Ciência e Saúde

Células-tronco adultas são a aposta de uma equipe da Unifesp para regenerar tecidos da uretra

Técnica possibilitaria menor risco de rejeição

postado em 06/04/2010 07:00
A incontinência urinária é uma doença que traz grandes prejuízos emocionais e físicos para seus portadores. Estima-se que, em todo o mundo, cerca de 60 milhões de pessoas, entre homens, mulheres e crianças, sofram do problema. Entre 15% e 30% dos indivíduos com mais de 60 anos apresentam algum grau de incontinência. Apesar de apresentar grande impacto na qualidade de vida dos portadores, a doença, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, possui formas de tratamento efetivo, como a fisioterapia do assoalho pélvico, medicamentos e cirurgias. Agora, pesquisas realizadas pela equipe do médico urologista Fernando Gonçalves de Almeida, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apontam as células-tronco como uma nova arma no tratamento terapêutico da doença.

Técnica possibilitaria menor risco de rejeiçãoO estudo aposta nas células-tronco adultas derivadas do tecido adiposo, conhecidas como adipose derived stem cells (ADSC, sigla em inglês). ;Já vimos que essas células têm o poder de se transformar em músculos na uretra de coelhas, regenerando o órgão afetado;, explica Almeida. O entusiasmo do médico se dá pelo fato de essas células apresentarem vantagens sobre outros tipos de células-tronco, como as da medula óssea e as umbilicais. Como a gordura existe em abundância no corpo, a facilidade em obtê-las é maior. ;A retirada das ADSC é feita por meio de uma simples lipoaspiração, feita em qualquer lugar do corpo, enquanto as células-tronco da medula óssea são retiradas por meio de um processo mais doloroso e invasivo;, compara o urologista.

Outra vantagem das ADSC é seu potencial de transformação em células dos órgãos, ou tecidos, onde são injetadas. De acordo com Almeida, essas células-tronco começaram a ser estudadas a partir de 2002, com objetivos clínicos. ;Elas foram isoladas de lipoaspirados humanos e possuem a capacidade de se transfomar em células adiposas, ossos, cartilagens e em linhagens neuronais;, cita. Além disso, elas possibilitam o transplante autólogo, ou seja, no próprio doador ; o que diminui os riscos de rejeição. O grupo de Almeida testou tal procedimento em coelhas e o trabalho, publicado recentemente no International Urogynecology Journal, é o primeiro a demonstrar a viabilidade do transplante autólogo de ADSC no trato urinário. ;O fato de não haver rejeição dessas células é um grande passo para desenvolver um novo processo terapêutico;, afirma Almeida.

Método

Nesse modelo (veja arte), o tecido adiposo de patas de coelhas foi coletado e as células-tronco identificadas e separadas. Depois, elas foram multiplicadas em laboratório, resultando num total de 5 milhões de ADSC. Em seguida, foram injetadas na parede uretral lesionada ; propositalmente ; das coelhas doadoras. Na oitava semana após a injeção, as células já apresentavam a tendência de se espalhar e se integrar na parede da uretra, sem apresentar sinais de rejeição ou inflamação. ;O tecido lesionado da uretra das coelhas se recuperou um pouco e a incontinência urinária desses animais diminuiu, mas não totalmente;, conta Letícia Siqueira de Sá Barretto, pesquisadora do Departamento de Urologia da Unifesp, que trabalha em conjunto com Almeida.

Segundo a pesquisadora, os testes, no entanto, têm o objetivo maior de descobrir o comportamento dessas células-tronco no organismo. ;Precisamos saber como elas se desenvolvem no organismo lesionado, sua eficácia e, principalmente, sua viabilidade e condições de segurança, para não se transformarem em tumores;, explica.

Nos testes, elas foram injetadas diretamente na uretra lesionada das coelhas, por meio de uma cirurgia. Porém, pensando, futuramente, em uma aplicação menos invasiva ; no caso uma injeção sistêmica, diretamente na corrente sanguínea ;, essas células poderiam migrar para outros órgãos sadios e se multiplicarem exacerbadamente, resultando em tumores. ;Por enquanto, nos testes feitos com animais, em laboratório, as ADSC aplicadas não migraram para outro tecido. Mas isso não pode ser levado em conta como certeza. Temos que fazer mais testes em tempos maiores;, disse Barreto.

Perspectiva

A perda involuntária de urina é decorrente do mau funcionamento dos nervos e músculos da bexiga e da uretra. Dessa forma, a reparação de danos desses tecidos é fundamental para restaurar a continência urinária. De acordo com Almeida, a terapia com as ADSC pode ajudar, no futuro, portadores de incontinência urinária que não respondem aos tratamentos convencionais. ;Muitos casos da doença, em homens e mulheres, não podem ser curados com os tratamentos cirúrgicos convencionais. Esses casos poderiam se beneficiar da aplicação de células-tronco, que ajudaria na regeneração do órgão afetado;, avalia o médico urologista.

Almeida e Barreto especulam, porém, que essa terapia pode não ser 100% eficaz, mas mesmo proporcionar uma qualidade de vida maior do que a assegurada pelos tratamentos atuais. ;Para quem tem incontinência urinária, ter 50% do seu problema resolvido já é uma vitória;, afirma a pesquisadora Letícia Barreto. ;Infelizmente, as pesquisas ainda estão em estágio experimental e levará muitos anos até que tenhamos resultados satisfatórios quanto à eficácia e à segurança do uso de células-tronco em humanos. Mas os resultados iniciais são bastante animadores. Por esse motivo é que estamos muito confiantes nas pesquisas;, diz Almeida.

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