Utah
Por que o Asilisaurus kongwe não pode ser considerado um
dinossauro? Qual a principal diferença entre ele e os dinos?
O Asilisaurus pertence a um novo grupo reconhecido de animais chamado silessauro. Eles compartilham um ancestral comum com os dinossauros, mas estão em ramo separado, como ocorre entre humanos e chimpanzés. Há uma variedade de características nos ossos que mostram que o Asilisaurus e os outros silessauros não são dinossauros. A mais fácil de compreender refere-se ao fato de que os dinossauros tinham um buraco na concavidade do quadril, onde os ossos das patas traseiras se encaixavam. Em contraste, essa área no silessauro é uma depressão rasa, e não um buraco.
O senhor acredita que a diversidade dos animais
pré-históricos pode ser muito maior do que pensamos?
Uma das maiores conclusões do nosso estudo é que os parentes próximos dos dinossauros (;protodinossauros;) surgiram e se diversificaram 10 milhões de anos antes do que pensávamos. Por causa dos dois ramos evolutivos de silessauros e dinossauros terem se desmembrado cerca de 245 milhões de anos atrás, isso indica que a linhagem ancestral dos dinossauros é mais velha do que imaginamos, e que há um espaço de 20 milhões de anos dos quais não existem fósseis. Temos esperança de que num futuro próximo possamos preencher esse espaço com novas descobertas.
Em sua opinião, qual a maior contribuição do estudo para a ciência?
Acho que as conclusões mais importantes são que a linhagem dos dinossauros vai além do tempo do que previamente pensávamos e que os primeiros dinossauros e seus parentes próximos eram muito diferentes na forma que viviam suas vidas. Eles não eram pequenos carnívoros de duas patas. Além disso, alguns eram onívoros, alguns herbívoros, alguns andavam em quatro patas etc.